Abandonar a carne ou a esperança

Este artigo é o resultado de uma comunicação feita no Fórum Permanente “Terras Indígenas e Interesses Nacionais”, organizado por Camila Loureiro Dias e Artionka Capiberibe, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, em 20 de maio de 2019. Para começar, convido o leitor a respirar fundo e assistir ao vídeo de 2 minutos, documentando o desmatamento ilegal na região de Cachoeira do Aruã a cerca de 100 km de Santarém, no Pará: https://www.youtube.com/watch?v=48eZM5uHkqo

Após a extração seletiva de madeira, vem o fogo no que resta da floresta e procede-se, enfim, ao corte raso para o plantio da soja e, sobretudo, para a abertura de pastos. Estes se degradam ao cabo de 10 a 15 anos e são abandonados, o que leva a novos desmatamentos.

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Zona desmatada para a abertura de pasto à beira da terra indígena Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia | Foto: Gabriel Uchida, publicada por Alexander Zaitchik, “The Rainforest on Fire”. The Intercept, 6/VII/2019.

Incêndios

Os incêndios se alastram na Amazônia, com gigantescas emissões de gases de efeito estufa, perdas não menos gigantescas de biodiversidade e liberação na atmosfera de material particulado terrivelmente prejudicial à saúde pública. “Na população da Amazônia brasileira, mais de 10 milhões de pessoas são diretamente expostas a altos níveis de poluentes resultantes dos incêndios provocados pelo desmatamento e pela agropecuária”. Entre os males causados pela inalação de material particulado (PM10), contam-se danos ao DNA, morte de células, câncer e prejuízos às células do pulmão etc.[I] Os incêndios florestais são, em geral, o meio mais rápido de “se livrar” da floresta. Ocorre que o fogo torna-se muitas vezes incontrolável dada a maior combustibilidade da floresta, vítima da interação entre desmatamento, temperaturas mais elevadas e secas. Os ecossistemas florestais enfrentam crescente dificuldade para se recuperar de secas e incêndios. Como afirmam Sonia I. Seneviratne e Philippe Ciais, “o tempo necessário aos ecossistemas para se recuperar aumentou durante o século XX. Se a frequência dos eventos de seca aumentar, alguns ecossistemas podem não se recuperar jamais completamente”.[II] É o caso justamente da Amazônia, onde as secas vêm ganhando intensidade e se tornando mais frequentes: 1998, 2005, 2010, 2015-2016…[III] A floresta não tem tempo de se recuperar nem das secas, nem dos incêndios gigantescos causados por ela, porque a Amazônia, não por acaso chamada rainforest, não está adaptada como outras florestas a esses dois fenômenos, de modo que os incêndios destroem 60% a 90% das árvores.

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Fonte: Bernardo M. Flores, Resiliência da Floresta Amazônica. O papel do fogo, inundação e clima, UFSC, 2017

Ora, metade das queimadas no Brasil ocorre agora na Amazônia e nesse bioma o número de focos de incêndio dobrou entre 2012 e 2017, atingindo cumulativamente 536.817 focos, conforme a tabela abaixo.

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Fonte: Graça Portela (ICICT/Fiocruz), baseada em dados do Programa Queimadas, Inpe

O crescimento do rebanho bovino e das pastagens nas regiões Norte e Centro-Oeste

Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC), em 2017 a população de bovinos no Brasil atingiu 221,81 milhões de indivíduos, excedendo a população de humanos.[IV] Ela é concentrada cada vez mais na região Norte e no Centro-Oeste, conforme mostra a Figura 1.

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O gráfico acima mostra que o Centro-Oeste, o mais populoso de bovinos já em 1985 (mais de 40 milhões), quase dobra essa população em 2016. Crescimento ainda mais espetacular ocorre na Amazônia, onde o rebanho quase decuplica, passando de cerca de 5 milhões em 1985 para quase 50 milhões em 2016. Juntas, as regiões Norte e Centro-Oeste, isto é, o Pantanal, o Cerrado e a Amazônia, concentram hoje cerca de 58% do rebanho bovino brasileiro, sendo as únicas regiões que mostram uma tendência a ainda maior crescimento, com crescente substituição das florestas e das formações de savana por pastagens, como mostra a Figura 2

