Resistir e mobilizar – a luta continua

Em permanente mobilização, povo Munduruku realiza uma nova etapa da autodemarcação de seu território

Vista aérea do rio Tapajós, no coração da Amazônia © Jannes Stoppel/Greenpeace

Desde o dia em que os primeiros europeus colocaram os pés nas Américas os povos indígenas que aqui viviam foram obrigados a aprender o significado da palavra resistir: “não ceder; defender-se; não sucumbir; sobreviver”. Hoje, dia 9 de agosto, comemora-se o Dia Internacional dos Povos Indígenas, que marca a luta desses povos pela garantia de seus direitos previstos nas leis e regulamentos nacionais e internacionais.

Como explica Ademir Kaba, liderança do povo Munduruku, os povos indígenas viveram muitos massacres, porém, continuam resistindo. “Mesmo após todas essas transformações que ocorreram ao longo dos anos, nós continuamos resistindo e existindo no Brasil”, diz ele. “A gente constrói a nossa estratégia para que a gente possa resistir mais 500 anos mesmo diante de todas essas ameaças que vivemos. Construímos estratégias para sobreviver preservando a nossa cultura e os elementos que nos diferenciam”.

O povo Munduruku é um dos muitos povos que têm resistido contra a destruição de seus territórios, no coração da Amazônia. Eles lutam pela demarcação da Terra Indígena (TI) Sawre Muybu, no Pará, e contra a instalação de hidrelétricas e outros grandes projetos que atropelam suas vidas e seu futuro.

Em 2016 os Munduruku conseguiram barrar a construção da hidrelétrica São Luiz do Tapajós em seu território. Para isso puderam contar com o apoio de milhares de pessoas que se engajaram nessa luta. Foi uma grande vitória, mas as ameaças não pararam por aí: o governo insiste em não cumprir sua obrigação constitucional de demarcar o território que lhes é de direito e que garante a continuidade do modo de vida secular dos Munduruku.

Com o intuito de garantir a proteção do local e pressionar pela demarcação, no final de julho deste ano, o povo Munduruku realizou uma nova etapa da autodemarcação da TI Sawre Muybu. Este processo autônomo, que teve início em 2014, consiste em percorrer periodicamente todo o limite do território, abrindo uma linha na floresta e colocando placas indicando que o local é território indígena.

Munduruku denunciam a destruição da floresta Quanto mais o governo demora para demarcar a Terra Indígena Sawre Muybu mais este local fica vulnerável à invasão. Durante a autodemarcação, os Munduruku denunciaram a exploração madeireira e garimpeira no interior de seu território. Segundo eles, essas atividades estão destruindo seus lugares sagrados e as nascentes, igarapés e açaizais que são fonte de alimentação para eles. Conforme relataram, foi encontrada até uma pista de pouso no limite da terra indígena. “Nós queremos a demarcação para que a gente possa proteger nosso território. Não tem ninguém melhor do que os indígenas para vigiar”, disse Alessandra Korap, liderança Munduruku.

Jovens participam da luta pela defesa de seu futuro
Jovens Munduruku reunidos em foto
Jovens Munduruku participam do encontro de jovens e da autodemarcação © Coletivo Audiovisual Munduruku

Este ano a autodemarcação foi realizada pelos jovens Munduruku, mulheres e homens, que se reuniram em um encontro, dias antes, para trocar experiências sobre a luta e sobre a cultura Munduruku. “Ser guerreiro não é só caçar e pescar, é também saber acompanhar e ouvir os caciques, os sábios… Tudo isso foi discutido durante o encontro”, explicou Alessandra Korap.

Lideranças Munduruku mostram o Mapa da Vida ao público durante o evento Belém+30, apontando alguns pontos no mapa.
Lideranças Munduruku apresentam o Mapa da Vida durante o evento Belém+30. © Coletivo Proteja Amazônia

Após a autodemarcação, diversas lideranças Munduruku foram para Belém, onde participam do evento “Belém + 30”, que acontece entre os dias 7 e 10 de agosto, e discutem os direitos dos povos indígenas e das populações tradicionais e o uso sustentável da biodiversidade. Os Munduruku presentes compartilharam a experiência de luta em defesa de seu território e seus direitos e contra a construção de hidrelétricas. Também apresentaram o “Protocolo de Consulta” e o “Mapa da Vida”, ambos realizados por eles. “A gente vai continuar lutando para defender o que nossos antepassados deixaram”, finaliza Alessandra.

Fonte: Greenpeace

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