Por que ícone do ambientalismo se diz otimista quanto ao futuro do planeta

No Brasil, ativista ícone de proteção aos oceanos pediu a Temer criação de reservas marinhas | Foto: Ag. Brasil

Desde que começou a mergulhar e se tornou um ícone do movimento ambientalista global, a oceanógrafa americana Sylvia Earle viu mais da metade dos corais desaparecerem, a população de grandes peixes marinhos se reduzir a 10% do número original e ricos ecossistemas serem contaminados por plástico e petróleo.

Mesmo assim, a americana de 82 anos – célebre por sua atuação em prol dos oceanos – diz à BBC Brasil que não perde o sono com o futuro projetado pelas mudanças climáticas e pela acelerada extinção de espécies.

“Acho que as crianças estão determinadas a não deixar isso acontecer. Elas estão fazendo a cabeça de seus pais, professores, das pessoas responsáveis por tomar as decisões”, afirma.

Em entrevista à BBC Brasil após se reunir com o presidente Michel Temer na última segunda-feira, em Brasília, Earle diz que nunca a humanidade teve tanto conhecimento sobre o funcionamento do planeta e a necessidade de preservá-lo.

“As pessoas mais inteligentes que já viveram não tinham como saber o que crianças de dez anos de idade podem saber hoje. E isso é motivo para esperança.”

Abrolhos
Ambientalista elogiou existência do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos (BA), em 1983, por ter evitado a exploração de uma área cobiçada por seus depósitos submarinos | Foto: Tatiana Azeviche/ Setur

Avó de quatro crianças, Earle viu o mundo se transformar desde que começou a militar pela preservação dos mares – trajetória recentemente retratada no documentário Mission Blue, da Netflix.

Na década de 1940, nadou nas águas limpas da Flórida antes que petrolíferas perfurassem o solo do Golfo do México em busca de riquezas submarinas. “Eu vi o número de poços de petróleo passar de zero a dezenas de milhares, e eu vi cada consequência desse avanço no corpo d’água”, ela diz.

Antes rico em biodiversidade, o Golfo do México hoje abriga uma das maiores “zonas mortas” do mundo, como são chamadas as áreas onde a poluição e falta de oxigênio tornam a vida marinha quase impossível.

Após se reunir com Temer, ela elogiou o fato de o Brasil ter criado, em 1983, o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos (BA), por isso ter evitado a exploração de uma uma área cobiçada por seus depósitos submarinos.

Exploração de petróleo

Questionada pela BBC Brasil sobre o avanço da exploração petrolífera no litoral brasileiro, especialmente na região do pré-sal, disse que a atividade não compensa os riscos.

Earle afirma que a extração não só ameaça a vida marinha em caso de acidentes – como o que matou 11 pessoas e despejou 4,9 milhões de barris de petróleo no Golfo do México, em 2010 -, mas também contribui para as mudanças climáticas por meio da queima do petróleo.

Plataforma petrolífera no Golfo do México
‘Eu vi o número de poços de petróleo passar de zero a dezenas de milhares, e eu vi cada consequência desse avanço no corpo d’água’, diz Sylvia Earle sobre o Golfo do México, acima | Foto: SPL

Além disso, afirma que alternativas à queima de combustíveis fósseis, como a energia solar, tornam-se cada vez mais baratas.

“A extração de petróleo e gás nos mares e a do carvão na terra continuarão por algum tempo, mas estão em declínio irreversível.”

Um dos principais objetivos da visita de Earle ao Brasil era convencer Temer a livrar outras duas áreas do litoral brasileiro da exploração de recursos subterrâneos e marinhos.

Nas próximas semanas, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) entregará ao presidente a proposta de criar duas Unidades de Conservação que poderão se tornar as maiores reservas marinhas do país – uma em torno do arquipélago de São Pedro e São Paulo, em Pernambuco, e outra na cordilheira submarina Vitória-Trindade, no Espírito Santo.

Segundo o MMA, cada unidade terá cerca de 400 mil quilômetros quadrados, o equivalente a dois Estados do Paraná. Somadas, fariam com que 25% das águas marinhas e costeiras brasileiras fiquem protegidas, permitindo que o país cumpra com folga um acordo internacional que obriga cada nação a proteger 10% dessas áreas até 2020.

