ANVISA proíbe o uso do agrotóxico paraquate; medida só valerá daqui 3 anos

Nos melhores casos, o contato com o veneno leva à morte rápida. Nos piores, leva à fibrose pulmonar e morte lenta

Neste mês, após 9 anos de análise, a ANVISA emitiu parecer sobre o paraquate (mais conhecido como gramoxone). Vai proibir seu uso no Brasil, daqui a três anos, porque agora reconhece que se trata de veneno mortal e sem antídotos, que é absorvido pela pele, pela respiração e, é claro, pela boca através dos alimentos produzidos com seu uso.

Reconhece assim, que nos melhores casos, o contato com o paraquate leva à morte em poucos dias. Nos piores, leva à fibrose pulmonar com morte lenta, por asfixia. Ao mal de Parkinson, à deterioração no fígado, nos rins, nas células germinativas (espermatozoides e óvulos) e no sistema nervoso central. Reconhece também que suas moléculas passam pela placenta e alcançam os bebês, que nascerão deformados, ou mortos.

Porque a proibição só valerá daqui a três anos?

Para que as revendas possam colocar seus estoques e a Syngenta, empresa que fabrica o veneno, possa lutar contra esta decisão? Talvez. Afinal se trata de um grande negócio. Apenas em 2014 as lavouras brasileiras usaram, quase 9 mil toneladas (ou nove milhões de litros de venenos.) Deste veneno, e isto deve ajudar a reunir apoios em defesa dos interesses envolvidos E tudo indica que Syngenta não está só nesta luta.

As noticias mostram que ela conta com a bancada ruralista, com o poderoso Ministério da Agricultura, com vários professores doutores e até com as entrelinhas do relatório da Anvisa, que ao reconhecer a necessidade da proibição, coloca dúvidas sobre alguns estudos, afirmando que “não há evidências que o paraquate deixe resíduos nos alimentos”, e que devem ser levadas em consideração “novas evidências que excluam o potencial mutagênico do produto e garantam exposição negligenciável em todas etapas de contato com o produto”.

Com estas palavras, o relator do parecer da ANVISA trata de assegurar aos consumidores europeus, da soja e do milho brasileiro, que não estarão importando paraquate, como já importam 2,4D e glifosato, dentro dos “nossos” grãos transgênicos.

Também reforça argumentos do MAPA, que sugere que a culpa é das vítimas, que não tomam precauções para evitar o contato com o veneno. Todos argumentam que o uso adequado de equipamentos de proteção melhorados, e cursos para os aplicadores, resolveriam o problema das intoxicações. Afirmam que não é possível produzir sem venenos e que este veneno em especial não merece o preconceito que lhe querem imputar.

Portanto, estariam errados os legisladores, os técnicos e os cidadãos de todos os 27 países da Comunidade Econômica Europeia,da Bósnia-Herzegovina, do Kuwait, da Malasia, do Camboja, do Laos, dos Emirados Árabes, da Síria, da Coreia do Sul, da China e de El Salvador, além de mais pelo menos 10 países da África, onde o paraquate já é probido.

Devem acreditar, também, que nossos trabalhadores são mais guapos e mais fortes, não se deixam abater por qualquer veneno, e que suas mulheres e filhas não lavam as roupas contaminadas, e que os resíduos, nas embalagens, nos tanques, nas áreas de aplicação e lavagem, simplesmente somem sem deixar sequelas.

Na nossa perspectiva a única opção é a eliminação do produto, seu banimento de nosso território. Queremos que aqui, como na Grã-Bretanha onde ele é fabricado, ele não seja utilizado.

Estamos certos de que a sociedade precisa ser informada para se posicionar contra esta e tantas outras medidas que comprometem a saúde da população e do ambiente. Precisamos todos conhecer e apoiar o PL 6670/2016, que institui a Política Nacional de redução de Agrotóxicos. Para detalhes, ver www.chegadeagrotoxicos.org.br.

* Leonardo Melgarejo faz parte da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, e é vice-presidente para a região sul, da Associação Brasileira de Agroecologia.

Fonte: Brasil de Fato

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