Tecnologias indígenas: esplendor e captura

Quando as primeiras caravelas vindas da Europa atracaram em terras americanas, elas traziam a bordo o que havia de mais moderno e avançado, a tecnologia mais desenvolvida da época: naves planejadas e construídas para vencer os oceanos, instrumentos de navegação, mapas, armamentos. E o pensamento desbravador e explorador das grandes potências da época, dos senhores supremos, donos de terras, mares e gentes, com mandato divino para aniquilar ou dominar tudo que não fosse à sua semelhança.

Encontraram aqui povos que viviam de maneira oposta, com a tecnologia mais avançada e adaptada às suas necessidades. E esse conhecimento acumulado ao longo de milhares de anos foi fundamental para que os estrangeiros conseguissem aqui permanecer e iniciar seu plano de ocupação e exploração dos novos territórios.

Da mesma forma, em pleno século 21, as frentes de contato de povos isolados continuam chegando a lugares remotos com o que há de mais moderno e avançado: helicópteros, computadores, celulares conectados a satélites, GPSs, o modelo mais moderno de sleeping bag, de repelente, lanterna, roupas com proteção solar.

E, como há cinco séculos, o que se encontra dentro das florestas remotas é conhecimento, sabedoria, sustentabilidade. Arquitetura, engenharia, astronomia, biotecnologia, agricultura, medicina, ciência política, estratégias de guerra, filosofia, espiritualidade, arte.

Cada um dos povos originários que aqui viviam e ainda vivem tem uma forma particular de entender e ocupar o mundo, um idioma, uma história própria, relações comerciais, sociais e políticas e, até há pouco tempo, uma grande movimentação pelos continentes.

Esses povos considerados primitivos domesticaram centenas de plantas selvagens para produzir alimentos, fazendo cruzamentos e aprimorando sementes até atingir a perfeição. O milho, originário de uma gramínea, foi aprimorando em dezenas de diferentes espécies, de cores e sabores diversos, com as mais variadas formas de processamento, e se transformou no alimento mais cultivado e apreciado em todas as Américas, chegando à Europa somente após o retorno dos primeiros exploradores no século XV. Assim como as dezenas de espécies de mandioca, o cacau, o feijão, o tomate, e principalmente as batatas – dezenas de variedades cultivadas no Peru e Bolívia e que dali se expandiram para todo o mundo.

A fartura de alimentos cultivados com técnicas especificas em cada ecossistema e por cada um dos povos, além de frutas nativas e castanhas, surpreenderam os colonizadores — que rapidamente se apropriaram dessa riqueza, usufruindo desse conhecimento milenar.

E não vou nem me atrever a falar sobre as grandes culturas e sociedades Olmeca, Tolteca, Asteca, Maia, Inca, com seu esplendor e riqueza material, totalmente subjugadas pelos espanhóis. Quero focar a conversa nos povos que venceram os séculos de ocupação e massacres e ainda vivem hoje, nossos contemporâneos em tempos tão difíceis de intolerância à diversidade.

Grande parte dos medicamentos que chegam às farmácias têm origem no conhecimento tradicional de plantas originárias das matas, cerrado, caatinga. Ervas, raízes, flores, frutos, seivas, cascas de árvores, uma infinidade de plantas usadas na cura, proteção e no fortalecimento do corpo pelos povos indígenas. Muito desse conhecimento é hoje explorado comercialmente por grandes laboratórios sem nenhum tipo de reconhecimento aos povos que descobriram seus princípios e usos. Seu Casemiro, um ancião do povo Tukano, do Alto Rio Negro(AM), quando perguntado por um pesquisador sobre o uso de determinada planta medicinal, se recusou a responder. Disse que “durante muito tempo esse conhecimento foi entregue generosamente aos estrangeiros porque o povo indígena acreditava que assim estava colaborando para a cura de muita gente”. Mas que agora, quando seu povo precisava de um medicamento, “não tem como pagar tão caro para uma empresa de fora que transformou a cura em negócio”. Essa questão é complexa e mobiliza instituições e governos com grande interesse no assunto, mas o “Direito de Patente, Biodiversidade e Conhecimento Tradicional”, com o reconhecimento dos povos originários, enfrenta, como sempre, o grande poder econômico.

Esse conhecimento da medicina tradicional vai além do uso das plantas, envolve banhos, sangrias, massagens, envolve a intervenção de pajés e homens de poder que fazem a intermediação com o mundo dos espíritos. Há alguns anos, morreu num hospital de Brasília o querido Tio Raimundo, Serezabdi Xavante, com mais de 85 anos. Era jovem quando os warazu, os estrangeiros, chegaram à sua aldeia no final de década de 1940. Era sábio, guerreiro e caçador dos mais elogiados e tinha um grande conhecimento sobre cura usando as plantas do cerrado. Eu estava na aldeia quando uma menina de uns oito anos foi mordida por uma cobra jararaca. Ele foi chamado. Já era bem idoso, se movia com dificuldade, mas foi para o mato e regressou com uma batatinha.

