Conheça as histórias de indígenas acampados por mais direitos em Brasília

Cerca de 3 mil indígenas de várias regiões do país estão acampados no Eixo Monumental para reivindicar direitos, sem se esquecer de destacar a força e a tradição da suas culturas

Artthur Gomes , 41, é da tribo guajajara, localizada no Maranhão. Ele ensina tupi-guarani às crianças (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press )

As histórias de muita luta e algumas vitórias marcam a trajetória das tribos indígenas brasileiras. Hoje, eles continuam batalhando para garantir seu espaço. Querem ser reconhecidos como cidadãos brasileiros e com os mesmos direitos, como acesso à educação e à saúde. Querem também continuar a ser lembrados pela sua resistência e como os primeiros moradores do Brasil.

Integrantes de tribos de todo o país estão na capital participando, até amanhã, da 15ª edição do Acampamento Terra Livre. O evento é uma tentativa de unificar reivindicações pelo direito à demarcação territorial dos povos indígenas. Cerca de 3 mil indígenas de mais de 100 povos pedem melhorias e unificam lutas em defesa dos direitos das tribos.

Mas quem são esses brasileiros? O que eles mais desejam? A reportagem do Correio percorreu o acampamento montado nas proximidades do Museu do Índio, no Eixo Monumental, para ouvi-los.

Xohã Pataxó, 24 anos, é professor na aldeia Mata Medonha, da tribo Pataxó, no município de Santa Cruz Cabrália, sul da Bahia. A aldeia é composta por cerca de 70 famílias. Ele conta que as tradições são seguidas à risca por todos e passadas às crianças, para que não se perca mcom os anos. “Apesar de não usarmos trajes especiais, todos os dias, só em rituais e festas, damos muito valor às nossas pinturas e costumes”, enfatiza.

Xohã Pataxó, 24, é professor na aldeia Mata Medonha, onde as tradições são seguidas à risca (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press )

O cocar é uma das marcas registradas desses indígenas baianos. Composto por três penas centrais, sendo uma maior no meio e as outras menores, representam as três aldeias dos pataxós, a maior é a aldeia mãe, as menores são as que se formaram após a tragédia do Fogo de 51. “Alguns grupos acabaram se espalhando pela região para não sofrer o que os outros parentes sofreram e formaram outras aldeias”, lamenta.

Xohã afirma que os rituais pataxós são uma tradição entre seus irmãos. Neles, há muita dança, orações e comidas típicas. Mas destaca que o maior medo da tribo é ver a identidade da tribo desaparecer. “Nós vemos outros povos perdendo as tradições por causa de costumes não índios e eu me sinto triste, porque foi com a nossa cultura e costumes que os anciões lutaram pelas terras e as cultivaram. Hoje, temos saúde e educação sem perdermos nossa identidade”, assegura.

Para preservar a tradição frente a tantas mudanças e influências, os pataxós ensinam sobre as conquistas do povo para as crianças. Pai de quatro filhos, Xohã busca mostrar o valor da cultura indígena para seus curumins (crianças). “Tudo que conquistamos foi por intermédio da nossa cultura, se a gente deixar de lado e adquirir a cultura do não índio, isso vai acabar nos enfraquecendo”, ressalta.

O índio da tribo Guarani M’byá, no Acre, Daniel Iberê, 32 anos, tem “nome de branco”, como se descreve, mas seu maior orgulho é ser índio e lutar pelos direitos dos demais. Ele diz que seu povo conseguiu manter o modo de ser mesmo após 500 anos de convivência com o homem branco, não perderam o estilo de vida. “Nossas raízes são profundas, passa vento, leva as folhas, mas ela permanece intacta”, diz Daniel, com sorriso no rosto.

Para manter as tradições a tribo, os m’byá se unem em cantorias e ensinam costumes ancestrais para as crianças, contando sobre os territórios e passagens da história do povo. “A maior tradição é nosso modo de ser guarani, como a gente pisa simples na terra, o nosso caminhar. Acreditamos que quanto mais a gente caminha, menos a gente acumula, menos a gente possui e podemos andar com o coração tranquilo”, explica. Daniel ressalta que nem sempre essas caminhadas são tranquilas, pois muitos trajetos estão interditados por causa de fazendas e hidrelétricas.

