Referência no exterior, Brasil não faz dever de casa na área ambiental

Guarás e Garças sobrevoam área de mangue no Parque Nacional do Cabo Orange. Foto: Victor Moriyama / Greenpeace

O país que guarda a maior biodiversidade do mundo vive uma dualidade: por um lado é protagonista nos acordos ambientais internacionais, com posição de destaque nas mesas de negociações e referência para outros países. Por outro, possui uma estrutura governamental frágil para atender aos desafios de gerir tamanho patrimônio.

Sobram problemas nas estruturas dos órgãos ambientais de todas as esferas, desde processos burocráticos lentos, ineficiência nas ações e conflitos de cunho fundiário ou social.

A bipolaridade do Brasil na área ambiental é revelada também pelos números sobre a cobertura vegetal no país. Se por um lado o Brasil preserva 40% da sua cobertura vegetal em bom estado, por outro concentra essa cobertura em apenas 400 dos 5.570 municípios brasileiros.

As fragilidades e potencialidades do país são um dos assuntos abordados no Sumário para Tomadores de Decisão do Primeiro Diagnóstico Brasileiro de Biodiversidade e de Serviços Ecossistêmicos, documento lançado na manhã desta quinta-feira (08) pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e de Serviços Ecossistêmicos (BPBES, da sigla em inglês), em evento fechado para a imprensa no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.

Inspirada no Painel Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ambientais (IPBES) da ONU, considerada o “IPCC da biodiversidade”, a BPBES surgiu em 2016 com a proposta de fazer relatórios periódicos sobre o que se sabe de mais novo sobre biodiversidade, floresta em pé e serviços ambientais que a natureza preservada garante.

O primeiro documento, fruto de um trabalho de 3 anos e envolvendo mais de 120 pesquisadores, foi tornado público às vésperas da conferência mundial sobre biodiversidade, a COP-14, em Sharm El-Sheik, no Egito.

Brasil subestima importância da própria biodiversidade

“A biodiversidade e serviços ecossistêmicos sempre foram percebidos como obstáculos ou, no máximo, como apêndice do processo de desenvolvimento. No entanto, é preciso reverter essa visão, porque a incorporação da biodiversidade e serviços ecossistêmicos podem constituir uma base de ganho e competitividade muito importante no ambiente global, que vem se configurando nos setores produtivos, cada mais dependentes de práticas inclusivas e sustentáveis”, explica Mercedes Bustamante, professora da Universidade de Brasília (UNB), e um das coordenadora da da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e de Serviços Ecossistêmicos (BPBES).

Das 141 culturas agrícolas brasileiras, 85 dependem da polinização realizadas por insetos como abelhas, mariposas, moscas e besouros. Segundo estudo citado no relatório, os serviços para a economia que esses animais prestam chegam a ordem de R$ 12 bilhões por ano. Espécies como o algodão e a soja dependem da polinização.

“No momento em que você demonstra para um proprietário agrícola que ele tem mais a ganhar em manter áreas de vegetação nativa com a população de polinizadores, porque a presença de polinizadores vai aumentar, no caso da soja, por exemplo, em 20% a produção dele. Ou no caso do café, de 15 a 18%, [esse produtor] vai entender que ele também tem a ganhar com essa proteção e vai passar a colaborar com a implementação do que a gente está propondo”, afirma o biólogo Carlos Joly, da Unicamp, que também é um dos coordenadores da BPBES e um dos fundadores da proposta.

Para o engenheiro florestal, Fabio Scarano, da UFRJ, o relatório aponta para a necessidade de transversalizar a assunto, não só envolvendo o governo e o setor econômico, mas os próprios cientistas e a academia.

“A ciência que trata da biodiversidade está muito biológica. Para a gente entender melhor a relação da biodiversidade com o bem-estar das pessoas e os serviços que a natureza oferece para as pessoas, a gente precisa trabalhar no sentido de casar um pouco mais as ciências naturais com as ciências sociais e isso envolve pensar política científica de maneira diferente do que estamos fazendo”, afirma.

Os números e destaque do relatório

  • Até 2030, a mudança no uso da terra seguirá sendo o principal vetor de perda de biodiversidade e de serviços ecossistêmicos no país, e continuará a ser um fator-chave ao longo de boa parte do século 21;
  • O território nacional abriga cerca de 42 mil espécies vegetais + 9 mil espécies de vertebrados + 129 mil invertebrados conhecidos;
  • Espécies ameaçadas: 1.173 da fauna + 2.118 da flora;
  • De 141 culturas agrícolas analisadas no país, 85 dependem de polinização por animais;
  • Cerca de 80 famílias e 469 espécies de plantas são cultivadas em sistemas agroflorestais no Brasil;
  • Mais de 245 espécies da flora brasileira são base de produtos cosméticos e farmacêuticos; ao menos 36 espécies botânicas nativas possuem registro de fitoterápicos;
  • O Brasil exporta mais de 350 tipos de produtos agrícolas e a agricultura familiar produz 70% do que é consumido pela população brasileira;
  • 2/3 da energia elétrica consumida no Brasil provém de usinas hidrelétricas que dependem da integridade de ecossistemas;
  • O Brasil é o terceiro maior país exportador de produtos da silvicultura, responsável por 3,64% do volume total do mercado global;
  • O setor do turismo no Brasil gera 43 mil empregos e agrega R$ 1,5 bilhão ao Produto Interno Bruto (PIB) do país;
  • Estima-se que, entre 2013 e 2025 o Brasil dobrará sua produção pesqueira, passando a produzir 1.145 mil toneladas de pescado;

Por: Daniele Bragança
Fonte: ((o))eco
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