Vivendo perto do limite: pesquisa analisa os efeitos das mudanças climáticas em peixes da Amazônia

Parceria do Instituto Mamirauá com Universidade McGill, do Canadá, vai avaliar como espécies de peixes lidam com aumento de temperatura e baixos níveis de oxigênio, cenário previsto para as águas amazônicas com as mudanças de clima

Colocado em um tanque, um exemplar de Mesonauta insignis nada tranquilamente. Aos poucos, o pequeno peixe ornamental começa a mostrar sinais de inquietação, como se procurasse outro lugar para ir. A água está esquentando e ele sabe disso. Os pesquisadores regulam a temperatura de volta ao índice normal e a paz então é restabelecida. O experimento é feito em um laboratório do Instituto Mamirauá e analisa como as condições ambientais, em um cenário de mudanças climáticas, podem afetar o comportamento e a sobrevivência de espécies de peixes da Amazônia.

Parceria

A iniciativa é fruto de uma parceria iniciada esse mês entre o Grupo de Ecologia e Biologia de Peixes do Instituto Mamirauá e a pesquisadora Lauren Chapman, da Universidade McGill de Montreal. A especialista canadense trabalha há quase 30 anos com espécies de peixes e as possíveis alterações causadas pelo clima em países como Costa Rica e Uganda e dessa vez traz sua experiência para águas amazônicas.

“Nós desenvolvemos há muitos anos um projeto que busca entender como as espécies de peixe reagem a grandes mudanças no ambiente causadas pelo homem”, explica o pesquisador especialista em peixes e diretor do instituto, Helder Queiroz. “Agora, podemos aprimorar esses resultados incluindo questões de temperatura e consumo de oxigênio, porque são as questões mais imediatamente alteradas no contexto de mudanças climáticas”.

Efeitos na economia de peixes ornamentais

A princípio, a pesquisa vai focar em quatro espécies de ciclídeos, família de peixes valorizada no mercado ornamental, para decoração de aquários. Além do Mesonauta insignis, que conhecemos no início da matéria, a lista inclui os coloridos Cichlasoma amazonarum, Apistogramma agassizi e Apistogramma bitaeniata. “Como estamos falando em espécies comerciais, também estamos preocupados no que as alterações ambientais podem significar em termos de quebra da produção, de prejuízos a grandes populações humanas que vivem da exploração dos recursos pesqueiros”, ressalta Helder Queiroz.

Habitantes de águas brancas e águas pretas

Durante pouco mais de uma semana, Lauren e a equipe do Instituto Mamirauá fez duas expedições na região conhecida como Médio Solimões, no estado do Amazonas. Dois ambientes aquáticos convivem nesse território de biodiversidade impressionante: os rios de águas brancas e os rios de águas pretas.

Ligadas a diferentes formações geológicas por onde correm seus respectivos cursos de rios, as águas brancas e águas negras também abrigam tipos de fauna bem distintos entre si. Poucas são espécies que se dão bem em ambas às águas; é o caso das espécies de ciclídeos escolhidas para as análises. Os pesquisadores fizeram coletas de quinze exemplares de cada espécie em águas brancas e em águas pretas.

“Um dos objetivos iniciais do projeto é estudar espécies que vivem em ambientes bem diferentes, que, portanto, já apresentam a plasticidades/tendência de serem muito bem adaptadas às variações ambientais”, afirma Lauren Chapman. “Por isso, vamos fazer testes comparativos entre as espécies idênticas de ciclídeos coletadas em águas brancas e em águas pretas, e analisar qual delas se adapta melhor a perturbações no ambiente”.

Como funcionam os testes

De volta à sede do Instituto Mamirauá, na cidade amazonense de Tefé, a equipe de cientistas faz os experimentos laboratoriais. Em tanques do tamanho de aquários residenciais e divididos em seções, os peixes são colocados de dois a dois e submetidos aos testes de temperatura. A partir de 31ºC (média a que os peixes daquela região estão acostumados a viver em natureza) um equipamento aumenta gradualmente a temperatura do tanque, a cada meio grau.

Filmados por uma pequena câmera, os comportamentos dos peixes são anotados pelos pesquisadores. Muita agitação, tentativas de fuga e inclinar o corpo quase na vertical são indícios de desconforto limite com o calor da água. A bateria de testes dura cerca de 30 minutos, quando os peixes são recuperados para outros tanques, de restabelecimento das condições ambientais.

“Esse tipo de experimento nos diz: isso provavelmente é o que acontece quando nós expomos um peixe a uma mudança muito rápida de temperatura. Nos permite comparar diferentes espécies da mesma maneira e poder afirmar que uma espécie é melhor em lidar com temperaturas maiores”, explica a pesquisadora canadense. “Temos assim um panorama, medindo de uma maneira aguda, de como as espécies vão se comportar em um aumento mais gradual, que é o que já estamos vivenciando com as atuais mudanças de clima”.

Vivendo perto do limite

Os resultados preliminares dessas pesquisas indicam que 38ºC é a temperatura máxima que as espécies de ciclídeos suportam. A marca preocupa Lauren, por ser muito próxima a média que os peixes estão acostumados, de 31ºC. “Os peixes da Amazônia estão vivendo perto do limite térmico”, afirma. “Nas zonas temperadas, os peixes ficam muito gelados no inverno e muito quentes no verão, eles têm uma flexibilidade maior. Nossa preocupação é que na Amazônia se a temperatura média for 31ºC e a máxima 37ºC, 38ºC, existem espécies de peixes que não vão sobreviver daqui a algumas décadas, se a escalada dos níveis de temperatura continuar”.

Expandir os estudos em termos de quantidades de peixes estudados e do tempo de testes a temperaturas mais altas são metas futuras do projeto. “Queremos testar esses peixes por um mês ou dois meses, quando submetidos a uma temperatura constante de 2ºC acima da média atual. Analisar o que acontece se os peixes tiverem tempo para se adaptar”, conta a especialista em peixes.

ADAPTA

O intercâmbio da pesquisadora Lauren Chapman com o Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) faz parte do programa ADAPTA. A cooperação nacional é liderada pelo Instituto Nacional de Pesquisas na Amazônia (INPA) “e reúne mais de 20 laboratórios no país, dedicados a estudar as adaptações da biota aquática às ações antropogênicas. As pesquisas são financiadas pela FAPEAM e pelo CNPq”, ressalta a coordenadora do Grupo de Pesquisa Biologia e Ecologia de Peixes do instituto, Danielle Pedrociane.

A pesquisa também conta com a parceria da Universidade do Vale do Acaraú, Ceará, representada pela pesquisadora Daiani Kochhann, que estuda a ecofisiologia de peixes ciclídeos.

De volta a Uganda, onde atualmente realiza pesquisas sobre peixes tropicais, Lauren continuará a parceria com assessoria técnica e envio de equipamentos especializados para continuar os testes de medição de nível de oxigênio e temperatura. Para as bolsistas do Instituto Mamirauá, Carolina Sarmento e Jomara Oliviera, o tempo de aprendizado com a pesquisadora foi fundamental, elas darão seguimento com as coletas e testes com os ciclídeos na região. “Vamos aplicar esse conhecimento às espécies com que trabalhamos aqui e futuramente testar o efeito desses fatores físicos sobre o comportamento agonístico, peça fundamental para compreender a ecologia comportamental da reprodução dos ciclídeos”, diz Carolina.

Texto: João Cunha
Fonte: INPA

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