Baniwa Chilli, a primeira cerveja com Pimenta Baniwa, é lançada na Irlanda

Em acordo inédito entre cervejeiros e comunidades, 10% das vendas serão repassadas à Organização Indígena da Bacia do Içana (Oibi) para apoiar a Rede de Casas de Pimenta Baniwa no Alto Rio Negro (AM)

Arte do irlandês Nathanael Roman para o badge da Baniwa Chilli|Divulgação

A Pimenta Jiquitaia Baniwa chegou às torneiras de pubs irlandeses. O ingrediente, cultivado e processado há milênios pelas mulheres do povo Baniwa, do Alto Rio Negro (AM), é hoje a estrela de uma Saison/Farmhouse Ale de baixo teor alcoólico (3.8%) produzida pela microcervejaria Hopfully Brewing, baseada em Dublin, capital da Irlanda.

A Baniwa Chilli, assim batizada pelos cervejeiros, foi lançada oficialmente na Alltech Craft Bews & Food Fair, realizada em Dublin entre 8 e 10 de março. Em acordo pioneiro no mundo das cervejas, a Hopfully Brewing se comprometeu a repassar 10% do valor de comercialização de toda a produção, de 500 litros, à Organização Indígena da Bacia do Içana (Oibi), para apoiar a Rede de Casas de Pimenta Baniwa.

“Tradicionalmente, a pimenta é um produto versátil que pode ser usado não só no alimento, mas também quando você está em perigo e precisa de proteção”, conta André Baniwa, liderança do povo Baniwa. “Pensando a partir disso, a gente fica feliz que a pimenta está começando a ser usada para outros meios que não só restaurantes. É mais uma forma de levar a pimenta e a história baniwa para mais pessoas.”

Time da Hopfully Brewing no Alltech Festival, em Dublin|Divulgação

O blend de pimentas que compõe a Pimenta Baniwa tem origem em pelo menos 78 variedades que são cultivadas em roças e quintais do rio Içana, no Alto Rio Negro, entre elas as pimentas bico de mutum, bunda de saúva, jaburu, roxa, malagueta, bode, braço de camarão, dente de onça, bico de peixe lápis, branca, fruta de abiu e a jolokia baniwa (saiba mais aqui).

O primeiro encontro entre a Hopfully Brewing e a Pimenta Baniwa aconteceu pelo Netflix. Os cervejeiros assistiram ao episódio de Chef’s Table com Alex Atala, conheceram um pouco sobre os Baniwa e o cultivo da pimenta. O passo seguinte foi pesquisar as características e o sabor do produto.

“A pimenta enriqueceu a cerveja, com um sabor contínuo na língua e garganta. Ao provar a cerveja nota-se que a Pimenta Baniwa complementa os sabores da hortelã e abacaxi, sem sobrepor. Além de levemente picante a pimenta traz um toque salgado na bebida”, explicou Vilson de Mello Junior, diretor da cervejaria.

No Alto Rio Negro, a ideia de usar a Pimenta Baniwa na cerveja virou uma curiosidade. “Nós também usamos a pimenta com abacaxi quando tiramos abacaxi da roça, mas ter a pimenta no caxiri (bebida fermentada) para nós é novidade!”, diverte-se André Baniwa.

A recepção da Baniwa Chilli no festival foi bastante positiva, como escreveu Andrew Hamilton no blog irlandês Oh Beer Network. “Minha cerveja favorita da linha [da Hopfully Brewing], pessoalmente, foi a saison ‘Baniwa Chilli’ apresentada no festival. Feita com suco de abacaxi, hortelã e um toque sutil da rara e prestigiada Pimenta Baniwa, ela foi uma cerveja maravilhosamente leve, que mata a sede, com sabores incríveis e um toque picante. Com apenas 3.8%, é uma cerveja que poderia ser saboreada para limpar os paladares do verão, antes de acender o churrasco.”

Como a cerveja é uma saison, ou seja, uma cerveja sazonal, e a pequena produção abasteceu o festival Alltech bem como algumas poucas torneiras de pubs de Dublin. O objetivo da Hopfully Brewing é voltar a produzi-la em breve – com exportações para o Brasil – além de experimentar novos ingredientes amazônicos em suas receitas.

Quem são os Baniwa?

Os Baniwa são um povo indígena da língua Aruaque, com uma população estimada de 15 a 18 mil pessoas. Vivem em cerca de 200 comunidades e sítios, como parte do complexo cultural do noroeste amazônico, nas cabeceiras da bacia do Rio Negro, entre Brasil, Colômbia e Venezuela.

No Brasil, os Baniwa são os ocupantes milenares da bacia do rio Içana, onde estão localizadas 95 comunidades e sítios que abrigam entre 7 a 8 mil pessoas. Saiba mais sobre os Baniwa no site Povos Indígenas do Brasil. Clique aqui.

O que é a Pimenta Jiquitaia Baniwa?

Graciela Paiva Brazão, gerente de produção da Casa de Pimenta Baniwa da comunidade de Ucuqui Cachoeira|Roberto Linsker

As misturas de pimentas desidratadas e piladas (em pó) chamadas de “jiquitaia” e “Atti Ipepe” na língua Baniwa, é composta por cerca de 78 variedades de pimentas do gênero Capsicum spp. Cultivadas pelas mulheres Baniwa em suas roças e jardins. Depois de colhidas, elas são secas ao sol ou no forno, piladas e acrescidas de sal. Em outras palavras, são blends de pimentas exclusivos, com características organolépticas próprias.

A produção das Pimenta Baniwa em roças tradicionais e jardins de pimentas é parte do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, declarado em novembro de 2010 Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A jiquitaia tem diversos usos tradicionais e é considerada pelos Baniwa como “alimento para corpo e alma”.

A Pimenta Baniwa, bem como sua história contada em livro, está à venda na loja online do Instituto Socioambiental, com entrega para todo o país. Acesse: loja.socioambiental.org. Você encontra a Pimenta Baniwa e o livro também no Box Amazônia e Mata Atlântica do Mercado de Pinheiros, em São Paulo, assim como empórios pelo país (saiba mais).

Assista abaixo ao vídeo Pimenta Jiquitaia Baniwa para corpo e alma:

Por: Roberto Almeida
Fonte: ISA

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