Ralou o liquido branco e deu numa cuia para a menina tomar. Usou a massa da batata para fazer um curativo sobre a mordida. Fez sua reza enquanto a família da menina chorava o choro cerimonial. Ele ficou ao lado da menina, cuidando, o resto do dia e da noite. Meu coração apertado fazia um esforço para se acalmar e confiar que tudo ficaria bem, mas confesso que queria levar a menina de carro para a cidade para que tomasse soro. Todos ali tinham plena confiança, apesar da dor e da angústia. No dia seguinte a menina estava bem e já se movimentava pela casa, mancando com o pé ainda inchado. Para a tuberculose, que o pegou de jeito, Tio Raimundo não conhecia a cura. As doenças que chegaram com o warazu continuam tirando a vida de velhos, jovens e crianças nas aldeias. E esse conhecimento tradicional, desacreditado e desrespeitado pelos profissionais de saúde responsáveis pelo atendimento às aldeias, vai sendo substituído pelos comprimidos e injeções, por medicamentos que, quando estão disponíveis para essa população, sempre têm efeitos colaterais.

Enquanto isso, a diversidade da nossa flora vai ao chão para abrir espaço ao agronegócio. A própria configuração atual da floresta ou do cerrado, tão diversa, é fruto da presença e da ação dos povos indígenas. Sobrevoando a floresta amazônica num pequeno avião monomotor, entre Boa Vista, a capital de Roraima e a aldeia Demini, meu companheiro de viagem, o grande líder Davi Kopenawa Yanomami me mostrava, lá embaixo, aldeias antigas e trilhas percorridas pelo povo Yanomami. Mesmo voando a baixa altitude, eu via apenas a floresta, um tapete verde maravilhoso, mas uniforme. Ele, muito paciente, tentava me fazer enxergar além. E como naqueles jogos de ilusão ótica, de repente, eu consegui enxergar claramente o que meu mestre tentava me fazer ver.

Sim, o formato circular da aldeia estava ali, impresso na mata, as trilhas apareciam claras, serpenteando até o rio ou se distanciando. A vegetação nesses lugares era outra, árvores frutíferas, palmeiras, um pomar e jardim construídos ao longo de centenas de anos de ocupação. Pois o povo semeia seus alimentos preferidos em torno da aldeia, as árvores de que necessita ao longo dos caminhos. As sementes do que se come, andando na mata, ficam ali, se desenvolvem, se tornam novas árvores que vão alimentar nos trajetos as futuras gerações. É assim também no cerrado. O povo Xavante sabe para onde ir caçar quando tem vontade de comer anta, pois conhece os hábitos desse animal, sabe onde estão as frutas que ele mais gosta. E dessa maneira, criando as condições para que o cerrado se mantenha, diverso e rico, esse povo caçador pode garantir o sustento da família com a carne mais apreciada.

Logo depois da retomada de um extenso território que havia sido ocupado por fazendas de arroz e gado, na década de 1970, os anciãos Xavante do território de Pimentel Barbosa se preocuparam em recuperar aquela área de cerrado, totalmente devastado. Procuraram ajuda fora da aldeia, pois tinham pressa e acreditavam que a tecnologia tradicional não daria conta da recuperação daquele lugar tão árido e sem vida. Pesquisadores da Embrapa foram consultados e eles também, naquela época, estavam às voltas com a dificuldade de germinação de muitas espécies do cerrado para produção de mudas. Foram esses cientistas Xavante que esclareceram os mistérios da germinação de cada uma das sementes. Eles tinham o conhecimento para quebrar a dormência. O fogo era fundamental para muitas; para outras, o caminho para despertar passava pelo sistema digestivo dos animais silvestres. “Essa planta nasce depois que fazemos a caçada com fogo, diziam eles, esta outra quando a anta caga a semente, aquela precisa ser comida pelo lobo.” Aliando os conhecimentos dos cientistas da aldeia e da cidade, essa área do cerrado foi recuperada totalmente. É um lugar vivo, que irradia alegria para o povo Xavante, alimentando as novas gerações.

Da mesma forma, os povos que vivem à margem dos grandes rios dominam o conhecimento sobre o fantástico mundo das águas. Conhecem cada espécie de peixes e animais aquáticos, seus hábitos e necessidades. Sabem como manter o equilíbrio dos rios e lagos, preservando a água e o alimento. Sabem fazer canoas, leves e ágeis, capazes de navegar em igarapés rasos e enfrentar os grandes rios. Tecnologias desenvolvidas ao longo de milhares de anos, a partir de pesquisas e tentativas até encontrar a árvore perfeita, o instrumento perfeito, o uso do fogo ou da água para moldar a madeira. Cada povo tem sua forma de construir canoas, cada uma tem características próprias.

