Mineradoras tentam cooptar igrejas, acusa padre de Rede Igrejas e Mineração

Desde 2013 se intensificam ações das empresas mirando as igrejas; aceitação social para expandir projetos em comunidades

Os crescentes protestos de várias comunidades no mundo que se insurgem contra os projetos de mineração têm feito as transnacionais mineiras pensar novas estratégias de aceitação social para poderem minimizar as dificuldades e continuar avançando sobre os territórios.

Dentre elas, está a aproximação da igreja, aproveitando do poder de espacialização e formadora de opinião nas comunidades rurais e urbanas.

Isso é o que revela um documento elaborado recentemente por grandes executivos das mineradoras do mundo, entre elas a Anglo American, consultores empresariais e centros acadêmicos, como a Universidade de Harvard, dos Estados Unidos.

DIA DA REFLEXÃO

Setembro de 2013, no Vaticano, marca o início do diálogo entre as mineradoras e as cúpulas das igrejas Católica, Metodista e Anglicana. Surge o “Dia da Reflexão”, com a participação de representantes das mineradoras, religiosos e a ONG Oxfam América.

Mais dois encontros se sucederam, em 2014 e 2015, em diferentes lugares do mundo, como no Palácio de Lambeth, em Londres (Inglaterra), residência oficial dos arcebispos que exercem uma chefia simbólica da comunhão anglicana.

De 2014 a 2017, 18 visitas foram organizadas às minas pelas mineradoras para os religiosos em sete países diferentes, com destaque para África e América Latina.

Dos encontros entre mineradoras e igrejas, surgiu um projeto chamado “Mineração em Parceria” que contém uma articulação denominada “Iniciativa de Reflexão, Mineração e Fé”.

“Esse processo de aproximação direcionou seu foco para formalização de atividades em todo o globo”, comenta Frei Rodrigo de Castro Amédée Péret, da Rede Igrejas e Mineração, que analisou o documento.

Dentre as atividades propostas à igreja, o material estudado por Frei Rodrigo menciona as verdadeiras intenções da mineração: “Melhorar o potencial para um ‘alcance profundo’ nas comunidades locais para entender melhor o que é importante localmente, o por quê, e o que dificulta o desenvolvimento local”.

Além de formar os religiosos para atuar em prol das mineradoras, oferecem “Kit de ferramentas e materiais de treinamento para ajudar seminários teológicos e melhor equipar pastores e outros líderes da igreja para servir comunidades afetadas por projetos de mineração”, diz trecho do documento.

NOVA MINERAÇÃO?

Aproximar-se da igreja viria da necessidade de implantar a imagem de uma nova mineração perante à sociedade. “Em 2012, um grupo diversificado de líderes globais ligados as mineradoras, se reuniu em uma conferência em Belo Horizonte (MG) para discutir a urgência de mudanças nas empresas de mineração pensando como deveria ser a atuação de uma ‘Companhia de Mineração no Futuro’”, lembra Frei Rodrigo.

Entre os presentes estavam membros da mineradora Vale, Anglo Gold Ashanti, Fundação Ford e Universidade de Harvard, cujo debate foi dirigido por Mark Cutifani (CEO da Anglo American), Ray Offenheiser (presidente da Oxfam America) e Peter Bryant, Senior da Kellogg Innovation Network – KIN, uma escola de administradores que aperfeiçoa uma rede de professores, empresas, ONG’s e governos para soluções lucrativas.

Para a indústria, a igreja é um obstáculo em potencial para os esforços deles em expandirem ainda mais em países desenvolvidos, afirma em artigo o diretor de programas da Oxfam America, Keith Slack.

“As organizações participantes fizeram uma intensa leitura de que as comunidades não confiam na mineração e que isso cria incertezas adicionais para seus negócios”, cita Frei Rodrigo.

Tudo pensado a partir do prejuízo consequente da morosidade da implantação de projetos de mineração no mundo, motivados pelas insatisfações populares.

Dessa forma, “as empresas têm a esperança que conquistando o favor de um pároco ou de um bispo conseguirão automaticamente garantir o apoio e reconhecimento de todos os fiéis daquela igreja em favor de seus projetos, tentam cooptar a igreja”, pensa Padre Dario Bossi, que também atua na Rede Igrejas e Mineração.

CONTRA ATAQUE

A Rede Igrejas e Mineração, uma plataforma ecumênica articulada em mais de 50 países das Américas entre bispos, leigos, pastores e congregações religiosas contra a destruição das mineradoras nas comunidades, levou a problemática ao Vaticano em julho de 2015, num encontro com o Papa Francisco.

Na oportunidade, o Papa classificou o evento como um grito contra as mazelas provocadas pelas mineradoras nos territórios onde atuam. “Um grito pelas terras perdidas; pela extração das riquezas do solo que, paradoxalmente, não produz nenhuma riqueza para a população local que permanece pobre; um grito de dor em reação às violências”, protestou.

Posteriormente ao encontro e percebendo a movimentação das corporações da mineração avançando sobre a igreja, a Rede lançou uma carta com o título “A Igreja não está à Venda” fazendo alusão ao processo de cooptação.

Para o padre Dario Bossi, algo é certo: “A Rede Igrejas e Mineração precisa consolidar cada vez mais seu debate em todas as esferas eclesiais, desde as bases até as hierarquias, fazendo conhecer os impactos e violações da mineração e tentando desvendar essas novas estratégias das empresas, voltadas quase que unicamente a legitimar sua presença e interesses nos territórios”, enfatiza.

Coordenação de Jornalismo: Nina Fideles Coordenação de Multimídia: José Bruno Lima Texto: Marcio Zonta Edição: Simone Freire e Daniela Stefano

Parceria: Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM)

Em memória de Adalberto Franklin, jornalista e historiador do Maranhão.

Fonte: Brasil de Fato

 

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