MP cobra que fábrica de celulose elabore diagnóstico da saúde da população de Vitória do Jari

Instalada há 40 anos no Vale do Jari, fumaça constante de empreendimento é apontada como causadora de doenças e poluição na cidade.

Fábrica de celulose do Projeto Jari, às margens do rio Jari (PA). Foto: Lalo de Almeida/Folhapress

Do outro lado do rio, os moradores de Vitória do Jari, no extremo Sul do Amapá, convivem durante anos com a poluição constante da fábrica de celulose instalada há 40 anos na região. Dificuldades para respirar, cheiro forte e clima abafado se tornaram rotina na cidade de 14 mil habitantes.

Recentemente a poluição foi controlada, mas os danos ao rio Jari e à saúde da população nos anos anteriores é alvo de ação do Ministério Público do Amapá (MP-AP), que acompanha reclamações desde 2011. O pedido do processo é que a Jari Celulose faça um diagnóstico dos danos causados e oferte atendimento adequado.

Rosilda Cardoso, de 66 anos, relata fedor vindo da fumaça (Foto: John Pacheco/G1)
Rosilda Cardoso, de 66 anos, relata fedor vindo da fumaça (Foto: John Pacheco/G1)

“Um fedor de queimado, parecido com borra de café, mais um fedor”, descreve a dona de casa Rosilda Cardoso, de 66 anos, que mora no bairro ribeirinho Santa Clara, que fica mais próximo à fábrica, e segundo o MP foi o maior atingido pela poluição.

“Um fedor, aquilo podre que estava vindo para cá, aquela ‘catinga’ da contaminação”, contou o morador João Castro Pereira, de 44 anos, vizinho de Rosilda.

A Rede Amazônica tenta contato com a empresa desde o dia 17 de novembro, por telefone e por e-mail, mas nenhum dos questionamentos foi respondido. Apesar de atingir a cidade amapaense, as instalações da Jari Celulose ficam do lado paraense do rio, no município de Almeirim.

Fumaça exalada pela fábrica é visível a quilômetros de distância da cidade (Foto: John Pacheco/G1)
Fumaça exalada pela fábrica é visível a quilômetros de distância da cidade (Foto: John Pacheco/G1)

“As pessoas reclamavam de doenças pulmonares, outras de mortes por câncer. O conselho de meio ambiente esteve lá em 2007 e tínhamos um manancial de informações de que havia uma ligação muito forte entre as doenças da população com a atividade da fábrica”, detalhou o promotor de Justiça do MP, Weber Penafort, que iniciou a ação em 2011.

O magistrado completa que, há pouco mais de 6 meses, uma parceria de políticos e lideranças comunitárias acionou a Jari Celulose para controlar o problema, que teria sido reduzido com a instalação de um filtro de gases. A medida é considerada um alívio pela população.

“Agora para cá depois de muitas reclamações, amenizou mais o caso dessa química. A gente era obrigado a tapar o nariz para não sentir a ‘fortidão’ dela”, disse o carpinteiro Daniel Silva.

População ribeirinha de Vitória do Jari foi a mais atingida pela poluição (Foto: John Pacheco/G1)
População ribeirinha de Vitória do Jari foi a mais atingida pela poluição (Foto: John Pacheco/G1)

Progresso e poluição

A formação do lado amapaense do rio Jari está diretamente ligada à instalação da fábrica que foi construída no Japão e em 1978 foi trazida para o Brasil em duas enormes plataformas. A viagem durou cerca de 3 meses e o projeto custou ao todo mais de R$ 1 bilhão de dólares.

A ideia de produzir celulose na Amazônia partiu do bilionário americano Daniel Ludwig, mas a proposta fracassou e foi repassada à iniciativa privada brasileira anos depois. Para ficarem mais próximos da fábrica, os trabalhadores construíram suas casas do outro lado do rio. Anos depois, as formações de palafitas deram origem ao município de Vitória do Jari, que fica a cerca de 300 quilômetros de Macapá.

Fábrica da Jari Celulose foi decisiva na formação da cidade (Foto: John Pacheco/G1)
Fábrica da Jari Celulose foi decisiva na formação da cidade (Foto: John Pacheco/G1)

Fonte: G1

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