Fogo na Amazônia: Ler Antes de Falar

Fumaça na mata na região de Humaitá (AM). Foto: REUTERS/UESLEI MARCELINO

Impressionante a ignorância a respeito do tema fogo na Amazônia! Vamos listar dez conceitos básicos para qualquer um se informar antes de delirar?

Premissa: precisa explicar aos mais jovens que aprendi algo ao gerenciar o maior projeto de mobilização da sociedade local da Amazônia sobre fogo (e único, até hoje), entre 1998 e 2004, nos estados de Pará, Mato Grosso e Acre. Se chamava Fogo: Emergência Crônica, foi coordenado por Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, com participação de dezenas de municípios, ONGs etc., e acabamos ganhando com isso o prêmio Ford em 2000. Alguma coisa ali aprendemos.

1. Ainda se confundem queimadas com incêndios florestais. E nas queimadas, se confundem queimadas de pasto com queimadas de derrubada. São três coisas completamente diferentes!

2. A prática das queimadas de pasto é simplesmente um sistema de preparo para renovar o capim em solos pobres ou degradados, sem investimento. É uma forma primitiva, pouco produtiva e danosa. Mas é o que está ao alcance da maioria dos pequenos produtores. A terceirização da cria e recria de bovinos para posseiros pobres e o funcionamento do PRONAF representam as principais causas da proliferação desse tipo de queimada. Há grandes proprietários que ainda usam esse método, mas em geral eles sabem que não é interessante.

3. As queimadas de derrubada são uma consequência do desmatamento que já ocorreu nos meses de abril-junho. Elas servem para limpar o que sobra, sendo que seria caro destocar e usar máquinas. Nesse ano tivemos bastante desmatamento e portanto temos maior incidência de queimadas de derrubada.

4. Os incêndios florestais, no caso da Amazônia, podem ocorrer em dois casos: ou em anos de seca extraordinária, ou em florestas já degradadas pela atividade madeireira. Em condições normais, o fogo não se alastra em florestas sadias na Amazônia. Ao contrário do que se diz, esse ano não houve seca extraordinária, muito pelo contrário, choveu mais do que a média e até mais tarde. Portanto o fogo só entra em florestas nas quais a extração predatória de madeira abriu caminhos (florestas com copa, mas pouco volume abaixo delas).

5. Incêndios florestais podem ocorrer intencionalmente (sempre e só nas condições explicadas no ponto anterior) ou acidentalmente quando uma queimada realizada sem aceiro de proteção e com vento favorável atinge a borda de uma floresta degradada ou uma floresta em ano de seca.

6. O transporte de fumaça e partículas resultantes de queimadas a grandes distâncias não é fato novo ou isolado, ocorre com frequência. No caso das massas de ar que chegaram ao sudeste nos últimos dias, não faz sentido distinguir quanto disso vem da “Amazônia” ou de outros biomas como o Cerrado e o Chaco. Em todos eles há práticas de queimada e todos eles originam fumaça que foi objeto de transporte, como evidenciado pelas imagens geradas por sistemas de monitoramento variados. Também não faz sentido se referir a Amazônia versus Bolívia, pois a bacia do Guaporé (onde há muita queimada nesses dias) é em toda sua parte oeste boliviana, e parte da Amazônia.

7. Aviões podem ser usados para combate a incêndios muito circunscritos e pontuais, mas não representam uma forma de controle do fogo difuso, na Amazônia, ou muito menos de combate a queimadas.

8. O fogo só se reduz com investimento em sistemas de manejo de pastagem, crédito inteligente e direcionado, implantação de atividades agroflorestais, implementação e fiscalização das normas do código florestal, prevenção da “garimpagem” madeireira nas florestas, mobilização da comunidade local inclusive nas áreas urbanas. Não se reduz de forma póstuma: nem “rezando” pela Amazônia, nem com “operações” cinematográficas.

9. Como acontece com certas doenças, o fogo (e a fumaça) representam emergências crônicas, no sentido de que na hora do pico levam a emergências de segurança, tráfego aéreo, saúde, meio ambiente, etc., mas ao mesmo tempo refletem uma crônica incapacidade de promover desenvolvimento com características próprias da região.

10. Antes de falar e escrever asneiras a respeito do tema, é mais recomendável conversar com as pessoas no “arco do fogo” que convivem com isso anualmente e podem muito bem explicar como funciona.

Por: Roberto Smeraldi é jornalista e gastronômo. Foi diretor da Amigos da Terra – Amazônia Brasileira por mais de 25 anos e hoje é vice-presidente do instituto Atá. Autor de O novo manual de negócios sustentáveis (2009)

Deixe um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.