Emocionado, o indígena conta que o maior medo do seu povo é de ser covarde, medo de ter o que dividir e não querer dividir, medo de saber o que o parente precisa e não ajudar. “Medo de bala, medo de chumbo a gente não tem. Temos medo de não manter viva a nossa solidariedade, de nos tornarmos egoístas. Temos medo da poluição, de querer tomar banho e não ter água limpa, porque está tudo poluído”, imagina.

Para o futuro ele espera mais direitos para os índios, acesso à saúde e a um território demarcado, onde possam caminhar e plantar nas terras. “Quero um futuro onde os parentes não sejam assassinados, onde não morram com 20 anos, por causa de uma doença que tinha cura, mas não tínhamos acesso ao tratamento. Espero não chorar pelos que se foram por conta de coisas que poderiam ter sido evitadas”, conclui.

De outro extremo do Brasil, Arthur Gomes, 41, e Maria Pelorina, 60, são da tribo guajajara, do Maranhão. Lá, a maior tradição e paixão da etnia é a festa da Menina-moça, um ritual que acontece quando a menina índia tem a sua primeira menstruação. A jovem fica uma semana dentro da oca. E quando sai a tribo entra em festa para comemorar a transição da infância para a vida adulta. Após ser submetida ao ritual, a garota está apta a namorar, casar, gerar filhos e executar as atividades das mulheres adultas da tribo.

Assim como Xohã, Arthur é professor na tribo. Ele ensina o tupi-guarani às crianças do povoado. “É uma tarefa importante, porque ajuda a preservar nossa língua, nossa identidade e quem somos”, assegura. Para ele, a maior conquista dos guajajara ainda está por vir e será a melhoria da saúde e contar com acesso à educação na tribo, além de mais direitos territoriais para todas as etnias indígenas. “As pinturas no corpo representam a luta diária do nosso povo, estamos em guerra pelos nossos direitos”, afirma.

Maria Pelorina quer mostrar para o Brasil a importância dos índios. Ela sonha em um futuro melhor para seus cinco filhos, com ensino de qualidade, tratamentos médicos e uma terra onde possam crescer e continuar com as tradições dos guajajara. “Meu desejo é que as crianças continuem com nossas tradições, mas para isso acontecer elas precisam conseguir crescer saudáveis em um espaço que ninguém vai invadir. Um índio sem terra é uma árvore sem raiz, e nossas crianças são o futuro e a liderança do amanhã”, argumenta a agricultora.

Modernização

O índio Silvano Soares da Paz, 31, é do povo de Xukuru do Ororubá, que fica no município de Pesqueira, em Pernambuco. Ele se orgulha em dizer que luta pelos direitos do seu povo de ser visto livre de preconceitos. O professor de arte afirma que os índios também estão inseridos na sociedade e defende que eles têm tantos direitos quanto os “homens brancos”.

A aldeia Xukuru Ororubá é formada por casas de concreto, não em oca, possuem carros e têm internet. “Dizer que índio não pode usar celular, ter internet é preconceito. A gente aproveita a modernidade para usar a favor do povo”, defende. Apesar do preconceito, que Silvano frisa ainda existir, ele aponta que, em vez de se chatear, a tribo usa os recursos para tentar mudar esse cenário. Em 2017, alguns índios da tribo especializaram-se em audiovisual para produzir material para promover a cultura Xukuru.

“Muitas vezes nos sentimos humilhados por algumas pessoas, mas, por outro lado, nos sentimos felizes porque temos nossas tradições, nosso modelo de organização. Praticamente não dependemos de ninguém, temos nosso trabalho. Isso para mim é tudo e tenho muito orgulho em ser índio”, afirma. A maior tradição da tribo de Silvano é o jeito de vestir. Eles usam uma barretina de palha e pinturas em forma de “X” pelo corpo, que simboliza os Xukurus.

Por:Renata Nagashima
Estagiária sob a supervisão de editor José Carlos Vieira
Fonte: Correio Braziliense

Deixe um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.