Descoberta de “corais da Amazônia” na Guiana Francesa amplia pressão contra projeto da Total

A pressão contra o projeto de exploração de petróleo pela companhia francesa Total na foz do rio Amazonas aumentou desde a descoberta de que um sistema recifal, semelhante ao já localizado nas águas brasileiras, se encontra também na Guiana Francesa. Cientistas e ambientalistas brasileiros esperam que, com a notícia, os planos da petrolífera sejam bloqueados pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e as autoridades ambientais francesas.

O instituto brasileiro deve anunciar a sua decisão a qualquer momento. O pesquisador Ronaldo Francini-Filho, da Universidade federal da Paraíba (UFPB), participou de duas expedições aos recifes na costa norte brasileira e afirma que os cientistas estão em contato permanente com o órgão responsável pela licença ambiental no Brasil.

“A perfuração em si causa um impacto muito mais local e pontual; não é um problema maior. Mas tem trabalhos publicados recentemente que mostram que as companhias ficam passando óleo de um navio para outro e esses vazamentos crônicos têm efeitos a longo prazo que foram subestimados”, afirma. “Esse seria outro problema – mas, é claro, o maior de todos seria um grande vazamento.”

Estruturas recifais encontradas entre 95 e 120 metros de profundidade, a menos de 150 quilômetros de Caiena.

Na semana passada, a organização Greenpeace anunciou que uma nova expedição científica do navio Esperanza identificou recifes também na vizinha Guiana Francesa. Em princípio, a plataforma deveria começar a operar em 2019, na região. Gizele Duarte Garcia, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), estava a bordo da embarcação: ela assegura que muitas outras visitas ao local serão necessárias para detalhar a descoberta.

“A gente conseguiu ver algumas espécies de corais, esponjas e algumas algas associadas, além de peixes raros. Registramos a presença de um sistema recifal com características similares ao descoberto no Brasil e acreditamos que sejam contínuos, mas ainda precisamos avançar na pesquisa”, relata Garcia. “De forma alguma podemos esgotar o estudo de um sistema, ainda mais um provável bioma novo, com uma só expedição.”

Cientistas do Greenpeace encontraram estruturas recifais em duas áreas estudadas, e puderam fotografar algumas espécies de corais e peixes.

Ligação entre o Brasil e o Caribe

Os pesquisadores suspeitam estar diante de um corredor submarino que liga o oceano Atlântico no Brasil ao mar do Caribe, com uma fauna e flora ainda desconhecidos. “Como a gente encontra espécies de peixes, corais e esponjas que também são encontrados no Pacífico, podemos ter um bioma novo, mas acreditamos que há a possibilidade de haver um corredor do Caribe vindo para a América do Sul. Só com pesquisas e exploração de áreas ao longo do caminho é que conseguiremos responder a essas perguntas”, sublinha a pesquisadora.

Francini-Filho destaca que a região tem algumas das correntezas mais fortes do mundo – o que faz com que um eventual acidente na futura plataforma logo atinja proporções catastróficas. “Esse setor norte é um inferno para trabalhar. Tem muita correnteza, ondulações grandes o tempo inteiro. Nós enfrentamos dificuldades logísticas tremendas”, relembra o cientista da UFPB. “Não é um detalhe trivial: se ocorrer um vazamento de petróleo, as medidas de mitigação que a empresa está apresentando seriam completamente ineficientes, paliativas.”

Os Corais da Amazônia vão até a Guiana Francesa!

Águas violentas

O especialista em Energia do Greenpeace Thiago Almeida observa que, no seu relatório, a Total ignora ou esconde a presença de corais – um detalhe que, segundo ele, enfraquece todo o projeto de impacto ambiental apresentado pela companhia. A entidade promove uma campanha mundial para bloquear não só os planos da Total, como os da britânica BP, que planeja extrair petróleo em uma região mais distante da costa.

Além disso, Almeida não vê razões para acreditar que a petrolífera francesa teria mais sucesso em explorar a região do que tantas outras no passado. “Desde a década de 1970, das 95 tentativas de produzir e comercializar petróleo na bacia da foz do Amazonas, nenhuma deu certo. Vinte e sete delas foram abandonadas por causa de acidentes mecânicos”, conta o ambientalista. “Em 2011, uma plataforma da Petrobras ficou à deriva porque seus computadores não conseguiram manter a sua posição e o poço foi abandonado. Então o risco é muito real e um acidente sempre pode se tornar um desastre.”

Resposta da Total

Procurada pela RFI, a Total não concedeu entrevista e reiterou as informações sobre o assunto divulgadas em dois comunicados, publicados em maio. A empresa alega ter realizado “uma ampla campanha oceanográfica em 2017, com especialistas do Museu Nacional de História Natural de Paris”, à Guiana Francesa.

A expedição identificou, segundo o texto “uma plataforma rochosa descontinuada”, que se situa a 30 quilômetros do local onde deve ser feita a perfuração do poço. Quanto à parte brasileira, a petrolífera assegura que o poço se encontra a 28 e 34 quilômetros dos recifes localizados pelas expedições precedentes do navio Esperanza, do Greenpeace. Ambos os projetos, frisa a empresa, serão realizados em águas profundas (entre 1.800m e 2.500m). Os recifes encontram-se a até 220 metros de profundidade.

Por: Lúcia Müzell
Fonte: RFI

Deixe um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*