‘Se achasse negócio melhor, trocaria’, diz carregador que trabalha na zona portuária de Manaus e tem aposentadoria incerta

Categoria faz parte da lista de trabalhadores sem carteira assinada. Atuação é fundamental para abastecimento de feiras e transporte fluvial de passageiros na Amazônia.

Carregadores de mercadorias atuam nas feiras e portos do Centro de Manaus  (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)
Carregadores de mercadorias atuam nas feiras e portos do Centro de Manaus (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)

Sol, suor, risco de acidentes, preconceito e a incerteza da aposentadoria fazem parte da rotina dos carregadores de bagagens e mercadorias que atuam na orla do Rio Negro, em Manaus. Ao lado de ambulantes e flanelinhas, a categoria expõe um retrato contemporâneo do mercado informal na Amazônia. “Se achasse negócio melhor, trocaria”, disse um deles ao G1.

Os carregadores compõem o grupo de trabalhadores sem carteira assinada que, em sua maioria, não contribuem para o Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS).

“É muita luta, mas a gente vai em frente”, disse Raimundo Oliveira, de 62 anos, que há mais de quatro décadas é carregador e afirma transportar até cerca de 60 kg por vez na área portuária conhecida popularmente como “Manaus Moderna’, nome de uma das principais feiras da cidade.

Movimentação nas balsas atracadas na orla de Manaus é intensa. Muitos trabalhadores informais atuam na área  (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)
Movimentação nas balsas atracadas na orla de Manaus é intensa. Muitos trabalhadores informais atuam na área (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)

O trabalho de Oliveira e seus colegas é basicamente voltado para o transporte de mercadorias de barcos e caminhões para feiras. Eles também cobram valores para levar bagagens de embarcações de transporte de passageiros até carros, ou vice-versa.

A rotina desses trabalhadores se modifica de acordo com o regime anual de subida e descida do rio. Durante os meses de cheia, a água deixa os barcos atracados mais próximos das ruas. Já a vazante, faz o rio recuar vários metros e surgir praias que obrigam longas caminhadas em meio a temperaturas elevadas.

Carregadores de mercadorias na zona portuária de Manaus, na orla do Rio Negro   (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)
Carregadores de mercadorias na zona portuária de Manaus, na orla do Rio Negro (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)

“Os passageiros ajudam os carregadores e os carregadores ajudam os passageiros, está entendendo? Muitas vezes você vai viajar e está com três, quatro bolsas e tem que ter o carregador pra dar uma força e levar lá no barco. Daí, eles [passageiros] pagam para as pessoas que vão carregar. É cinco reais, dez, quinze… depende. Às vezes querem pegar uma geladeira, embarcar um fogão, ai esse preço aumenta”, disse Robenaldo de Souza, de 55 anos, que também é trabalhador informal.

Robenaldo de Souza é um dos trabalhadores do Centro de Manaus (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)
Robenaldo de Souza é um dos trabalhadores do Centro de Manaus (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)

Ao longo de 36 anos fazendo a divulgação de informações sobre barcos disponíveis para quem busca transporte para viajar pelas cidades da Amazônia, Souza afirma que conheceu boa parte dos carregadores que passaram pelo local.

“Há muitos anos tem carregador aqui. Conheço alguns que têm 30, 25 anos trabalhando aqui na escadaria. É uma vida”, afirma o “divulgador” de barcos.

Carregador caminha entre lanchonetes e embarcação em balsa no Rio Negro, em Manaus (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)
Carregador caminha entre lanchonetes e embarcação em balsa no Rio Negro, em Manaus (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)

Necessidade e preconceito

Além de ajudar passageiros com bagagens, a atuação dos carregadores é fundamental para economia local. O trabalho deles ajuda no abastecimento da Feira da Banana, Mercado Municipal Adolpho Lisboa e Feira Manaus Moderna. Parte das hortaliças, frutas e verduras que é comercializada na capital amazonense é comprada nesses locais.

