Índio, prefeito petista flerta com Bolsonaro

Corubão, de São Gabriel da Cachoeira (AM), elogia ‘firmeza’ de presidenciável; acusado, ele enfrenta impeachment

Para se eleger prefeito de São Gabriel da Cachoeira, em 2016, Clóvis Saldanha (PT), o Corubão, tinha como maior trunfo um vídeo ao lado do ex-presidente Lula.

O prefeito petista Clóvis Saldanha, de São Gabriel da Cachoeira (AM), que gravou vídeo com Bolsonaro – Eduardo Anizelli/Folhapress

Mais recentemente, ele gravou outro vídeo, em que aparece trocando elogios com o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL-RJ).

Abraçado ao ex-capitão do Exército, Corubão, um dos três prefeitos indígenas do país, afirma que é “isso que nós queremos, pessoas firmes lutando pelo nosso desenvolvimento”.

Já o presidenciável aproveita a presença do Corubão para comparar as terras indígenas a zoológicos e defender a exploração mineral nessas áreas. “O índio é um ser humano igual a nós, vocês estão vendo um aqui.”

“Foi só um migué, na verdade”, assegura Corubão à Folha, em entrevista no seu gabinete. “O cara é um pilantra. Só tem conversa, não tem planejamento pro futuro.”

O prefeito diz que o encontro entre os dois, no final de agosto, aconteceu de forma casual —ele estava saindo de uma reunião no Congresso quando viu um alvoroço em torno de Bolsonaro. “Eu que fui lá. A minha voz precisa estar na mídia.”

No entanto, as posições do petista, crítico do movimento indígena nacional, não são tão diferentes às de Bolsonaro.

Na campanha de 2016, a mineração em terras indígenas foi a principal bandeira de Corubão.

Em visitas a comunidades pelo vasto interior do município (pouco maior do que todo estado de Pernambuco), chegava a entregar carteirinhas falsas de garimpeiro, sua antiga ocupação.

É uma promessa que não pode cumprir. Segundo a Constituição, a atividade depende de regulamentação pelo Congresso e precisa ter o aval da população indígena local. O principal projeto de lei sobre o assunto é o 1.610/96, de autoria do hoje senador Romero Jucá (MDB-RR). São mais de duas décadas de tramitação.

E, assim como Bolsonaro, Corubão, da etnia tariano, também se diz contrário às demarcações de terras indígenas. O presidenciável já prometeu que, caso eleito, não demarcará “nem um centímetro a mais” para índios e quilombolas.

“A demarcação trouxe só atraso, a maior escravidão que vivemos no século 21, pro nosso povo indígena”, diz o petista. “O nosso parente indígena não quer ficar preservado na mata, não. Ele quer se instalar fazendo a sua economia, a sua liberdade.”

O prefeito de 45 anos defende que a mineração seja feita por famílias indígenas, de forma artesanal, sem uso de mercúrio. Ele também sonha com a criação de um polo siderúrgico.

Nascido em uma comunidade distante da cidade, Saldanha trabalhou em garimpos de ouro e como pedreiro antes de se tornar um próspero comerciante.

A sua loja, na beira do porto, é uma das que retinham os cartões Bolsa Família de beneficiários indígenas distantes da cidade —a prática, ilegal, foi coibida por uma ação da PF. Na entrevista, o prefeito disse que isso ficou no passado.

O vídeo com Bolsonaro não é o primeiro estranhamento com o PT. Durante a eleição temporã a governador do Amazonas, no ano passado, Saldanha apoiou Amazonino Mendes (PDT), que saiu vitorioso, apesar de seu partido ter lançado candidato próprio, José Ricardo.

No estado, um dos seus aliados é o deputado federal Pauderney Avelino (DEM). Por outro lado, se mantém longe de iniciativas como o Acampamento Terra Livre, que anualmente reúne milhares de indígenas durante o mês de abril, em Brasília. “Se tem a ver com preservação, eu tô fora.”

Eleito com 30% dos votos entre dez candidatos, ele atualmente enfrenta um processo de impeachment na Câmara e uma investigação do Ministério Público Estadual, resultado de uma denúncia do próprio vice-prefeito, Pascoal Alcântara (PT).

O ex-aliado acusa o prefeito de pagar, em dezembro, R$ 1,7 milhão a uma empreiteira para obras em escolas municipais, embora parte delas não tenham sido sequer iniciadas.

Nesta quinta (24), a Câmara deve decidir sobre o impeachment. O Ministério Público Federal (MPF) instaurou um inquérito civil sobre o caso, ainda na fase preliminar.

Sobre o assunto, o prefeito diz que contestará as acusações na Justiça e que a denúncia teve motivação política.

O petista também sofre duras críticas de lideranças indígenas de São Gabriel da Cachoeira (850 km a oeste de Manaus), onde 90% da população de 45 mil é indígena —o maior percentual do país.

O município é um dos mais preservados da Amazônia e tem cerca de 80% do território ocupado por terras indígenas.

Importante liderança da região, o presidente da Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), Marivelton Barroso, 26, critica tanto a aproximação com Bolsonaro quanto a abertura de terras indígenas para mineração.

“É uma coisa vergonha descarada, de gente que não tem noção do que está procurando ou querendo fazer”, diz Barroso, sobre o vídeo. “Quem é que se junta com um cara que declaradamente não gosta de índio, de quilombola?”

“A população indígena e as lideranças lutaram pelo reconhecimento das terras e a sua permanência nelas”, diz Barroso, da etnia baré. “Se não fosse a demarcação, hoje a região estaria hoje dominada pelas empresas. Seríamos apenas uma mão-de-obra de exploração.”

Fundada há 31 anos e formada por 93 organizações indígenas espalhadas ao longo da bacia do rio Negro, a Foirn tem fomentado a comercialização da pimenta, do artesanato e outras atividades tradicionais das 23 etnias que habitam a região.

Contrário à mineração, Barroso cita a corrida do ouro em Serra Pelada, no Pará, como um exemplo negativo. “Enquanto tem o que explorar, parece bom. Mas, depois que acaba, tudo se esvai.”

Por: Fabiano Maisonnave
Fonte: Folha de São Paulo

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