Controle biológico como alternativa ao consumo excessivo de agrotóxicos. Entrevista especial com José Roberto Parra

Para reduzir a aplicação de agrotóxicos na agricultura brasileira, o Brasil precisa avançar no controle biológico das culturas agrícolas e um dos seus principais desafios consiste em criar um modelo de controle biológico que seja adequado para a agricultura brasileira, diz o engenheiro agrônomo José Roberto Postali Parra. Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, o pesquisador explica que o “controle biológico é um fenômeno natural que consiste na regulação de plantas e animais por agentes de mortalidade biótica”, ou seja, um tipo de produto seletivo que mata pragas, mas preserva os inimigos naturais das culturas agrícolas, evitando o desequilíbrio biológico.

Entre os principais desafios do Brasil na expansão da aplicação de controle biológico na agricultura, o primeiro deles, segundo Parra, “é a cultura do agricultor, porque o agricultor brasileiro tem uma cultura de químicos. Isso é algo que passou de pai para filho, o agricultor está acostumado a utilizar produtos químicos e, obviamente, utiliza muito mais controle químico do que biológico”. De acordo com o pesquisador, embora o Brasil tenha “expertise” no manejo de controle biológico, que já tem sido aplicado às culturas de cana-de-açúcar, o país dispõe de um número muito pequeno de “inimigos naturais”, que são micro e macrorganismos responsáveis pelo processo biológico. Parra informa ainda que enquanto alguns países têm cerca de 350 espécies, no Brasil o número é de aproximadamente 30. O baixo número de espécies disponíveis, explica, gera outro problema: a falta de insetos disponíveis para todos que querem aplicar esse tipo de manejo.

Defensor da aplicação desses produtos na agricultura, Parra adverte que “o controle biológico não irá substituir os produtos químicos na totalidade. Então, preconizamos, de modo geral, que ele seja parte do manejo integrado de pragas. Entretanto, existem situações em que ele pode ser utilizado, como no caso da cana-de- açúcar”.

José Parra | Foto: USP

José Roberto Parra é graduado em Engenharia Agronômica pela Universidade de São Paulo – USP, mestre e doutor em Entomologia também pela USP. Atualmente é professor sênior do Departamento de Entomologia e Acarologia da ESALQ/USP. É membro da Academia Brasileira de Ciências desde 2000 e membro da Academy of Science for the Developing World – TWAS desde 2002. Recebeu a Comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico em 2002 e pertence à Classe da Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico em 2010.

Confira a entrevista.

IHU On-Line — O que é o controle biológico e como ele pode contribuir para evitar os desequilíbrios biológicos causados pelo uso de agrotóxicos?

José Roberto Postali Parra — Vou explicar primeiro o que é controle biológico para depois falar sobre desequilíbrios. O controle biológico é um fenômeno natural que consiste na regulação de plantas e animais por agentes de mortalidade biótica. Então, em toda planta e em todo animal têm seus inimigos naturais. No caso da agricultura, esse equilíbrio foi quebrado pela necessidade de se ter alimentos. Assim, hoje temos grandes áreas plantadas como algodoeiro, soja etc. e, portanto, o equilíbrio natural foi quebrado. Desse modo, o objetivo do controle biológico é restituir o equilíbrio que no início existia — é um controle biológico aplicado.

O uso de inseticida gera um controle imediato das pragas, mas também é possível fazer esse controle rápido quando falamos de controle biológico aplicado, que é a liberação de grande quantidade de inimigos naturais na agricultura. Pode-se, também, aplicar um tipo de controle a longo prazo, que se chama controle biológico clássico, isto é, ao se liberar pequenas quantidades de inimigos naturais, com o tempo esses inimigos vão aumentando e geram um controle a longo prazo. Isso é seletivo porque serve só para culturas que permanecem sempre no campo, ou seja, culturas perenes ou semiperenes. Existe ainda a forma conservativa, que é uma alternativa em que se conserva o que já existe na natureza, evitando a aplicação de inseticidas. Então, existe o controle biológico aplicado, o controle biológico clássico e controle biológico conservativo. Para utilizar esse controle biológico tem que ter o mínimo de inseticidas possível. Entretanto, existem produtos seletivos, que matam as pragas e não matam os inimigos naturais. Então, é possível conciliar a utilização de produtos químicos com controle biológico desde que se usem produtos seletivos.

