Muito além da salada: Menos carne, mais floresta e alimentação adequada e saudável

Pensar que comida vegetariana pode ajudar o planeta parece ridículo. Mas, se olhar de perto, até que faz bastante sentido

Tinha uma amiga que adorava salada de tomate. Enquanto eu devorava um salgado de frango com queijo no intervalo da faculdade, ela saboreava uma salada simples de tomates vermelhos e cebola, e dizia “hum, que delícia”. Que absurdo. Não tem nada de delicioso em umas rodelas cheias de água. Eu não via, naquele momento, nenhum objetivo em fazer aquilo.

Mas algumas experiências depois, por aqui e por alí, e a realidade se apresentou de maneira bem óbvia: comer mais vegetais e menos carne não é só necessário para minha saúde e delicioso, mas também uma responsabilidade que minha geração tem que assumir – sob o risco de dificultarmos bastante as chances de uma existência digna para as gerações futuras.

Atualmente, a produção de carne emite o mesmo volume de Gases do Efeito Estufa (GEEs) de que todos os carros, caminhões, aviões e navios do planeta juntos. No Brasil, além das emissões, a produção pecuária está constantemente associada à retirada de direitos de trabalhadores, povos indígenas e comunidades pressionadas pela expansão da fronteira de produção agropecuária. De cara, você pode pensar que isso é um absurdo, mas pense de novo. Leve em conta todas as florestas desmatadas na Amazônia para virar pasto, que já ocupa mais de 60% das áreas desmatadas na região. Ou nas plantações de soja, que ocupam grandes desertos verdes por todo o centro-oeste e cerrado e que servem basicamente para alimentar animais na Europa e na China. Não parece mais tão absurdo assim, não é?

Se não forem controladas, as emissões da indústria de proteína animal podem comprometer a meta internacional de não exceder os 1,5º Celsius de aumento na temperatura média global até o final do século. Segundo os cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU), esse é um limite determinante, que se ultrapassado, pode contribuir para o aumento de cenários de eventos climáticos extremos no planeta. Traduzindo: se passar desse ponto, meu amigo, é a gente que cozinha!

Então como fazer? Por onde começar? Pelo consumo! Aliás, repensando nossa relação com a comida que consumimos. É fato, porém, que exercer uma relação mais responsável com nosso consumo cotidiano passa pelo aumento do apetite dos poderosos em parar de autorizar o uso de mais veneno na nossa comida, mais crédito ao pequeno produtor familiar de base ecológica e pelo respeito ao direito de saber do consumidor.

Para aqueles que já podem fazer essas escolhas, há uma responsabilidade de exercer o comer como ato político. Reduzir o consumo de carne e derivados pode contribuir, e muito, positivamente nesse sentido. O raciocínio de que ‘menos é mais’ é o tema central do relatório lançado em março de 2018 pelo Greenpeace, que aponta que a produção e o consumo mundial de carne e laticínios devem ser reduzidos pela metade até 2050, para evitar a aceleração das mudanças climáticas e acirramento de violações de direitos associados à produção de proteína animal.

Uma boa oportunidade para começar a agir acontece agora, na Semana Mundial Sem Carne (de 11 a 17 de junho). Para chamar atenção para o tema, o Greenpeace envia um chamado às prefeituras e governos estaduais de todo o mundo para que incentivem a redução do consumo de proteína animal, a partir de programas e parcerias que proporcionem uma produção mais justa e alimentação mais diversificada e saudável, com menos carne e mais vegetais.

O Brasil tem experiências bem-sucedidas nesse sentido, como o projeto Escola Sustentável, lançado pelo Ministério Público da Bahia e liderado pela Humane Society International (HSI), que promove a redução do consumo de carne e incentiva a aquisição de produtos da agricultura familiar em escolas públicas no interior da Bahia. Programas da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) também demonstram que esta mudança de hábito alimentar é possível, e só em São Paulo, atende 1,7 milhão de alunos da rede estadual de ensino.

A verdade é que não tem planeta B para vivermos. A atual forma de produção de commodities no Brasil está longe de favorecer o Brasil a produzir e consumir alimentos de outra forma. Estimular uma alimentação mais variada, com menos carne e veneno na merenda escolar, é estimular nossos filhos a fazer essa mudança positiva se multiplicar. Seja na escola, na faculdade ou numa casinha de sapê.

Queremos comida variada, adequada e saudável!

Menos carne. Mais Floresta. Mais água. Mais saúde e mais respeito aos nossos direitos .

Por Adriana Charoux, da campanha de Amazônia do Greenpeace
Fonte: Greenpeace

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