Da mesma forma a arquitetura de cada um desses povos é completamente diferente e totalmente adaptada às necessidades da comunidade. O que elas têm em comum é a beleza, a funcionalidade, a capacidade de reter o calor nas noites frias e manter o frescor nos dias quentes, de ser arejada e permitir a saída da fumaça das fogueiras. Cada casa indígena traz a marca desse conhecimento e sabedoria, da pesquisa, aprimoramento e transmissão da tecnologia para as gerações futuras. Difícil imaginar como os povos do alto Xingu construíam suas casas magníficas quando ainda não conheciam o machado ou a motosserra, quando não havia trator ou caminhonetes para transportar a madeira. Os esteios principais da casa são troncos de mais de 8 metros de altura, a madeira que sustenta a cumeeira pode ter 20 metros. O planejamento e execução de tão complexa obra envolve muitas etapas: a localização do material, o corte, o transporte de grandes troncos, de ripas e cipós para amarração, de sapé para a cobertura. Tarefa de toda a família extensa que vai ocupar a casa, trabalho de meses. Da mesma forma, é impactante ver uma casa Yanomami, com o pátio central aberto para o céu, enquanto as paredes laterais descem até o chão, fechando um circulo perfeito que acomoda dezenas de famílias nos espaços laterais. Em meio à floresta fechada, a única grande casa chamada Xabono protege toda a aldeia.

E os povos que vivem à beira de grandes rios fazem suas casas sobre longas pernas, fincadas no chão dos barrancos. As palafitas, com esteios e assoalho de palmeira paxeuba, são leves, abertas para o mundo, pousam como pássaros sobre a floresta, com a vista para o rio, mesmo nas cheias protegem seu povo.

Ailton Krenak definiu assim uma casa indígena: “Nossas casas são assim, como nosso corpo: os troncos, como a coluna vertebral, dão a sustentação; as varas, como as costelas, protegem o coração. As folhas, como nossa pele, abrigam do frio e do calor”.

E a rede de dormir? Tem invenção mais gostosa e aconchegante? Um jeito amoroso de envolver o corpo para que o espírito descanse, para que os sonhos iluminem o pensamento e desvendem os mistérios.

Acima da cabeça, orientando a vida, está o céu, com suas constelações, com seu movimento que os povos conhecem e dão nome, que regulam o tempo de plantar e colher, de caçar e pescar, de fazer as cerimônias, o local e a direção da construção da casa. E como o movimento do céu, o tempo é circular, se repete nos ciclos, respeita o fluxo da natureza. Uma relação de conhecimento e parceria, de pertencimento e respeito.

E ainda hoje, toda essa tecnologia e conhecimento são invisíveis aos olhos da “sociedade nacional”, àqueles que pensam que sua tecnologia é a única e verdadeira, o povo das mercadorias, como diz Davi Yanomami.

A nossa tecnologia “branca ocidental” seguiu um caminho de transformação dos recursos naturais em coisas, cada vez mais complexas, brilhantes, mirabolantes. Coisas que ficam para sempre, mesmo quando já não funcionam mais, viram lixo que vai se acumulando e pesando sobre o planeta. Nós nos orgulhamos dos prédios cada vez mais altos, dos carros cada vez maiores, dos computadores cada vez menores e mais inteligentes, enquanto nossa memória, sem se exercitar, fica mais fraca e esquecida, enquanto nosso corpo se modifica de acordo com as exigências do mercado e se distancia da natureza, interna e externa.

Chegamos às aldeias com modelos de arquitetura em alvenaria para as escolas, com as motocicletas que transformam os corpos indígenas em sedentários dependentes de combustível, com alimentos enlatados e empacotados que causam doenças.

Negamos o conhecimento tradicional e a beleza dessas culturas porque assim podemos convencê-los de que são menos, são ignorantes e incapazes, são indolentes e arcaicos, homens das cavernas ou animais. E assim nos damos o direito de tirar-lhes a vida, o território, a crença, a alma, a alegria de viver. Porque somos superiores, sabemos como desenvolver este país e eles estão atrapalhando o nosso caminho. Estão sentados sobre a riqueza dos minerais mais preciosos, de terras agriculturáveis, de rios que podem se transformar em barragem ou esgoto.

Com sua sabedoria, Davi Kopenawa Yanomami desde a década de 1980 fala que os nape, os “brancos”, estão liberando veneno de dentro da terra e esse veneno sobe como fumaça, causando feridas na pele do céu. Essas feridas abrem buracos por onde o sol vai penetrar e queimar a terra e tudo que está vivo sobre ela. O céu, doente, um dia vai cair e acabar com o mundo. Os Yanomami, que em seus mitos relatam uma primeira queda do céu, sabem bem do que estão falando. Está na hora ouvirmos esses povos, de reconhecermos a sabedoria indígena, aprendermos com eles a cuidar do planeta, antes que seja tarde demais.

Por: Angela Pappiani, jornalista, produtora cultural e escritora; diretora na IKORE, agência voltada à temática indígena, publicado
Fonte: Outras Palavras
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