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Figura 2 – Mapas da cobertura vegetal do Brasil em 1985 e em 2017, mostrando as florestas em verde escuro, as formações de savana em verde claro, as pastagens em amarelo e a agricultura perene em rosa. Fonte: Mapbiomas.org (2019)

Segundo o Mapbiomas, a perda florestal na Amazônia no período foi de 555,4 mil km2 (de 4.812.286 km2 em 1985 para 4.256.883 km2 em 2017), sendo que o aumento das áreas de pastagens nesse mesmo período foi de 462,7 mil km2 (de 973.3 mil km2 em 1985 para 1,43 milhão de km2 em 2017).

A quase totalidade do desmatamento na Amazônia e no Cerrado deve-se ao crescimento da dieta carnívora no Brasil e no mundo

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Cerca de 80% do desmatamento da Amazônia brasileira deve-se à conversão da floresta em pastagens. A destruição do Cerrado, cuja cobertura original caminha hoje para um estado terminal, deve-se também preponderantemente à expansão da pecuária. Segundo estimativas do WWF, “60% da área total do Cerrado é destinada à pecuária e 6% aos grãos, principalmente soja. De fato, cerca de 80% do Cerrado já foi modificado pelo homem por causa da expansão agropecuária, urbana e construção de estradas – aproximadamente 40% conserva parcialmente suas características iniciais e outros 40% já as perderam totalmente. Somente 19,15% corresponde a áreas nas quais a vegetação original ainda está em bom estado”.[V] Em 2015, Veronique De Sy e colegas discriminaram as porcentagens em que se distribuem os diversos fatores de desmatamento em sete países da América do Sul. A Figura 3 sintetiza esses resultados.

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Figura 1 – Porcentagens em que se distribuem os diversos fatores de desmatamento em sete países da América do Sul entre 1990 e 2005. Fonte: Veronique De Sy et al., “Land use patterns and related carbon losses following deforestation in South America”. Environmental Research Letters, 10, 2015

Nesse período (1990-2005), a pecuária foi a causa de cerca de 81% do desmatamento no chamado “arco do desmatamento” brasileiro, incluindo a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal. Pouco mais de 10% do desmatamento deve-se à agricultura, fundamentalmente à soja, a qual destina-se a nutrir, no Brasil e no exterior, sobretudo porcos, frangos e peixes. Portanto, algo próximo de 90% da destruição da cobertura vegetal primária da Amazônia, do Cerrado e do Pantanal deve-se à dieta carnívora.

O gado bovino brasileiro destina-se sobretudo ao consumo interno

Segundo a ABIEC, em 2017 os frigoríficos brasileiros faturaram com a venda de carne R$ 102,6 bilhões, dos quais nada menos que R$ 83,24 bilhões provieram do mercado interno e apenas R$ 19,39 bilhões foram obtidos pela exportação. Esses valores correspondem aproximadamente à quantidade da carne vendida: “Do total de carne produzida”, afirma o relatório da ABIEC, “20% foi exportada e 80% abasteceu o mercado interno, garantindo um consumo de cerca de 37,5 quilos de carne bovina por habitante em 2017”. Em 2018, o documentário de Marcio Isensee e Sá, “Sob a pata do boi. Como a Amazônia vira pasto”, vencedor do prêmio One Hour do Ministério da Cultura da França, atualiza o dado mais relevante sobre as consequências do carnivorismo brasileiro: 40% da carne bovina que consumimos no Brasil provém da Amazônia, isto é, foi produzida em sua esmagadora maioria com a destruição da floresta amazônica.

