Marcas da beleza mundial pesquisam plantas no Norte do Brasil

Sementes de ucuuba. Foto: Pablo Saborido

“Pataqueira planta rasteira, que cultivamos na areia, chorando o mistério da beira do Igarapé.

É pataqueira, planta perfumada, banho de cheiro do Estado do Pará”

O canto de Maria das Graças, 58, é embalado pelos violões, chocalhos e batuques do Carimbó, ritmo típico paraense. Agricultora de Santo Antônio do Tauá, a 64 km da capital Belém, ela dança e faz poesia sobre o dia a dia das dezenas de famílias de sua comunidade, responsável pelo cultivo e extração da planta tema de sua música.

Presa aos cabelos da compositora, o “ervão”, como os nativos chamam o ativo cosmético, levou alvenaria às casas de taipa e comida às casas de quase cinquenta famílias do entorno, também encarregadas do manejo orgânico de outras plantas, como a recém-descoberta patauá e a hidratante priprioca.

O mistério do qual Maria trata no verso foi estudado no início dos 2000 pelos agricultores. Juntos, desenvolveram um método para tirar a pataqueira da beira dos rios amazônicos, os igarapés, e colocá-las em solo encharcado por mangueiras que simulam a ação dos afluentes.

Só dessa forma foi possível fazer toneladas da planta saírem dos campos diretamente para os cremes rejuvenescedores, perfumes e hidratantes das casas europeias e brasileiras.

Empresas francesas como L’Occitane e L’Oreal descobriram a força dos ativos da amazônia paraense e passaram a manter relação com as associações e cooperativas do Pará. Foi a brasileira Natura, porém, que viu primeiro o potencial da biodiversidade.

Desde 2002, ribeirinhos passaram a enxergar a possibilidade de extração do sustento para além da farinha de mandioca, que ainda queima nas pequenas casas de todo o Estado, mas perdeu espaço para o quase 34 ativos conhecidos disponíveis nas ilhas férteis.

“Quem produz quer escoar, quem escoa quer vender”, repete duas vezes o agricultor José de Souza, 75, para explicar o porque de ter fincado raízes e mãos no solo de Tauá. Em uma casa recém-reformada, ele vive com o irmão, também afiliado da Associação de Produtores e Produtoras de Campo Limpo, assim mesmo, no masculino e feminino, porque maridos e mulheres são iguais na divisão do plantio.

Eles tiram até R$ 2 mil em época de colheita, e complementam a renda vendendo frutas e hortaliças sem agrotóxicos na feira do mercado ver-o-peso, na zona histórica de Belém.

O ouro bruto da indústria de cuidados pessoais, que pouco sofre a crise econômica e faturou quase R$ 20 bilhões no ano passado, está em lugares remotos, a que se chega só de barco e canoa.

Em Abaetetuba, uma das últimas paradas do nordeste paraense antes da mata fechada, o pequeno porto vive repleto de barquinhos lotados de cestas de açaí, o coração da cultura extrativista do Pará. Debaixo de sol escaldante, amansado por guarda-chuvas coloridos, famílias inteiras vêm e vão em barcos, igualmente coloridos, que contrastam com a água amarelada do rio.

Vanildo Quaresma, 46, faz parte de uma dessas famílias, pai de dois meninos, um de 15 e outro de 10 anos, e uma adolescente de 17 anos, que não apareceu porque na visita da reportagem organizava uma manifestação contra a exploração sexual infantojuvenil.

Vanildo Júnior, o mais velho, teima com a mãe, dona Helena, para subir nas árvores de açaí para ajudar no almoço. Valter, o mais novo, insiste em encarar o sobe e desce da maré ao lado do pai durante as travessias de canoa até as ilhotas onde caem sementes como o murumuru, a ucuuba e a andiroba.

São elas que abastecem a Cofruta, cooperativa de 86 pessoas responsável por abastecer boa parte da produção brasileira dos ativos. Para se ter ideia da extensão, por mês, duas toneladas de manteiga de murumuru são produzidas na sede da cooperativa.

NOVO RECORTE

Práticas sócio-ambientais como essa não ajudam apenas a manter pele e cabelos longe de produtos químicos, mas também a serra elétrica das árvores, mitigando o crescente corte ilegal de árvores da Amazônia.

Antes de virar objeto de desejo, as árvores dessas sementes engrossavam estatísticas do desmatamento em prol da indústria de móveis. Ainda que seja prática comum, o corte saiu do radar de vários ribeirinhos cientes do benefício financeiro de manter árvores que demoram 15 anos para crescer, mas cuja venda do tronco não passa dos R$ 20. Com a extração responsável, uma família tira dois salários mínimos por mês.

Para a indústria cosmética, a floresta viva significa a sobrevivência dos negócios em um mercado povoado por jovens atentos à origem dos produtos.

“Infelizmente, o desmatamento não é um problema exclusivamente do país. O mundo está destruindo seus próprios recursos e não se trata apenas de um problema de um governo ou outro, mas de um pensamento”, diz o diretor global de sustentabilidade da grife inglesa The Body Shop, Christopher Davis. A marca desenvolve há mais de quatro décadas trabalhos em comunidades rurais em todo o mundo.

“É uma questão estratégica. A nova geração de consumidores tem valores diferentes da passada, que viveu um momento de expansão e consumo a qualquer custo”, diz a vice-presidente de sustentabilidade, inovação e marketing da Natura, Andrea Alvares, 46.

Qualquer custo mesmo. No mês passado, a Natura comprou a grife inglesa The Body Shop de sua antiga dona, a L’Oreal, por 1 bilhão de euros. A transação pode dar frutos comerciais, e levar as plantas de Maria da Graça para muito além de onde sua voz alcança.

Fonte: Folha de São Paulo

Deixe um comentário