Estados Unidos treinaram ditadura para combater guerrilha na selva

Cursos de contrainsurgência começaram em 1967, cinco anos antes das operações no Araguaia

Em antes dos primeiros confrontos chegarem às margens do rio Araguaia, o governo norte-americano já patrocinava o treinamento de militares brasileiros contra guerrilhas no coração da Amazônia. Documentos classificados como secretos pela Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, enviados para a Comissão da Verdade – encerrada em 2015 – e só agora detalhados evidenciam a estreita colaboração de Washington com militares brasileiros envolvidos na repressão a movimentos de insurgência.

Os guerrilheiros do Partido Comunista do Brasil, o PcdoB, só chegaram à região do Araguaia para fixar as bases do mais importante movimento da luta armada contra a ditadura em 1967. No mesmo ano, um “curso especial de contrainsurgência”, com o auxílio de agentes americanos, já ensinava a oficiais do Exército técnicas avançadas de contenção de movimentos armados no interior do país. As primeiras operações armadas só ocorreriam em 1972.

O treinamento específico, num “centro de treinamento de guerra na selva”, era parte de uma série de cursos frequentados, até 1967, por 700 militares brasileiros; naquele ano, outros 371 ainda receberiam as aulas. Os exercícios eram financiados com recursos do Programa de Assistência Militar, convênio firmado entre os dois países. Para reduzir o tempo de resposta a eventuais ameaças ao regime, o pacote de cooperação abrangeu ainda a capacitação de pilotos da Força Aérea Brasileira e o fornecimento de equipamentos de comunicação para órgãos de segurança de, pelo menos, dez estados.

“O ano de 1967, quando esse documento é assinado, é o auge das atividades de contrainsurgência dos Estados Unidos mundo afora”, afirma o pesquisador e professor de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas Matias Spektor – que em maio detalhou documentos similares que mostraram o alto grau de conhecimento dos presidentes do regime militar sobre o que ocorria nos porões da repressão. “Desde o início da década de 60, já era claro que a estratégia dos Estados Unidos para o Terceiro Mundo não seria a de fornecer armas, como na Europa Ocidental em relação ao bloco comunista, mas dar treinamento a militares locais para lutarem contra possíveis rebeliões.”

Os documentos, agora agrupados e conservados pelo Arquivo Nacional, mostram que o grande receio de militares brasileiros e da inteligência norte-americana era o de que guerrilhas rurais se espalhassem pelo Brasil como ocorria em outros países da América Latina. Na mesma época, Ernesto Che Guevara era caçado nas florestas da Bolívia – seria capturado e morto também em outubro de 1967.

“As forças de segurança brasileiras estão apreensivas quanto às operações de guerrilha que acontecem em diversos países vizinhos”, relata um telegrama de agosto daquele ano endereçado ao Departamento de Estado. O documento, assinado por funcionários da embaixada, reporta que, com a ajuda dos americanos, “as Forças Armadas brasileiras e elementos da Polícia Civil tiveram uma melhoria significativa no campo da contrainsurgência.”

Àquela altura, afirma o documento, oficiais de inteligência do Exército em unidades do interior já tinham cooptado moradores locais e estabelecido uma rede de informantes em zonas rurais do país. Ante o respaldo majoritário da população às Forças Armadas, na avaliação dos americanos, “qualquer esforço dos insurgentes para ganhar apoio ideológico ou logístico local seria provavelmente imediatamente relatado”.

O pacote norte-americano incluía ainda ensinamento teórico nas escolas militares de todos os níveis, por meio do fornecimento de materiais e oficiais especializados. “Todos esses jovens passam por doutrinação considerável quanto aos propósitos e procedimentos dos esforços comunistas e levam consigo uma apreciação muito melhor de como reconhecer e lidar com a guerrilha comunista”, relata o telegrama.

Também em 1967, a convite de militares brasileiros, o general William DePuy – considerado um dos mais importantes planejadores militares americanos do século XX, comandante de tropas na Guerra do Vietnã e, à época, assistente especial para contrainsurgência e atividades especiais do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos – ministrou uma palestra para uma plateia de membros da Escola Superior de Guerra e do alto comando do Exército.

Poucos meses antes, a colaboração entre os dois países recebera aval da cúpula do governo militar. Num encontro no Palácio do Planalto com o adido de Defesa da embaixada americana, Dick Walters, em 20 de abril, o então chefe do Serviço Nacional de Informações, o SNI, general Emílio Garrastazu Médici, garantiu apoio do regime a uma “cooperação mais próxima possível com os Estados Unidos” – até mesmo para a criação de unidades do SNI no exterior.