De há muito se sabe que a Amazônia e o Cerrado desaparecem um pouco a cada naco de carne que ingerimos. Já em 2003, Sérgio Margulis publicou um estudo para o Banco Mundial, “Causas do Desmatamento da Amazônia Brasileira” no qual se evidencia a responsabilidade maior da pecuária. Em janeiro de 2006, João Meirelles Filho, diretor do Instituto Peabirú, publicou um artigo de imenso impacto: “Você já comeu a Amazônia hoje?”. Passados mais de 13 anos, vale sempre a pena lê-lo e relê-lo. Há cinco anos, Meirelles voltou à carga num artigo igualmente certeiro, publicado no Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi (Jan./Abril 2014): “É possível superar a herança da ditadura brasileira (1964-1985) e controlar o desmatamento na Amazônia? Não, enquanto a pecuária bovina prosseguir como principal vetor de desmatamento”. Logo na abertura do artigo de 2006, Meirelles advertia: “Não podemos nos dar ao luxo de esperar que as pessoas se convençam sobre a gravidade da situação da Amazônia. Será tarde demais quando fazendeiros, garimpeiros, madeireiros, funcionários públicos, representantes do poder público e a população em geral, despertarem para o fato. Teremos perdido a maior parte da Amazônia”. Exato. Caberia apenas acrescentar: “Teremos perdido a maior parte da Amazônia e do Cerrado”. No que se refere ao Cerrado, de resto, essa perda não é mais um pesadelo futuro.

A importância do Greenpeace

O Greenpeace alerta há pelo menos 10 anos sobre a relação de causalidade entre carnivorismo e destruição das florestas. Em 2009, a ONG analisou esse processo no relatório “A farra do boi na Amazônia” e no estudo “O rastro da pecuária na Amazônia. Mato Grosso, o estado da destruição”. Em 2015, o Greenpeace lançou o relatório “Carne ao Molho Madeira”, mostrando que a carne que chega aos pratos do brasileiro tem o gosto amargo da floresta destruída. Em junho de 2017, o Greenpeace denunciou a indiferença dos frigoríficos e supermercados a essa destruição e abandonou, enfim, o Compromisso Público da Pecuária, um compromisso assumido pelos três maiores frigoríficos do país (JBS, Marfrig e Minerva) de controlar a origem da carne, compromisso que praticamente não saiu do papel. Um dos gráficos propostos pelo Greenpeace em 2009 a partir de dados do Imazon, já foi por mim repercutido nesta mesma coluna em 2017,[VI] e vale ser relembrado aqui.

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Figura 4 – Perda florestal na Amazônia ~1960 – 2004 (esquerda) e aumento das cabeças de gado amazônico entre 1990 e 2003 (direita). Fonte: Greenpeace, “O rastro da pecuária na Amazônia”, 2009, a partir de dados do Imazon.

Entre 1960 e 1988, mais especificamente entre 1969 e 1988, a ditadura militar e o governo de José Sarney já haviam destruído cerca de 360 mil km2 da floresta amazônica. Apenas em 1988, sob o governo Sarney (1985-1990), foram perdidos 21.050 km2 dessa floresta, convertida em geral em pastagens, pois a Amazônia já contava 22 milhões de cabeças de gado em 1987. A partir de 1990, quando a produção pecuária estoura na Amazônia e quando as duas linhas do gráfico acima começam a subir em paralelo, a quase triplicação das cabeças de gado amazônico entre 1987 e 2003 (de 22 para 64,1 milhões de unidades) implicou a perda de cerca de 250 mil km2 de floresta amazônica, uma área equivalente à do estado de São Paulo! Em apenas 14 anos (1990-2003). Repito, em apenas 14 anos…

Enquanto isso, os exterminadores do futuro e seus representantes civis e militares têm o cinismo de afirmar que têm muito a ensinar ao mundo em matéria de florestas… Têm de fato: nenhuma sociedade em toda a história da humanidade conseguiu destruir tanto do patrimônio natural de seu povo em tão pouco tempo, para o enriquecimento de tão poucos. Nunca tão poucos infligiram tantas perdas à biodiversidade, tanto sofrimento a tantos e roubaram o futuro de todos, inclusive deles mesmos. É preciso repisar ad nauseam o que todos sabem: no espaço de apenas duas gerações (1969-2019), o agronegócio destruiu completamente, por corte raso, 800 mil km2 da floresta amazônica (20% de sua área original) e mais de 1 milhão de km2 de Cerrado. Esses dois biomas imensos, milagres únicos de deslumbramento e de biodiversidade, e com os quais os homens conviveram de modo produtivo e não destrutivo durante todo o Holoceno (11.700 anos AP – 1950), estão sendo sistematicamente destruídos, sobretudo pela pecuária.

