A embalagem que vem, mas não volta: problemas ambientais em comunidades da Amazônia são debatidos em encontro

5º Encontro de Agentes Ambientais Voluntários debateu estratégias para a conservação da biodiversidade da Amazônia. Programa envolve mais de 200 comunitários em ações na região do Médio Solimões

A mais de 300 quilômetros de Manaus e dentro da Reserva Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, está localizada a comunidade Punã, no estado do Amazonas.

Punã faz parte de Uarini, município rural de pouco mais de 10 mil habitantes, e é uma das mais de cem localidades da unidade de conservação cujo modelo busca conservar a biodiversidade da Amazônia com a inclusão das populações humanas que ocupavam o território previamente à criação da reserva. Atualmente, vivem cerca de 10 mil ribeirinhos na área de 1.124 milhão de hectares.

Desmatamento e pesca ilegal são alguns dos problemas que os ribeirinhos enfrentam para manter a vida — tanto das espécies de fauna e flora quanto das comunidades — fora de risco. Para isso, o Programa de Agentes Ambientais Voluntários (AAVs), da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema), visa capacitar e mobilizar comunitários em ações de educação ambiental.

Com o objetivo de debater dificuldades e elaborar estratégias para melhor atuação dos agentes ambientais, foi realizado do dia 11 ao 13 de junho o 5º Encontro de Agentes Ambientais Voluntários.

Agentes Ambientais Voluntários: guardiões da Amazônia

Ana Aquino, moradora da comunidade Punã, realizou a capacitação para ser agente ambiental voluntária em fevereiro deste ano. Em maio, recebeu a carteirinha e agora faz parte do grupo de mais de 200 agentes ambientais voluntários atuantes na região das reservas de desenvolvimento sustentável Mamirauá e Amanã, localizadas na região do Médio Solimões, na Amazônia Central. Juntas, as duas unidades de conservação abarcam mais de 3 milhões de hectares.

Os formados pelo programa trabalham principalmente como agentes de conservação de recursos naturais, organizadores sociais, formadores de lideranças, mediadores de conflitos e educadores ambientais. Na capacitação, os grupos de cada setor (região que abarca diversas comunidades) organizam um planejamento de atividades com foco em alguma questão prioritária referente à proteção ambiental dos locais dos agentes.

Os agentes não possuem poder de fiscalização, mas devem comunicar as entidades fiscalizadoras sobre a ocorrência de infrações dentro ou no entorno de unidades de conservação ambiental e em demais áreas de interesse de proteção.

A região do Médio Solimões abarca a várzea, ecossistema que alagável cujos períodos de cheia e seca e ditam os costumes, meios de vida e rotina das populações ribeirinhas. A comunidade Punã, entretanto, é uma das localizadas em terra firme, onde a água transitória não chega.

Nas comunidades de várzea, mais dependentes da pesca, são comuns problemas com pesca ilegal, que desvaloriza o produto manejado e impacta diretamente o ciclo natural das espécies.

Em terra firme, onde há maior consumo de alimentos industrializados, os principais desafios são outros. Após o uso dos produtos, as embalagens não têm destino certo e a poluição aumenta.

Por isso, o lixo foi escolhido como tema do plano de ações na comunidade de Ana.

O problema do descarte de resíduos

“A embalagem vai, mas não volta”, explica o coordenador do Programa de Gestão Comunitária do Instituto Mamirauá, Paulo Roberto.

Sem lixão ou aterros, a comunidade enfrentava com dificuldades as consequências do aumento no consumo de alimentos industrializados. As embalagens não tinham meio adequado de descarte, como nas cidades. “A gente via muito lixo jogado no chão, na água”, conta Ana.

Em alguns locais isolados dos grandes centros, realiza-se a queima destes materiais. O processo é responsável pela emissão de gases de efeito estufa na atmosfera e capaz de desencadear incêndios florestais durante o período de seca.

Com a atuação dos agentes, os moradores da comunidade Punã passaram a mudar hábitos.

Embalagens como latinhas de sardinha, por exemplo, viraram matéria prima em projetos da disciplina de Artes nas duas escolas da comunidade. Em uma ação promovida pelos agentes, garrafas PET foram transformadas em cortinas e acessórios.

Ao invés de ser descartado, olixo tem sido cada vez mais transformado. Os recicláveis vão para o Centro de Reciclagem da comunidade e a matéria orgânica vira compostagem.

Antes queimado, o capim cortado do terreno ocupado pela escola estadual da comunidade agora também acaba em sistemas de composteiras.

O adubo resultante da compostagem atua como fertilizante natural das culturas agrícolas que, aliadas à pesca, garantem a sobrevivência dos comunitários.

Periodicamente, os agentes também organizam mutirões para retirada de lixo dos entornos. “Muita gente tem rejeição com voluntariado, mas acredito que a palavra ‘voluntário’ transformou a nossa comunidade. Todo mundo agora se interessa pelo nosso trabalho. A gente recebe contato de gente que quer participar dos mutirões, que quer se envolver ”, explica a comunitária. A tendência, afirma a agente ambiental, é ainda mais melhorias resultantes do trabalho de educação ambiental realizado, também, com as crianças e jovens da comunidade.

5º Encontro de Agentes Ambientais Voluntários

O evento que reuniu os agentes ambientais voluntários contou com a presença de representantes da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema), Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) e outras entidades parceiras do programa.

No encontro, os representantes e os comunitários debateram novas abordagens para diminuição do desmatamento, invasões e conflitos nas reservas e entorno.

No último dia, aconteceu a 5º Assembleia Geral da Associação de Agentes Ambientais Voluntários das Reservas Mamirauá e Amanã.

O programa dos Agentes Ambientais Voluntários no Amazonas é realizado pela Sema com apoio Instituto Mamirauá e financiamento do Fundo Amazônia, cujos recursos são geridos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). As ações fazem parte do projeto “Mamirauá: Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade em Unidades de Conservação” (BioREC).

O projeto BioREC, entretanto, chegou à última etapa e o programa de AAVs não terá mais o financiamento.

O coordenador Paulo Roberto pontuou que, com o fim do projeto, a responsabilidade da associação vai ser maior para o desenvolvimento das ações. “Não é momento de tristeza, mas sim esperança e trabalho para que a associação se mobilize para buscar recursos que garantam a atuação dos agentes, que não deve parar”.

Por: Júlia de Freitas
Fonte: Instituto Mamirauá

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