Ipê atrai exploração ilegal para terras indígenas no noroeste de Mato Grosso

Madeira cortada ilegalmente em pátio em Colniza (MT)

A busca pelas últimas grandes reservas de ipê, árvore cuja madeira alcança grande valor no mercado, tem atraído frentes de exploração ilegal para dentro das áreas que abrigam indígenas isolados na região de Colniza, no noroeste de Mato Grosso.

A situação é mais preocupante na Terra Indígena Piripcura, que tem 242,5 mil hectares e abriga dois dos três últimos remanescentes conhecidos da etnia piripcura -um subgrupo dos tupi-cauahiva, que historicamente ocupavam a região entre os rios Madeira e Tapajós.

“Nos últimos dois anos, Piripcura se tornou o alvo principal dos invasores. E o objetivo é a madeira, especialmente o ipê, que quase não existe mais no entorno”, afirma o indigenista Jair Candor, coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Madeirinha-Juruena/MT.

Neste ano, diz Candor, ações conjuntas entre Funai e Ibama interceptar e apreender cerca de 4.000 m³ de madeira retirada da área protegida.

O trabalho resultou também no embargo de uma serraria de grande porte que, instalada nas imediações, só operava com matéria-prima ilegal.

Densa e resistente, a madeira do ipê é muito utilizada na construção de decks residenciais e de embarcações. Nas madeireiras da região, o metro cúbico serrado chega a valer R$ 4.000.

“O ipê é a bola da vez”, diz Evandro Carlos Selva, coordenador da operação Maravalha -que combate fraudes realizadas com créditos de exploração florestal.

A outra área que abriga indígenas isolados na região, com 412 mil hectares, é a Cauahiva do Rio Pardo onde, segundo Candor, a situação já foi mais crítica.

“Essa é uma área com uma proteção natural maior, em razão dos rios Aripuanã e Guariba. A pressão existe, mas temos conseguido controlar.”

Na última semana a reportagem da Folha acompanhou uma incursão realizada por agentes do Ibama até um ponto da terra indígena Piripcura que o monitoramento por satélite indicava estar sob possível ataque.

Por um emaranhado de estradas vicinais tomadas por atoleiros, a viagem durou um dia inteiro. As coordenadas levaram até uma esplanada (área para armazenamento temporário de toras e carga de caminhões) aberta recentemente na terra indígena.

“Aqui possivelmente estão tentando fazer exploração seletiva. O mateiro vem e identifica as árvores de maior porte. Derrubam e depois vêm recolher as toras no período da seca”, diz o agente ambiental José Moreira Costa Filho.

Sem condições logísticas para transportar e dar outra finalidade à madeira apreendida, as equipes da Funai têm optado por danificar os troncos, inutilizando-os para o beneficiamento na indústria. “É o único jeito”, afirma Candor. “Do contrário, voltam para buscar o que ficou para trás.”

Por: Rodrigo Vargas
Fonte: Folha de São Paulo

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