Em outros países existem tabelas indicando quais são esses produtos seletivos, que podem ser utilizados em determinadas espécies vegetais, não matando certos inimigos naturais que serão preservados. Isso irá reduzir a aplicação de produtos químicos. Por exemplo, os piretroides, que são uma categoria de inseticidas que matam as pragas e os inimigos naturais, o que causa problemas de desequilíbrios biológicos com explosões populacionais de insetos e ácaros. Como se causa o desequilíbrio natural? O inseticida, uma vez aplicado, vai matar a praga e os inimigos naturais, e com isso surgem os desequilíbrios. Por este motivo, em determinadas culturas, como na soja e no algodoeiro, não é recomendada a aplicação de piretroides, justamente para permitir que cresça a população de inimigos naturais. Então, os desequilíbrios são fruto dessa morte dos agentes de controle biológico, aumentando assim a população de praga, que se vê livre dos inimigos naturais.

IHU On-Line — É possível fazer o controle de pragas somente com o controle biológico sem o uso de pesticidas?

José Roberto Postali Parra — O controle biológico não irá substituir os produtos químicos na totalidade. Então, preconizamos, de modo geral, que ele seja parte do manejo integrado de pragas. Entretanto, existem situações em que ele pode ser utilizado, como no caso da cana-de- açúcar. No Brasil são plantados nove milhões de hectares de cana-de-açúcar e quase metade da área plantada é controlada biologicamente — a broca da cana é controlada por uma vespinha importada de Trinidad e Tobago, chamada Cotesia flavipes, e por um parasitoide de ovos chamado Trichogramma galloi. E, além disso, é utilizado um fungo chamado metarhizium anisopliae, que é usado para controlar a cigarrinha-das-raízes, que ocorre em São Paulo e em outras regiões, mas principalmente ela se tornou mais problemática quando se deixou de queimar a cana-de-açúcar. Com isso formou-se um microclima muito favorável e essa população de insetos explodiu. Para termos uma ideia, nos últimos anos a vespinha Cotesia flavipes foi liberada em 3,5 milhões de hectares, o Trichogramma galloi em 500 mil hectares e o fungo foi aplicado em áreas maiores que dois milhões de hectares.

No Brasil são plantados nove milhões de hectares de cana-de-açúcar e quase metade da área plantada é controlada biologicamente – José Parra

Em outras culturas o controle biológico deveria ser incorporado em programas de manejo, e existem casos em que individualmente ele pode funcionar. Mas a intenção não é substituir o químico totalmente por controle biológico, mesmo porque isso seria impossível em função da grande área plantada no Brasil, pelo menos a curto prazo, não havendo disponibilidade de agentes de controle biológico para toda essa área plantada.

IHU On-Line — O manejo integrado com o controle biológico e agrotóxicos reduziria em que percentual o uso de agrotóxico na agricultura?

José Roberto Postali Parra — A agricultura brasileira é muito grande, e o Brasil usa muito inseticida, sem dúvida alguma, mas existem países desenvolvidos que usam mais do que o Brasil por unidade de área, como a Holanda e o Japão — o Brasil fica na quinta posição em termos de utilização por unidade de área.

Nós somos favoráveis à racionalização do uso de inseticidas, que seria essa integração diminuindo a aplicação exagerada que se faz de forma irracional. O controle biológico pode dar controles ótimos, até superiores a 80%, como vem ocorrendo nas plantações de cana. A vantagem do controle biológico é que não traz problemas ao ambiente, à água, ao solo, ao homem, aos animais, não causa os desequilíbrios biológicos, e não há resistência a determinados produtos, como frequentemente ocorre com os químicos, e não deixa resíduos nos alimentos. Tudo isso faz com que pensemos nessa possibilidade, que é muito boa. Eu, logicamente, trabalhando no controle biológico, sou extremamente favorável à sua utilização.

Mas hoje também existem fatores que dificultam muito a utilização de químicos, por exemplo: para sintetizar um produto químico, o custo é de entre 300 e 350 milhões de dólares e o Brasil, hoje, é um grande exportador de commodities e frutas. E como os mercados exigem cada vez mais produtos sem resíduos, existe grande pressão para que se use cada vez menos produtos químicos. Além disso, no Brasil são utilizados produtos químicos que já foram banidos do mercado internacional há muitos anos, logo, eles têm que sair do mercado. Então, alguns problemas favorecem pensarmos na utilização do controle biológico.

O Brasil tem expertise, tem muitos profissionais se formando nos últimos anos, as pesquisas são grandes na área de controle biológico, mas nós temos desafios, a começar pelo fato de que o Brasil faz agricultura em campos abertos. Por isso, não raro temos plantações de soja em 20 ou 50 mil hectares e até 100 mil hectares, o que é completamente diferente da forma de produzir de um produtor na Europa, como na Holanda e na Espanha, que usam muitos produtos biológicos, mas na grande maioria em casas de vegetação. Nós temos que desenvolver um modelo de controle biológico para regiões tropicais e para isso há alguns desafios a serem vencidos. Não adianta falarmos que somos líderes em agricultura tropical — e nós somos realmente líderes —, mas para controle biológico temos que desenvolver um modelo adequado à nossa agricultura.