Hoje, o índice de proteção das águas costeiras no Brasil é de 1,5% e, no mundo, de 2%. Em comparação, 12% das áreas terrestres do globo têm algum tipo de proteção; no Brasil, são 20%.

Earle diz que Temer se comprometeu a criar as reservas. “Felizmente ele tem filhos e parece ter nos ouvido.”

No encontro, ela sugeriu que o brasileiro tinha diante de si a mesma oportunidade que apresentou em 2006 ao então presidente dos EUA, George W. Bush. Impopular entre os ambientalistas, o americano agradou o grupo ao criar no Havaí a maior reserva marinha do mundo até então.

Dez anos depois, a área foi quadruplicada pelo sucessor de Bush, Barack Obama.

Impasse

Pessoas que acompanham as tratativas disseram à BBC Brasil que o principal impasse em relação às duas reservas é o tamanho de suas áreas que terão proteção integral. Ambientalistas tentam convencer o governo a ampliar as áreas com categoria de Monumento Natural, onde não são permitidas atividades econômicas.

Pela proposta atual, a maior parte das unidades terá a categoria de Área de Proteção Ambiental (APA), onde são permitidas atividades que não causem grandes impactos.

Sylvia Earle e Sarney Filho
Nas próximas semanas, Ministério do Meio Ambiente, de Sarney Filho (à dir.), entregará proposta de duas Unidades de Conservação que poderão se tornar as maiores reservas marinhas do Brasil | Foto: Ag Brasil

Earle foi uma das primeiras ambientalistas a advogar a delimitação de áreas marinhas protegidas, inspirada nos efeitos da proteção de florestas e ambientes terrestres. Em 2009, defendeu a iniciativa numa conferência TED (a fala foi premiada como a melhor do ano e contabiliza quase 2 milhões de visualizações).

“Temos provas de que, quando protegemos uma floresta integralmente, as espécies retornam caso não tenham sido extintas. No oceano é a mesma coisa”, ela afirma.

A oceanógrafa costuma dizer que a saúde dos oceanos é vital tanto para as espécies marinhas quanto para as terrestres – inclusive a humana.

Estima-se que 50% do oxigênio na atmosfera venha da fotossíntese produzida na superfície do oceano. Essa operação, diz ela, é posta em xeque quando esses ambientes são perturbados pela poluição ou por atividades humanas predatórias, como a pesca industrial e a mineração.

Earle diz que nos últimos 50 anos a população de grandes peixes marinhos – entre os quais o bacalhau, o peixe-espada e a lubina chilena – foi reduzida em 90%.

Algumas espécies, caso do atum-rabilho do Pacífico, têm hoje menos de 5% da população original.

Earle não come peixes nem qualquer tipo de animal selvagem. Aos que não abrem mão de animais aquáticos na dieta, sugere sua substituição por peixes criados em cativeiro e não carnívoros, caso de carpas e tilápias.

A recomendação não se aplica ao salmão, espécie carnívora criada em fazendas aquáticas. “São necessários milhares de peixes selvagens para alimentar um pequeno número de salmões em fazendas – esse não é um bom modelo.”

Carpas
Aos que não abrem mão de animais aquáticos na dieta, Earle sugere sua substituição por peixes criados em cativeiro e não carnívoros, caso de carpas e tilápias

Formada em biologia, Earle foi a primeira mulher a chefiar a agência do governo dos EUA para os oceanos e a atmosfera (NOAA) e projetou vários submarinos para mergulhos profundos.

Ela disse à reportagem que pretende voltar ao Brasil até o fim do ano para mergulhar pela primeira vez em águas brasileiras – de preferência nas áreas cotadas para virar reservas.

Para a americana, ainda há muito a descobrir sobre as florestas e os mares brasileiros, que ela considera “bibliotecas de conhecimento”.

“Se destruirmos as florestas e os corais remanescentes, seria como queimar essas bibliotecas”, afirma.

“Temos que guardar essas áreas como presentes para o futuro, como se estivéssemos colocando-as no banco, cuidando da segurança de todo o planeta, construindo essa rede de esperança para a nossa existência.”

Por: João Fellet
Fonte: BBC

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