Como Coca-Cola, Bunge e 110 empresas ganham com o pior da bancada ruralista

A cadeira ocupada pelo deputado federal Nelson Marquezelli no Congresso parece servir a um único objetivo: beneficiar seus negócios privados. Às vezes, o esforço é escrachado. Produtor de laranjas, o parlamentar do PTB paulista já tentou tornar o suco da fruta “bebida oficial” do governo federal e item obrigatório nas merendas. Fracassou. Mas, junto à bancada ruralista, o político coleciona vitórias bem mais significativas – todas facilitadas pelas ligações de Marquezelli e seus colegas de bancada com gigantes como a Coca-Cola, a Schweppes e o grupo Mitsubishi.

As relações financeiras de 112 empresas americanas e europeias com os negócios de apenas seis ruralistas deram à bancada – que reúne quase 210 deputados e 26 senadores, ou 40% do Congresso – parte do poderio econômico e político que levaria o país a retroceder em questões como os direitos indígenas, trabalhistas e a preservação ambiental nos últimos seis anos. As conquistas dos parlamentares, que atuam em um bloco para avançar seus interesses econômicos, incluem leis e portarias que facilitam a grilagem de terras; a redução das áreas de preservação ambiental; a diminuição do acesso ao seguro-desemprego; e a flexibilização da definição de trabalho escravo.

A cadeia que liga Marquezelli a corporações como a Coca-Cola e a Schweppes, líderes mundiais no comércio de bebidas, é intermediada pela brasileira Cutrale, uma das maiores fornecedoras de suco de laranja das duas empresas. Há décadas que o deputado vende parte de sua colheita à Cutrale, que financia as suas campanhas políticas – em 2014, um ano depois de ser flagrada com trabalho escravo, a empresa doou R$ 200 mil ao seu comitê. Em fevereiro deste ano, a exportadora de suco foi condenada por submeter seus trabalhadores a situações degradantes, como falta de água potável, de transportes seguros e de proteção no uso de agrotóxicos.

Os dados são de um relatório inédito da ONG Amazon Watch, que investigou as cadeias comerciais que beneficiam, além de Marquezelli, outros cinco políticos que também são candidatos em 2018: Alfredo Kaefer, candidato à reeleição pelo PP do Paraná; Adilton Sachetti, deputado federal do PRB e candidato ao Senado pelo Mato Grosso; Jorge Amanajás, candidato ao Senado do PPS do Amapá; Sidney Rosa, candidato ao Senado pelo PSB do Pará; e o ex-deputado Dilceu Sperafico, do PP paranaense, único da lista que não tenta um cargo legislativo neste ano. Os seis foram escolhidos por seu histórico de corrupção e retrocessos no campo dos direitos trabalhistas, indígenas e ambientais, além de suas ligações com grandes empresas americanas e europeias.

O agro é lucro

O relatório mostra como multinacionais fazem negócios, ainda que indiretamente, com parlamentares que agem em benefício próprio ou em atividades suspeitas. Um dos problemas nestas relações é que muitas dessas empresas fazem marketing sobre a suposta sustentabilidade ambiental de seus negócios – enquanto ignoram a ficha corrida dos deputados que fornecem matéria-prima e conexões políticas para as empresas. É o caso da Bunge, multinacional que se gaba da “sustentabilidade” de sua cadeia comercial e, ao mesmo tempo, compra toneladas da soja dos ruralistas suspeitos de corrupção e práticas antiéticas. Esses grãos pararam na Espanha, Portugal, França e da Noruega entre 2016 e 2017, nas mesas de consumidores impactados pelo marketing sustentável da empresa e que ignoram a origem suja do produto.

Um dos parlamentares que, indiretamente, forneceram matéria-prima para a Bunge é Adilton Sachetti, um dos deputados analisados pela Amazon Watch. Ele é produtor de algodão, milho e soja e defende a PEC 215, que ameaça a demarcação de terras indígenas e quilombolas – áreas que ruralistas historicamente lutam para transformar em fazendas. De acordo com o relatório, o deputado vende sua soja para a empresa do ministro Blairo Maggi, a Amaggi. O ministro figura entre os maiores produtores e exportadores de soja do mundo. E vende grãos para a Bunge. Para a Amazon Watch, essa relação de proximidade entre deputados, produtores rurais, multinacionais e ministros provoca suspeitas de atividades ilegais ou antiéticas.

Dilceu Sperafico, autor do projeto de lei em que se baseou a portaria frustrada do Ministério Público do Trabalho para flexibilizar a definição de trabalho escravo no país, é outro ardente defensor da PEC 215. De novo, por razões particulares: a empresa de sua família é especializada na venda de um subproduto da soja e se beneficiaria com a possibilidade de expandir seus domínios. Hoje, a maior parte do negócio é controlado pela Glencore, braço carioca de um grupo suíço acusado de manipular os preços do mercado internacional de trigo. Entre os financiadores de Sperafico, está a Mitsubishi UFJ Financial, que pertence à gigante japonesa Mitsubishi, grupo que produz desde automóveis a aparelhos de ar condicionado, além dos bancos HSBC, Santander e Citigroup.

Outra corporação financiada pelo braço bancário do grupo Mitsubishi é a Nippon Paper Industries, controladora da Amcel, empresa brasileira que fez o lobby que deu origem ao Novo Código Florestal, como explica o pesquisador da USP Paulo Roberto Cunha em seu livro “Código Florestal e compensação de reserva legal”. As novas normas diminuíram em 40% as áreas sob proteção ambiental no Brasil. A empresa exporta a produção de eucalipto do deputado Jorge Amanajás, denunciado há 13 anos por grilagem de terras da União ocupadas ilegalmente pela Amcel. Na região, estava localizada uma fazenda de aproximadamente 5 mil hectares, que o político e seu colega de Congresso Elder Pena usavam para extração de madeira e plantio de soja. Nos últimos anos, os dois foram denunciados por peculato, falsidade ideológica e formação de quadrilha. Pena foi condenado em 2017.

As relações financeiras que unem algumas das maiores corporações do mundo aos ataques mais árduos aos direitos humanos, trabalhistas e ambientais no Brasil não são inocentes. Entre 2017 e 2018, a alemã Uniper importou mais de 85,5 toneladas de madeira da Amcel para a França, provavelmente, aponta o relatório, para uso na construção de uma usina de energia – isso depois de o uso de madeira francesa ter sido rejeitado por conta da firme oposição de diversas ONGs, que apontaram que a exploração das florestas locais não era sustentável. A solução? Terceirizar o problema para o Brasil, ainda que isso significasse fortalecer empresas e parlamentares de histórico criminoso.

Das 112 empresas citadas pelo relatório, quase um terço são dos Estados Unidos. As 82 restantes se dividem principalmente entre o Japão, o Reino Unido e a Alemanha. A todas elas, o relatório recomenda uma fiscalização criteriosa de suas ligações com as práticas questionáveis da bancada ruralista, para que se quebre a cadeia que já financiou alguns dos maiores retrocessos brasileiros.

Fonte: The Interception
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