Carregador de marcadorias e bagagens oferece serviços para passageiros de embarcações em Manaus (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)
Carregador de marcadorias e bagagens oferece serviços para passageiros de embarcações em Manaus (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)

“Eu acredito que [a feira] não funcionaria [sem os carregadores]. Às vezes, a sociedade em si não valoriza aquela pessoa que só carrega um cacho de banana para ela, mas sem essa pessoa a própria feira não funcionaria. Como iria descarregar do caminhão sem o carregador? O próprio cliente, será que ia subir no caminhão para escolher? Então, tem toda a necessidade. Está dentro da logística”, explicou o administrador da Feira da Banana, Maciel Silva, de 56 anos.

Feira Manaus Moderna fica no Centro da capital amazonense (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)
Feira Manaus Moderna fica no Centro da capital amazonense (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)

Riscos

Entre as dificuldades apontadas por carregadores estão:

  • Problemas de saúde ocasionados pela exposição excessiva ao sol;
  • Problemas de saúde decorrentes do esforço físico;
  • Risco de acidentes de trânsito nas ruas durante o trabalho;
  • Risco de quedas nas escadarias que dão acesso até as balsas onde os barcos atracam;
  • Risco de quedas das rampas de madeiras colocadas para se entrar nas embarcações;
  • Atuação de criminosos como carregadores.
Carregadores de mercadorias se equilibram em rampas de madeira sobre o Rio Negro para entregar produtos em barcos atracados  (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)
Carregadores de mercadorias se equilibram em rampas de madeira sobre o Rio Negro para entregar produtos em barcos atracados (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)

Após 4 décadas

Mesmo convivendo com esses riscos, Raimundo de Oliveira faz questão de usar um crachá de uma antiga associação de carregadores. Ele diz que é um dos poucos dos que atuavam no mesmo período quando ele começou e ainda permanecem na atividade. Ele não relata problemas de saúde, mas lembra que alguns dos colegas tiveram.

Raimundo de Oliveira exibe crachá de carregador de mercadorias, mesmo atuando como informal (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)
Raimundo de Oliveira exibe crachá de carregador de mercadorias, mesmo atuando como informal (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)

“Eu tô ainda bacana (sic). Já morreram os antigos do meu tipo, a metade dos antigos. Eles tinham dor no corpo, no pescoço”, disse.

Mesmo acostumado com o ritmo de trabalho, há o desejo de mudar.

“É muita luta, mas a gente vai em frente. Se eu achasse um negócio melhor eu trocaria. Aqui está muito bagunçado já”, completou o carregador.

Homem carrega cinco caixas com produtos até embarcação atracada em balsa na orla do Rio Negro em Manaus (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)
Homem carrega cinco caixas com produtos até embarcação atracada em balsa na orla do Rio Negro em Manaus (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)

Carga horária e aposentadoria

Oliveira contou ao G1 que começa a trabalhar 5h e para 13h todos os dias, mas conhece outros carregadores que trabalham cerca de 12h por dia. Ele diz ainda que há rotatividade entre a categoria.

Dezenas de quilos são carregados por vez por carregadores de mercadorias no Centro de Manaus (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)
Dezenas de quilos são carregados por vez por carregadores de mercadorias no Centro de Manaus (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)

“Todo dia chega gente nova, muito novato agora. Não sei a quantidade, mas digo que aqui nessa balsa trabalha uns 100, mais ou menos”, acredita Oliveira.

O carregador contou que arrecada entre R$ 20 e R$ 150 por dia. Mesmo assim, ele nunca separou parte desse dinheiro para contribuir com a previdência para se aposentar. “Eu nunca contribui, não. Eu vou ter que ir lá procurar um benefício, alguma coisa”, afirmou Oliveira.

Crimes e preconceito

A criminalidade faz parte da rotina dos informais do Centro de Manaus.

Após denúncias de furtos, roubos, extorsão e tráfico de drogas, a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), iniciou a Operação Manaus Moderna. Durante a ação, a pasta fez o cadastro de 628 pessoas, dentre carregadores e guardadores de veículos.

“Durante o trabalho realizado, 16 foragidos da justiça e 09 infratores foram capturados pela Secretaria Executiva Adjunta de Operações (SEAOP)”, informou a SSP em nota.

Por conta dessas ocorrências policiais, os carregadores dizem sofrem preconceito e perder clientes.

“Aqui, tem muita gente que se passa por carregador para roubar. Tem muitos aqui. Deveria ter um sindicato forte”, disse o carregador Oliveira.