IHU On-Line — O que seria um modelo de controle biológico adequado para a agricultura brasileira?

José Roberto Postali Parra — Tem um grande número de desafios nesse sentido. O primeiro deles é a cultura do agricultor, porque o agricultor brasileiro tem uma cultura de químicos. Isso é algo que passou de pai para filho, o agricultor está acostumado a utilizar produtos químicos e, obviamente, utiliza muito mais controle químico do que biológico. O controle biológico é, ainda, algo muito pequeno, mas nos últimos anos estamos avançando mais do que o resto do mundo nesse sentido. Quando falo em últimos anos eu me refiro aos “últimos anos” mesmo. Em 2013 apareceu um inseto no país e foi registrado como Helicoverpa armigera. Ele ocorre no mundo inteiro e apareceu no Brasil Central, na região de Goiás. Não tinha controle para ele, e só o produto biológico poderia salvar a situação. Então, tinha um vírus Trichogramma, que é um parasitoide que controla os ovos. O pessoal começou a mudar a sua visão, porém à época não havia disponibilidade de inimigos naturais para todos os produtores. Isso acontece hoje ainda, pois nós temos poucas empresas de controle biológico em relação a outros países.

O agricultor brasileiro tem uma cultura de químicos – José Parra

Se formos olhar os trabalhos mais modernos, veremos que no mundo há grande disponibilidade de inimigos naturais, cerca de 350 espécies. No Brasil temos, incluindo macro e microrganismos, cerca de 30 agentes de controle biológico. Isso tudo é bastante limitante. Existem, comercializando hoje, 26 empresas de micro e 21 de macro — microrganismos são as coisas que não vemos, como vírus, bactérias, fungos, e os macrorganismos são aqueles controles que vemos, como um inseto controlando outro inseto, um ácaro controlando outro ácaro ou inseto. Existe hoje uma tendência maior de usar microrganismos. As multinacionais estão comprando firmas menores de controle biológico e muitas delas estão investindo em microrganismos, que são mais facilmente aceitos pelos agricultores, porque um microrganismo é como se fosse um inseticida, é misturado com água e aplicado. Um macrorganismo exige mais tecnologia, é preciso saber quando vai nascer, e ele morre logo; além disso, é preciso uma logística de armazenamento e transporte. Hoje estão usando bastante microrganismos, e podemos encontrar milhões de hectares sendo tratados com vários desses microrganismos.

No entanto, hoje um dos grandes problemas é que não existem insetos disponíveis para todos que queiram utilizá-los para controle biológico. Novas empresas estão entrando nesse mercado, entre elas a Koppert Brasil, da Holanda, que recentemente comprou uma pequena empresa que tinha sido originária do meu laboratório, a BUG Agentes Biológicos. Está acontecendo muito isto: as grandes empresas comprando as pequenas empresas. Por que, então, não avançamos tanto? Porque tem um número pequeno de empresas no Brasil com apenas sete macrorganismos e 22 microrganismos registrados, com grande número de agentes de controle biológicos aguardando registro.

O segundo desafio é em relação à amostragem, pois quando vamos controlar uma praga, é preciso saber quanto dela existe numa cultura para aplicar um produto químico, por exemplo. Como as áreas são muito grandes, é difícil saber isso no momento em que se vai aplicar o inimigo natural. Por isso estão propondo coisas novas, como o levantamento com feromônios sexuais, sensoriamento remoto, ou seja, é preciso aparatos mais sofisticados do que os que existem hoje. Um problema nesse sentido é que o Brasil é muito pobre em transferência de tecnologia; às vezes tem a tecnologia, mas ela não chega ao agricultor.

Outra dificuldade é sobre a disponibilidade do insumo; será que terá para todo mundo? Estão falando agora em uma vespinha para controlar o percevejo-marrom-da-soja; isso funciona muito bem, mas tem limites de disponibilidade. Por exemplo, temos mais de 34 milhões de hectares de soja plantados no país, e para fornecer para todo mundo, tem que se ter enormes fábricas e mais fábricas do que se tem hoje. E, muitas vezes, esse controle biológico não é trivial, demanda tecnologia, mas como o pessoal se entusiasma rapidamente, podem surgir empresas que nem sempre serão de boa qualidade.