Carne ou esperança

Nenhuma questão hoje é tão importante para o Brasil, para cada um de nós, quanto esta: há ainda esperança de reverter a trajetória atual de destruição da Amazônia e do Cerrado? A mesma pergunta pode ser formulada com outras palavras: há ainda esperança de evitar a ruína final de nossas sociedades, causada pelas consequências dessa destruição: temperaturas mais altas, epidemias, secas, inundações, elevação do nível do mar, quebras de safra crescentes e cada vez maior insegurança alimentar e hídrica? A resposta categórica é NÃO, se não assumirmos, entre outros compromissos políticos, a responsabilidade de reduzir drasticamente ou mesmo abandonar o consumo de carne.

Essa responsabilidade deve ser assumida por nós. Não cabe culpar apenas o mercado internacional pela destruição da manta florestal brasileira, como se fôssemos tão somente espectadores e vítimas indefesas da tragédia. Sim, sem dúvida, o problema é sistêmico e global. E, como tal, requer uma mutação de paradigma civilizacional, não vislumbrável nos limites dos Estados-Nação e, de modo geral, nos marcos do capitalismo em sua fase final de extrema globalização. Sim, sem dúvida também, o crescente consumo de combustíveis fósseis e a conversão da agricultura tropical em máquina excretora de soft commodities para o mercado externo (carne e soja, sobretudo para ração animal: porcos, frangos e peixes) são os dois motores principais do colapso em curso das florestas.

Mas no que se refere à Amazônia e ao Cerrado, nós, brasileiros somos os verdadeiros responsáveis por essa destruição, pois a carne produzida em detrimento desses biomas é preponderantemente consumida por nós. Uma precisão: “nós”, aqui, refere-se à pequena parcela de 10% de brasileiros, que concentramos em nossos bolsos 43,4% da renda nacional, [VII] e temos, portanto, os meios para comer carne frequentemente. Nada é mais incoerente que ambientalistas da classe média, comendo carne entre juras de amor aos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e, em particular, às florestas brasileiras. Como afirma a nutricionista Alessandra Luglio, coordenadora do Departamento de Medicina e Nutrição da Sociedade Vegetariana Brasileira: “O seu bife é o principal devastador da floresta, principalmente pelo fato de que se precisa abrir campos para o gado e plantar alimentos como soja e milho para a pecuária, não só o gado, mas também para o frango, o porco e o peixe, animais de consumo que são criados de uma forma intensiva. Além disso, a produção de carne produz gases de efeito estufa, que estão gerando secas e mudanças climáticas, alteradoras do ecossistema”. [VIII]

O esforço internacional

O Brasil, país profundamente conservador e imobilista, sempre evoluiu “de fora para dentro”, isto é, por pressão internacional, e o presente caso não é exceção. Em maio de 2017, o Cardeal Cláudio Hummes, Presidente da Repam, Rede Eclesial Pan-amazônica, ressaltou a importância da floresta Amazônica e “a ameaça que ela está sofrendo de destruição, de degradação, de desmatamento, etc.” [IX]. O papa Francisco convocou para outubro de 2019 uma Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a região Pan-amazônica (nove países), cujo título será “Amazônia: Novos Caminhos para a Igreja e por uma Ecologia Integral”. Há poucos dias, declarou que o que predomina na região é “uma mentalidade cega e destruidora que privilegia o lucro sobre a justiça” e que a destruição da Amazônia terá impactos planetários. De seu lado, os cientistas estão se mobilizando. Em 26 de abril de 2019, 602 cientistas europeus, ao lado de dois coletivos indígenas, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), publicaram na revista Science um artigo-manifesto, intitulado “Tornar sustentável o comércio da União Europeia com o Brasil”.

Por: Luiz Marques é professor livre-docente do Departamento de História do IFCH /Unicamp. Pela editora da Unicamp, publicou Giorgio Vasari, Vida de Michelangelo (1568), 2011 e Capitalismo e Colapso ambiental, 2015, 3a edição, 2018. Coordena a coleção Palavra da Arte, dedicada às fontes da historiografia artística, e participa com outros colegas do coletivo Crisálida, Crises SocioAmbientais Labor Interdisciplinar Debate & Atualização (crisalida.eco.br).
Fonte:
Jornal Unicamp

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