Ao ser confrontado com a constatação de que essa ação seria muito cara, Médici confidenciou que o orçamento federal previsto para o órgão era uma mera “cortina de fumaça”, que escondia recursos bem mais vultosos. “Nós temos um inimigo comum e sobreviveremos juntos ou não sobreviveremos”, disse Médici – que se tornaria presidente em 1969 –, segundo relato do próprio adido. A transcrição da conversa foi enviada no dia seguinte a Washington.

Em novembro de 1967, um novo telegrama da embaixada descrevia, em detalhes, ações de três movimentos guerrilheiros abortadas pelas forças de segurança: da guerrilha da Serra do Caparaó, na fronteira entre Minas Gerais e Espírito Santo, do Movimento Revolucionário 21 de Abril e de uma vertente do grupo estudantil Ação Popular.

As mensagens trocadas com o Departamento de Estado sugerem a atuação direta da inteligência norte-americana no cerco à luta armada contra a ditadura. Em outra correspondência, assinada pelo então embaixador dos Estados Unidos, John Wills Tuthill, em agosto de 1967, ele afirma haver uma “alta probabilidade” de a embaixada saber com antecedência da participação do Partido Comunista Brasileiro, o PCB, em atividades de guerrilha, e uma “boa probabilidade” de conhecimento antecipado sobre ações do PcdoB e da Ação Popular. O monitoramento desses grupos, diz a mensagem, poderia se desdobrar em “medidas preventivas” por parte de agências americanas.

À frente da embaixada entre 1966 e 1968, Tuthill sucedeu a Lincoln Gordon com a missão de reduzir a presença norte-americana no Brasil após anos de proximidade com o governo militar. A sucessão presidencial tinha mudado o tom da diplomacia entre os dois países. O marechal Humberto de Alencar Castelo Branco – que lutara na Segunda Guerra ao lado de Dick Walters, adido da missão americana – deu lugar ao marechal Artur da Costa e Silva, militar linha-dura de tendências nacionalistas e propenso a uma política externa mais independente. Ao mesmo tempo, os excessos do regime militar começavam a causar constrangimento político aos Estados Unidos e a alimentar um sentimento antiamericano na opinião pública brasileira.

Em 1967, ano da posse de Costa e Silva, Tuthill liderava os primeiros passos da Operação Topsy. O nome, cunhado por ele, é uma referência à personagem Topsy, do livro A Cabana do Pai Tomás – uma jovem escrava que, sem conhecer a mãe ou o conceito de Deus, não sabe explicar como nasceu. Nos Estados Unidos, a expressão “crescer como Topsy” é comumente empregada para tratar daquilo que cresce de forma rápida, não planejada ou fora de controle.

A operação, quando criada, tinha como objetivo reduzir pela metade a robusta delegação americana no Brasil – de mais de 900 funcionários. Ao fim de sua gestão, Tuthill conseguiria extinguir apenas um terço da equipe.

Para Matias Spektor, os cortes de investimento tiveram como cenário uma mudança mais abrangente na política externa americana. “Se no governo de John Kennedy os americanos achavam que a maneira de evitar uma revolução era colocar mais dinheiro no país, passaram a achar que a melhor forma era a repressão. Para isso, você não precisa de mil funcionários na embaixada.”

A maior resistência aos cortes vinha da Agência Central de Inteligência norte-americana, a CIA, segundo relatou Tuthill em entrevista ao Congresso americano, mais de trinta anos depois de sua passagem pela embaixada. “Eles estavam recrutando no Brasil. Para ganhar agentes”, afirma o diplomata, que relata o uso de infiltrados em sindicatos, universidades e no próprio Exército. “Esse é o jogo que jogamos.”

Diretor executivo da embaixada e principal homem de confiança de Tuthill, Frank Carlucci confirma que, à época, os relatos secretos produzidos pelo órgão de inteligência eram compartilhados com a embaixada. “Trabalhei com eles no encontro com alguns dos grupos dissidentes. Eles me mantiveram informado sobre suas atividades”, afirmou o diplomata ao Congresso americano. Dez anos depois de sua passagem pelo Brasil, ele se tornaria vice-diretor da CIA – cargo que deixou para se tornar secretário de Defesa dos Estados Unidos durante o governo de Ronald Reagan. Aposentou-se da política em 1989. Por complicações do Mal de Parkinson, Carlucci morreu no último dia 3 de junho.

Entre 1964 e 1970, a ditadura brasileira recebeu mais de 886 milhões de dólares em assistência militar dos americanos, em valores atualizados, segundo a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, a Usaid. Os investimentos atingiram seu ápice no ano do golpe que derrubou o presidente João Goulart e tinham origem principalmente do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Um alto preço para preservar uma aliado que, nas palavras de Dick Walters, adido da embaixada, não corria o risco de se tornar uma “nova Cuba”, mas sim uma “nova China”.

Por: Luigi Mazz
Fonte: Piauí

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