Além disso, temos a questão da logística de armazenamento e transporte; como será liberado esse inimigo natural? Tem pessoas liberando com drones e, logicamente, se for usar um inimigo natural, temos que usar produtos seletivos e nós ainda somos muito iniciantes em termos de legislação para agentes de controle biológico. Tudo isso atrapalha um pouco, mas com o tempo a situação vai melhorando.

Sou muito esperançoso com relação à possibilidade do avanço do controle biológico a médio e longo prazos. De todo modo, o uso do controle biológico não pode ser muito precipitado, porque se tentarmos fazer tudo de forma corrida, surgirão produtos de má qualidade e o controle biológico cairá no descrédito, que é justamente o que não queremos que aconteça. Preferimos que seu desenvolvimento seja devagar, mas com firmeza, por isso não podemos querer que isso ocorra na próxima safra; isso não acontecerá. É preciso ir mudando a mentalidade aos poucos.

IHU On-Line — Qual é a receptividade desse manejo integrado, para além do cultivo de cana-de-açúcar?

José Roberto Postali Parra — É difícil, mas o pessoal vai aderir. Isso é fruto de necessidade. Falei anteriormente que na Espanha e na Holanda se usa muito produto biológico, mas por que se usa? A Espanha é o maior produtor de pimentão do mundo e só usa o controle biológico porque o pessoal tem extremo rigor com relação a resíduos de produtos químicos e proibiu a aplicação de produtos químicos em pimentão. Então, o produtor tem que fazer controle biológico. Mas para fazer algo assim é preciso ter disponibilidade de insumo, não adianta falar que não deve mais usar o produto químico se o produtor não tem alternativa.

Nós temos uma biodiversidade fantástica, mal explorada e pouco conhecida, mas tem muitas pessoas e empresas, tanto de macro quanto de microrganismos, interessadas nesse campo, e elas estão começando a trabalhar. Se tivermos um pouco de paciência, acredito que vai melhorar muito esse mercado e surgirão grandes oportunidades. Tem vários agentes potenciais que serão utilizados nos próximos anos. Começaram a surgir empresas e startups. Por exemplo, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – Fapesp financia projetos de incentivo às pequenas empresas, com isso já foram criadas 12 startups em controle biológico, e há novas empresas surgindo. Além disso, as grandes multinacionais estão adquirindo empresas. Sem dúvida precisa haver essa disponibilidade de insumo para que a coisa venha a funcionar.

IHU On-Line — Qual é a atual situação das pesquisas sobre controle biológico no país? As pesquisas são feitas em que direção? Como parcerias entre universidade, empresas e agricultores podem favorecer o desenvolvimento das pesquisas sobre controle biológico?

José Roberto Postali Parra — O grande avanço dessa área foi a criação, na década de 1960, de cursos de pós-graduação. Houve épocas em que de 20% a 25% dos pesquisadores eram formados em controle biológico. Nós temos uma massa crítica razoável e hoje já existem núcleos no Brasil que trabalham com controle biológico, todos saídos de centros mais avançados. Por exemplo, temos grupos trabalhando no Espírito Santo, no Nordeste e no Sul do país. Em São Paulo existe uma concentração maior, mas existem grupos muito importantes. No Rio Grande do Sul tem grupos fortes trabalhando com controle biológico na Embrapa.

Como tudo na vida, esse projeto exige investimentos em pesquisa, e como vivemos um período ruim na economia, não há tanto investimento, não tem dinheiro, mas existem possibilidades futuras. Vejo como possibilidades o financiamento de órgãos como a Associação Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial – Embrapii, que financia um grande projeto nosso, os biocontroladores, que se referem a macro e a microrganismos. Também existem outras possibilidades via Fapesp, que está abrindo portas para que se forme um centro de controle biológico. Assim, os recursos começam a aparecer especificamente para isso. A Embrapii, a Fapesp e o CNPq estão financiando esse tipo de pesquisa e a Finep [Financiadora de Estudos e Projetos] também está interessada em financiar programas de controle biológico.

Nesta semana haverá uma reunião no Rio de Janeiro, no Ministério de Ciência e Tecnologia, com o governo alemão para firmar um convênio sobre controle biológico. Os recursos começam a aparecer e, onde existem recursos, os processos começam a funcionar, logicamente se forem feitos de forma correta. Eu sou professor aposentado da USP, mas continuo em atividade normal porque trabalhei a vida inteira para chegar num bom momento, e hoje nos encontramos neste bom momento. O movimento para o uso de controle biológico é mundial. A China, por exemplo, neste ano está investindo 350 milhões de dólares em sustentabilidade, então o controle biológico, em última análise, implica em sustentabilidade e “está caindo cada vez mais no gosto da população brasileira”.

Por: Patricia Fachin
Fonte: IHU On-Line

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