‘Muito medo’, dizem venezuelanos que foram expulsos de prédio e tiveram bens queimados em RR

Na segunda (19), moradores de Mucajaí, interior de Roraima, fizeram um protesto contra o homicídio de um lanterneiro. O crime, segundo a Polícia Civil, foi cometido por dois venezuelanos.

Após serem expulsos de prédio, venezuelanos passaram a noite da rodoviária da cidade (Foto: Inaê Brandão/G1RR)
Após serem expulsos de prédio, venezuelanos passaram a noite da rodoviária da cidade (Foto: Inaê Brandão/G1RR)

Venezuelanos que foram expulsos de um prédio ocupado e tiveram bens queimados em Mucajaí, no Sul de Roraima, disseram nesta terça-feira (20) que estão muito assustados com o que aconteceu.

Na tarde de segunda-feira (19), um grupo de pelo menos 300 moradores fez um protesto na cidade contra o assassinato do lanterneiro Eules Marinho, conhecido como ‘Japão’, assassinado a pauladas por dois venezuelanos no domingo (18), segundo a Polícia Civil.

Um dos suspeitos foi morto a facadas no local do crime e outro está na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, em Boa Vista. Segundo os venezuelanos, apenas o imigrante que morreu na confusão é que vivia no prédio ocupado. O outro, que está preso, não.

Durante o protesto, os manifestantes invadiram um prédio público ocupado por dezenas de venezuelanos há pelo menos três meses, e queimaram seus objetos na frente do local.

Os moradores também interditaram a BR-174 por quase duas horas e queimaram pneus na via. Não houve feridos e nem detidos, de acordo com a Polícia Militar.

Segundo Amparo Urdaneta, de 46 anos, uma espécie de líder da ocupação do prédio, a ação dos moradores causou uma onda de medo entre os imigrantes que estão em Mucajaí. Ela disse que muitos venezuelanos perderam tudo o que tinham.

Amparo Urdaneta (à esquerda) e Rinna Almeida tiveram todos os bens queimados, incluindos os documentos de identidade e passaporte (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)
Amparo Urdaneta (à esquerda) e Rinna Almeida tiveram todos os bens queimados, incluindos os documentos de identidade e passaporte (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)

Ela disse que cerca de 27 pessoas viviam no prédio. Agora, o grupo se dividiu. Dezoito imigrantes passaram a noite acampados na rodoviária, e os demais saíram em busca de residências para alugar.

“Aqui [na rodoviária] ganhamos comida e roupas de moradores. Graças a Deus há muita gente humanitária. Assim como há brasileiros maus e bons, também há venezuelanos maus e bons. Nós [que vivíamos no prédio] somos gente de bem. Não queremos briga, nem fazer o mal. Se tivéssemos dinheiro, iríamos voltar para a Venezuela”.

Rinna Almeida, de 34 anos, estava vivendo no prédio há duas semanas. Na confusão, teve roupas e todos os documentos incinerados.

“Perdi meu visto, passaporte e cédula venezuelana. Viemos para cá para trabalhar porque na Venezuela não há comida. Agora não sabemos o que fazer”, afirmou a venezuelana, acrescentando que outros imigrantes também perderam os documentos.

Protesto dividiu moradores

Apesar do ato ter sido organizado pelos moradores da cidade, alguns não aprovaram a atitude. Um deles, que não quis se identificar, afirmou que o ato pode fazer aumentar o ódio contra os imigrantes. “Foi crueldade. Se o autor do crime fosse brasileiro, não teriam feito isso”.

Objetos pessoais foram deixados para trás pelos moradores (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)
Objetos pessoais foram deixados para trás pelos moradores (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)

Outra moradora também achou que a manifestação foi exagerada. “Violência não se deve responder com violência. Não é por aí. Não são todos [os venezuelanos] que são maus. Foi uma trágédia, horrível”, disse Maria José.

Um dos líderes do protesto, o pastor João Batista, se disse indignado com a presença dos imigrantes na cidade. A declaração foi dada ao G1 ainda durante o protesto.

Objetos foram queimados em frente a prédio ocupado por venezuelanos (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)
Objetos foram queimados em frente a prédio ocupado por venezuelanos (Foto: Inaê Brandão/G1 RR)

“Não aguentamos mais a presença deles. Queremos que as autoridades façam alguma coisa. Há muitos roubos e furtos em nossa cidade”, afirmou.

Outro organizador, Paulo Carvalho, disse que não considerou ato de vandalismo ou crime: “Só ateamos fogo em roupas”.

Desde 2015, Roraima recebe um número crescente de imigrantes. De lá até hoje foram mais de 20 mil pedidos de refúgio feitos por venezuelanos no estado.

Os imigrantes vêm ao Brasil em busca de trabalho e, principalmente, atrás de comida. Na capital Boa Vista já são 40 mil venezuelanos, segundo a prefeitura. O estado não divulgou estimativa recente do número de imigrantes em Roraima.

Assassinatos são investigados

De acordo com Paulo Henrique, delegado de Mucajaí, três venezuelanos foram detidos no domingo suspeitos de serem autor da morte de Eules, mas somente um foi preso em flagrante. Ele passou pela audiência de custódia e foi entregue na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo.

Os outros dois foram liberados porque não possuíam envolvimento com o crime.

O venezuelano Luís José Figueira Guilen, de 19 anos, também foi reconhecido como autor do crime, mas morreu com uma facada no peito na mesma noite. Segundo o delegado, um brasileiro ainda não identificado foi o autor desse crime. Nesta terça, será instaurado o inquérito para apurar a morte do venezuelano.

Moradores interditaram rodovia BR-174 em protesto por cerca de duas horas (Foto: Laudinei Sampaio/Rede Amazônica Roraima)
Moradores interditaram rodovia BR-174 em protesto por cerca de duas horas (Foto: Laudinei Sampaio/Rede Amazônica Roraima)

“A briga foi motivada por bebida. Foi na saída de uma seresta. O brasileiro estava na festa, mas não participou da briga. Ele foi somente vítima. Estava encostado no bar e tomou várias pauladas na cabeça”, disse.

O inquérito que apurou a morte do brasileiro já foi concluido e encaminhado ao judiciário. O caso foi registrado como homicídio.

Ainda segundo o delegado, o processo deve levantar se houve o crime de latrocínio, roubo seguido de morte, já que testemunhas relataram que após a morte os suspeitos roubaram a carteira de Eulis. Essa linha também é defendida pela família da vítima.

Por: Emily Costa e Inaê Brandão
Fonte: G1

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