Há ausência de uma entidade que represente a categoria. “Negócio de associação, sindicato, já apareceu vários, mas nenhum deu certo. O carregador já está desacreditado. Agora é cada um por si e Deus por todos. Não tem um sindicato pra, no dia que ele adoecer, ter o privilégio de passar dias na casa dele e poder contar com INSS”, ponderou Robenaldo de Souza.

Contraponto

Outra categoria faz o transporte de mercadorias são os carreteiros da Feira da Banana. Diferentemente dos carregadores, eles se uniram e passaram a oferecer serviços com maior organização para as milhares de pessoas que transitam pelo local diariamente, segundo a administração do espaço.

Raimundo Nonato lidera um grupo de carreteiros que oferecem serviços na Feira da Banana, em Manaus (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)
Raimundo Nonato lidera um grupo de carreteiros que oferecem serviços na Feira da Banana, em Manaus (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)

“Surgiu isso de colocar os carreteiros para poder ajudar as pessoas a fazer as compras, colocar no carrinho e levar no seu automóvel. No começo, eram 20 há cerca de 10 anos. Como a quantidade de gente é muito grande aqui, em média passam 3 mil pessoas por dia, a gente colocou mais 24. Então são 44 carreteiros. Todos eles uniformizados, com uniforme azulzinho e número do carrinho. Há um controle, cadastro com nomes, contatos, endereços dos carreteiros. Cada um também tem o seu próprio carro de mão identificado com um número, além de uniforme. O trabalho deles é monitorado por câmeras de segurança instaladas em vários pontos da feira”, disse a gerente da Feira da Banana Lilian Barroso, de 43 anos.

O trabalho dos carreteiros e carregadores é predominantemente masculino.

A coordenação da feira não interfere nos preços cobrados pela prestação de serviço, apenas monitora a atuação dos carreteiros.

“Tem gente aqui que chega 2h da manhã e só chega de noite em casa. A carga horária é bastante pesada. A questão de preço, você pega uma mercadoria a média é de 5 reais, mas tem cliente que simpatiza e dá mais”, explicou o presidente do grupo de carreteiros, Raimundo Nonato, 37 anos.

Produtos chegam em caminhões e barcos e são descarregados nas feiras do centro que abastecem todas as zonas de Manaus  (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)
Produtos chegam em caminhões e barcos e são descarregados nas feiras do centro que abastecem todas as zonas de Manaus (Foto: Leandro Tapajós/G1 AM)

Se há diferença na organização entre carreteiros e carregadores, não há no que diz respeito ao cumprimento de horas de trabalho e informalidade.

“Tem gente aqui que chega 2h da manhã e só volta de noite em casa. A carga horária é bastante pesada. A questão de preço, você pega a média é de 5 reais, mas tem cliente que simpatiza e dá mais”, disse o carreteiro Nonato.

Similar ao que ocorreu com os carregadores que circulam entre as embarcações, a maioria dos carreteiros não contribui com a previdência.

“Alguns pensam em se aposentar e estão contribuindo. Eu nunca contribui com INSS, não parei para pensar sobre isso. Os carreteiros que contribuem não são maioria. As pessoas aqui se focam mais no seu dia a dia, no seu bem estar”, disse Nonato, que trabalha como carreteiro há 6 anos, desde que partiu da cidade natal, Envira, e desembarcou em Manaus.

Dados do mercado informal

Um levantamento do IPEA aponta que o aumento do número de trabalhadores sem carteira e por conta própria, combinado com a retração da ocupação com carteira, vem desencadeando uma queda no número de empregados que contribuem para o Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS).

“Nos últimos anos, os principais indicadores vinham registrando uma trajetória de deterioração das condições desse mercado no Brasil. Identificamos, entretanto, que os dados mais recentes para o segundo trimestre de 2017 mostram uma série de movimentos que interrompem essas trajetórias negativas. O destaque positivo fica por conta de um movimento de queda na taxa de desemprego associado a um aumento da população ocupada. Como contraponto, foi possível identificar que o aumento da população ocupada foi reflexo de um aumento na informalidade, e veio acompanhado de uma redução nos rendimentos do trabalho”, informou trecho do Boletim Mercado de trabalho: conjuntura e análise (BMT) publicado em outubro de 2017.

Fonte: G1

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