Criação de gado na Amazônia pode ser sustentável com pastoreio racional

Técnica intitulada PRV estimula alternativas para o manejo de gado na região, unindo eficiência e conservação da natureza

Para modernizar a criação de gado, é preciso muito dinheiro, máquinas e o último lançamento de insumos do mercado? Não se estamos falando de Pastoreio Racional Voisin (PRV), técnica que propõe a melhora da produtividade pecuária, sem prejudicar o meio ambiente. Criadores de gado de pequeno e médio porte na Amazônia estão aprendendo a aplicar o sistema, com assessoria técnica do Instituto Mamirauá. Água, sol, pasto e o próprio gado são algumas das bases dessa forma sustentável de manejo.

A Fazenda Ágda, na zona rural de Tefé, virou um modelo e “laboratório” para a equipe do instituto e para criadores locais na região do Médio Solimões, estado do Amazonas. Na propriedade, o Pastoreio Racional Voisin (PRV), está sendo implantado desde 2016, com a adoção de práticas que conciliam a conservação ambiental e eficiência produtiva, a exemplo da divisão da área de pastagem em porções menores (as parcelas), a rotatividade do gado no terreno e uma estrutura de fornecimento de sal mineral e água de qualidade para os animais.

Nos dois anos sob o sistema de PRV, a Fazenda Ágda já sediou duas oficinas sobre o tema. Os participantes das capacitações são criadores de gado que vivem na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, localizada a cerca de 4 horas de barco de Tefé e a mais de 500 km da capital, Manaus.

Para a técnica do Instituto Mamirauá, Paula Araujo, ter a fazenda como um exemplo vivo e em desenvolvimento, é um grande trunfo no trabalho de incentivo aos criadores locais a adotarem o Pastoreio Racional Voisin.

“Essa área experimental e demonstrativa é muito estratégica para que os criadores visualizem o que estamos propondo, e também percebam as modificações e melhorias na área, ao longo do tempo. Nós recebemos o retorno deles, em que manifestam o desejo de que suas pastagens também melhorem”, afirma Paula, que é veterinária do Programa de Manejo de Agroecossistemas (PMA) do Instituto Mamirauá.

Voisin: entenda o pastoreio racional

Idealizada pelo pesquisador francês André Voisin, a técnica propõe um sistema em que todos os elementos da criação pecuária estejam em equilíbrio e em benefício mútuo. Sob essa visão, o gado não apenas se serve da pastagem, mas também é um reciclador do solo.

“Da mesma forma que o gado precisa da pastagem, a pastagem precisa do animal, urinando e defecando. É um ciclo. Se tirarmos o fator animal, também estamos excluindo um fator importante de fertilização do solo”, explica Jerusa Cariaga, técnica do Instituto Mamirauá.

Tudo é feito sem necessidade de abertura de novas áreas para a pecuária e usando de recursos que a própria natureza e a vida rural provêm, como madeira reaproveitada para as cercas. “O PRV é uma tecnologia agroecológica que não causa a dependência de insumos externos, como fertilizantes sintéticos. Não queremos que o criador fique ‘amarrado’ a comprar esses produtos, gastando dinheiro, queremos que, com os recursos que ele dispõe no local, ele consiga produzir e produzir com qualidade”, destaca Paula.

Mais que organizar a fazenda em parcelas e fazer o rodízio do gado entre elas, o sucesso do Pastoreio Racional Voisin é guiado por quatro leis universais: a lei do repouso do pasto, necessário para a recuperação da área; a lei da ocupação, que é o tempo do gado dentro de cada parcela para que ele consuma a parte com mais nutrientes das plantas; a lei do rendimento máximo, que é dar atenção aos animais com mais exigências alimentares; e a lei do rendimento regular, que indica o tempo máximo que o animal pode ficar em cada parcela.

Como em todo universalismo, são necessários ajustes para que o sistema prospere em solos amazônicos. É o trabalho feito pelo Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologias, Inovações e Comunicações (MCTIC). Além das oficinas de capacitação, onde são divulgadas a teoria e a prática do pastoreio racional, a equipe realiza visitas técnicas periódicas aos criadores para acompanhar o desenvolvimento as atividades pecuárias. O diálogo próximo e continuado permite identificar os problemas a serem enfrentados e as adaptações que precisam ser feitas.

“O manejo de pastagem é desafiador, porque não se trata apenas de uma questão financeira, de reestruturação da pastagem, mas também uma mudança de hábito”, considera Paula Araujo. “Os criadores aprenderam uma forma de criar repassado por gerações, então mudar essa rotina é um trabalho gradual. Mas, vendo os bons resultados, aos poucos os produtores estão conseguindo se organizar para colocar em prática o manejo”.

Fundo Amazônia

As ações de estímulo a um sistema sustentável de criação pecuária, realizadas pelo Instituto Mamirauá, contam com o investimento do Fundo Amazônia, gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Social e Econômico (BNDES). As atividades fazem parte do projeto Mamirauá: Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade em Unidades de Conservação (BioREC). Conheça mais sobre o projeto aqui: https://www.mamiraua.org.br/pt-br/biorec

Os resultados dessa e outras experiências do projeto serão apresentados durante o 4º Seminário Anual do Projeto Mamirauá: Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade em Unidades de Conservação (BioREC), que acontecerá nos próximos dias 02 e 06 julho de 2018, na sede do Instituto Mamirauá, em Tefé, Amazonas. O evento é gratuito e tem entrada livre.

Fonte: A Crítica

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