Estreia em Manaus filme sobre a origem do mundo dos povos tukano

Expedições pelo rio Negro e Uaupés registradas no documentário “Pelas Águas do Rio de Leite” percorreram locais sagrados para os povos indígenas da família tukano

Visita à Casa da Lua, no baixo Uaupés, conjunto de rochas relacionadas às flautas sagradas de jurupari|Aline Scolfaro-ISA

Na próxima quinta-feira (15), o ISA (Instituto Socioambiental) e a FOIRN (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro) promovem o lançamento do filme “Pelas Águas do Rio de Leite”, no Teatro da Instalação, em Manaus (AM). O documentário é fruto de uma experiência de registro de lugares sagrados e narrativas de origem dos povos indígenas da família tukano do Alto Rio Negro (AM).

A exibição será seguida de um bate-papo com a diretora do filme, a antropóloga do ISA Aline Scolfaro, e conhecedores e lideranças do Alto Rio Negro que protagonizaram a experiência retratada na obra. Dentre os convidados estão Higino Tenório Tuyuka, que coordenou as duas expedições pelos rios Negro e Uaupés, o kumu Manoel Lima Tuyuka, um dos conhecedores participantes, e Dagoberto Azevedo Tukano, antropólogo e doutorando em Antropologia Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM/Neai).

Além do ISA e da FOIRN, a produção do filme contou também com a importante parceria do Vídeo nas Aldeias, tanto na fase de captação quanto no processo de edição. Teve também o apoio do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), do Museu do Índio, da Funai (através da Coordenação Regional Rio Negro) e da Fundação Rainforest da Noruega.

As viagens da Cobra-Canoa

Entre 2013 e 2015, um grupo de conhecedores do Alto Rio Negro, no Noroeste da Amazônia, pertencentes à diversas etnias da família linguística Tukano Oriental, embarcou em duas expedições pelos rios Negro e Uaupés com o intuito de refazer parte da rota de origem e de transformação de seus ancestrais.

Roda de conversa, narrações e filmagens no sítio Temendawi, médio rio Negro. Como muitos outros pontos ao longo do trajeto da Cobra-Canoa, este local é considerado casa de wai mahsã, (gente-peixe), seres que já habitavam essas terras no tempo da viagem da Cobra-Canoa|Hugh Jones

Segundo contam os conhecedores, esses primeiros ancestrais chegaram à região do Alto Rio Negro depois de uma longa viagem subaquática pelos rios Amazonas, Negro e Uaupés, realizada no ventre de uma Cobra-Canoa. Ao longo desse percurso foram parando em vários lugares importantes, onde obtiveram os conhecimentos necessários para a vida de seus descendentes nessa Terra. Foi com o intuito de recontar essa história que o grupo de conhecedores embarcou nessa aventura.

A primeira expedição, realizada em 2013, percorreu mais de 800 quilômetros pelo curso do Rio Negro, desde sua foz na cidade de Manaus até o município de São Gabriel da Cachoeira (AM), na fronteira com a Colômbia e a Venezuela. Foram identificados 23 lugares importantes e, em cada parada, os conhecedores dos diversos grupos participantes da viagem narravam suas histórias e os eventos aí ocorridos, sempre destacando o nome do lugar em sua língua e os tipos de conhecimentos, técnicas, artefatos e outros bens rituais que teriam lá se originado: encantações de cura, cantos, danças, substâncias de uso cerimonial, enfeites de penas e outros tantos objetos de valor ritual e cotidiano.

Na segunda expedição, em 2015, foram cerca de 200 quilômetros percorridos, começando pelo trecho alto do rio Negro nas imediações da cidade de São Gabriel da Cachoeira e entrando pelo rio Uaupés até chegar à Cachoeira de Ipanoré. É esse o ponto em que os primeiros ancestrais emergiram para esse mundo como seres humanos verdadeiros e passaram a povoar o território onde hoje vivem os diversos grupos da família tukano.

Formação rochosa no baixo rio Negro, chamada pelos conhecedores de “casa do beiju”, local relacionado à história do demiurgo Basebó, dono dos alimentos e plantas cultivadas|Aline Scolfaro-ISA

Ao longo dos mais mil quilômetros percorridos pelas duas expedições, acompanhadas por uma equipe de cinegrafistas (indígenas e não- indígenas) e mais alguns pesquisadores e interlocutores não-indígenas, foram visitados mais de 60 lugares sagrados e produzidas quase 300 horas de gravações.

“Nós estamos construindo uma história, diferente da dos antepassados. Antepassados eram através da narrativa. Agora, nós estamos apropriando outro recurso técnico, que a gente chama mapa, GPS, escrita, tudo. Isso é importante para nós”, ressalta o conhecedor Tuyuka, Higino Tenório.

Pelas Águas do Rio de Leite é, portanto, um retrato dessa importante experiência e apenas uma amostra da enorme riqueza das paisagens do Rio Negro e do complexo conjunto de conhecimentos que permeia a vida e a história desses povos.

Projeto Mapeo

As expedições e o documentário fazem parte de uma iniciativa mais ampla de mapeamento, documentação e salvaguarda dos lugares sagrados e conhecimentos associados dos povos indígenas que vivem no Noroeste Amazônico, região de fronteira entre Brasil e Colômbia. A iniciativa vem sendo articulada já há quase 10 anos por uma rede de instituições (entre ONGs e órgãos governamentais) e associações indígenas que atuam do lado brasileiro e colombiano e têm por missão colaborar com o fortalecimento e proteção do patrimônio cultural dos povos indígenas dessa região transfronteiriça da Amazônia.

Serviço: Lançamento do documentário “Pelas Águas do Rio de Leite”
Local: Teatro da Instalação – Rua Frei José dos Inocentes, s/nº, Centro, Manaus/AM.
Horário: 19 horas
Evento aberto ao público – Entrada gratuita (Sujeito à lotação do espaço)
Veja mais: https://www.facebook.com/pelasaguasdoriodeleite/
@pelasaguasdoriodeleite

Fonte: ISA

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