Após três diretores se demitirem, Salles anuncia 4 militares na diretoria do ICMBio

Após Ricardo Salles ameaçar servidores do ICMBio, diretores entregam cargo. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil .

A cúpula do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) será totalmente composta por militares. O anúncio foi feito nesta quarta-feira (24) pelo ministro Ricardo Salles, através de sua conta no Twitter: “Ao agradecer a dedicação e empenho dos que até então compuseram as diretorias do ICMBio, tenho a alegria de anunciar os novos diretores: Cel PM Lorencini, Ten Cel PM Simanovic, Major PM Marcos Aurélio e Major PM Marcos José, que junto ao Cel PM Homero, farão um grande trabalho”.

A publicação na rede social foi feita cerca de 2h30m depois de o ministro perder 3 dos 4 diretores do ICMBio. Régis Pinto de Lima (que além de diretor de Pesquisa, Avaliação e Monitoramento da Biodiversidade era presidente substituto do ICMBio), Luiz Felipe de Luca de Souza (diretor de Criação e Manejo de Unidades de Conservação) e Gabriel Henrique Lui (diretor de Ações Socioambientais e Consolidação Territorial em Ucs) enviaram ofício a Salles. No documento, afirmaram que decidiram pedir demissão após a exoneração de Adalberto Sigismundo Eberhard da presidência do ICMBio.

Os quatro novos diretores são da Polícia Militar do Estado de São Paulo, onde Salles foi secretário do Meio Ambiente e secretário particular do então governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP). Com o tweet, o ministro também confirma a nomeação do Cel. Homero de Giorge Cerqueira (Comandante da Polícia Ambiental de São Paulo) para a presidência do Instituto.

Internamente, a secretária-executiva do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Ana Maria Pellini, já vem discutindo a realocação de servidores para a fusão do Ibama e do ICMBio.

Nº do processo – 02070.004278/2019-76. Pedido de exoneração em conjunto.

Efeito dominó começou após ameaça a servidores

O efeito em cadeia de exonerações começou após o mal-estar causado pela declaração de Salles durante visita ao Parque Nacional da Lagoa do Peixe, no sul do Rio Grande do Sul, no dia 13 de abril. Na ocasião, Salles disse que iria abrir processo administrativo contra servidores do órgão que não haviam comparecido a um ato promovido por políticos locais e produtores rurais. Segundo mostrou ((o))eco, os servidores não haviam sido convidados para o evento, que não constava na agenda oficial do Ministro.

Dois dias depois, Eberhard pediu demissão. Nesta quarta (24), saiu no Diário Oficial da União a demissão, por decisão do ministro, a exoneração do chefe do Parque Nacional da Lagoa do Peixe, Fernando Weber. A exoneração foi assinada por Régis Pinto de Lima, que em seguida anunciou a própria saída ao lado dos outros dois diretores.

Com a sucessão de demissões, o único diretor que havia restado era Leandro Mello Frota, Diretor de Planejamento, Administração e Logística, que agora também foi exonerado.

Aumenta pressão para rebaixar parque gaúcho

Parque Nacional Lagoa dos Peixes, área prioritária para a conservação de aves migratórias. Foto: Roberto Dall’Agnol .

A saída de Fernando Weber da chefia do Parque Nacional da Lagoa do Peixe deve aumentar ainda mais a pressão pela transformação da unidade em uma Área de Proteção Ambiental (APA), a categoria mais branda de área protegida dentro do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, que permite o uso direto de recursos e moradia. Weber, que é servidor de carreira do ICMBio e seguirá trabalhando no Parque, afirma que vai continuar lutando para que a unidade não seja rebaixada: “Sendo chefe ou não, [segue] nossa luta pelo meio ambiente, respeitando a diversidade socioeconômica da região, lutando para que continue Parque”.

A transformação da unidade de conservação integral em uma unidade de uso sustentável é defendida por políticos como o deputado federal Alceu Moreira (MDB-RS) e o deputado estadual Gabriel Souza (MDB-RS). Ambos estavam no evento com o ministro Salles no Rio Grande do Sul realizado no dia 13. Além da produção pecuária, a maior pressão pela recategorização da área vem de empresas de energia eólica que querem se estabelecer na região. Como a Lagoa do Peixe é um ponto estratégico de alimentação para aves migratórias, os projetos que querem se instalar no entorno precisam passar por uma avaliação prévia da direção do Parque.

Segundo apurações do ((o))eco, Giovana Sessim Borges foi convidada para assumir a chefia do Parque no lugar de Weber, mas ainda não decidiu se vai aceitar a proposta. Em sua página no Facebook, Borges se apresenta como agropecuarista e advogada. Ela também informa que trabalhou como advogada na Prefeitura Municipal de Mostardas e estudou Meio Ambiente na instituição de ensino Ulbra, depois de passar pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Não foi possível encontrar mais informações sobre sua experiência profissional. A reportagem tentou contato com Borges, mas não obteve retorno.

Por: Fernanda Wenzel
Fonte: O Eco

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