“O discurso do governo hoje é acabar com a população indígena”. Entrevista com Rosimere Teles, da União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira

Os povos indígenas são provavelmente o coletivo que mais tem enfrentado de forma mais clara e direta as políticas do atual governo brasileiro. Em diferentes níveis os povos originários estão dando passos que os levem a garantir os direitos recolhidos na Constituição de 1988, principalmente o território. Nesse contexto, vai acontecer em Brasília de 9 a 13 de agosto, a 1ª Marcha das Mulheres Indígenas, que espera reunir umas duas mil mulheres indígena de todo o Brasil, em volta da temática, “Território: nosso corpo, nosso espírito”.

Uma das participantes dessa marcha será Rosimere Maria Vieira Teles, que faz parte da coordenação da Rede das Mulheres Indígenas do Estado do Amazonas – Makira-Êta, e da União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira – UMIAB. Ela afirma que “o discurso do governo hoje é acabar com a população indígena”, algo que se sustenta nos constantes ataques de um governo ao serviço do capitalismo que mata.

Ela destaca a importância de cuidar da Mãe Natureza e, a menos de dois meses do Sínodo para a Amazônia, destaca a importância do processo de escuta, que a Igreja tenha ouvido os povos indígenas. A líder indígena enfatiza que “a Igreja precisa também colocar nas suas discussões a importância da floresta, do meio ambiente, das mudanças climáticas”, destacando a importância disso ser trabalhado nas igrejas. Tudo isso tendo como base o fato de que “o grande bem comum que Deus nos deixou é a vida, e a vida depende do que a gente cuida”.

Eis a entrevista.

Qual é a motivação da 1ª Marcha das Mulheres Indígenas?

Nós estamos pensando nessa Marcha das Mulheres Indígenas desde há dois anos atrás, quando a gente começou a perceber e sentir a mudança das ações políticas no contexto nacional, quando se discutia nas campanhas políticas, nas candidaturas, a gente percebeu isso muito claro. Isso nos levou a pensar que nós, mulheres indígenas, apesar de participar das grandes mobilizações anuais, junto com o ATL (Acampamento Terra Livre), que também nós pudéssemos estar levantando a bandeira da luta dos povos indígenas, e em específico das mulheres indígenas.

Ilustração @crisvector / @designativista

Todos os direitos que estão sendo atingidos por essa política atual do Brasil, ela afeta diretamente a nossas famílias. Quem está na família sentindo as coisas acontecer, somos nós mulheres. Tudo isso nos trouxe a pensar que estaríamos levantando essa bandeira com o nome de Marcha das Mulheres Indígenas, a gente tem muita coisa a discutir. No ATL deste ano, na plenária das mulheres indígenas, a gente escolheu a temática, “Território: nosso corpo, nosso espírito”. Aproveitando a oportunidade do Dia Internacional dos Povos Indígenas, que acontece todo ano, 9 de agosto, e juntando com a Marcha das Margaridas, nós queremos fortalecer a luta das mulheres indígenas junto com as mulheres do Brasil, de todos os movimentos sociais que gritam pela justiça.

Como se sentem as mulheres indígenas diante das políticas do atual governo em relação aos povos indígenas?

Eu tenho poucas palavras para resumir, nós estamos sendo engolidos pelo governo, tudo o que a gente alcançou, tudo o que a gente idealizou a partir da Constituição de 88, onde a própria Constituição nos garante nossos direitos dentro dos nossos territórios. O discurso do governo hoje é acabar com a população indígena. Quando nega o território, quando não se importa com a exploração mineral ou de riquezas naturais, água, dentro dos territórios indígenas, sem nenhuma preocupação de pensar primeiro em como as políticas vão ser desenvolvidas, em ouvir as populações indígenas.

Não adianta chegar nas capitais, nas sedes dos municípios, entrevista a um, e esse um faz mídia dizendo que quer mineração, que quer garimpo, que quer trabalhar com extração de madeira, com outros recursos naturais que temos. Isso nos demostra que o governo está induzindo o Congresso Nacional e alguns políticos favoráveis. Nós, mulheres indígenas, estamos percebendo que o Brasil está sendo guiado de uma forma pensando na parte econômica, sem se preocupar com a questão social e as diferentes culturas dos povos indígenas. Porque os povos indígenas vem sofrendo essa exploração do próprio governo, esse abuso de poder dos governos ao longo dos 519 anos, desde a chegada dos colonizadores.

Rosimere Teles (Foto: Facebook)

Nós estamos acompanhando a mídia, ele falando claramente o que ele prometeu na campanha e o que ele está fazendo. E isso nos preocupa muito, o Brasil vai acabar com os povos indígenas em poucos messes, e já está acabando, usando os próprios índios para facilitar o trabalho dele, e isso é o pior. A gente não aceita o próprio governo massacrar o povo brasileiro, as pessoas carentes, as pessoas humildes, e preferentemente os povos indígenas. Hoje a gente entende um pouco de lei, temos nossos parentes que entendem dessa parte jurídica, nós estamos na luta há décadas, vimos nossos direitos sendo garantidos na Constituição de 88, estamos vendo aqui esses mesmos direitos sendo derrotados, sendo desvalorizados por esse governo que está no poder, que se o povo brasileiro deixar, vai passar os quatro anos acabando com a vida de todo mundo.

A gente vê que a luta dos povos indígenas é uma das lutas mais organizadas, fortes e constantes contra o governo. De fato, essa luta está dando pequenos frutos, como as conquistas alcançadas pelos povos indígenas durante o ATL sobre a saúde ou a não transferência da demarcação dos territórios indígenas para o Ministério de Agricultura, após a resolução do Supremo Tribunal Federal. O que significam essas lutas, essas pequenas vitórias para os povos indígenas?

Como nossa bandeira de luta desde o ano passado, nós colocamos em nossas pautas de discussão, seja em nível local, seja em nível estadual, regional ou nacional, que nós não cansaremos em defender a importância dos territórios para nós povos indígenas, porque enquanto o governo só se preocupa em extrair riquezas de uma forma irresponsável, nós, povos indígenas, a gente convive há décadas, há milênios, em harmonia. Nós dependemos da água, da terra, do solo, da matéria prima, da fauna, da flora, das riquezas naturais. Hoje é necessário, a gente quer participar das políticas públicas de uma forma organizada. Quando o governo pensa em extrair um minério nas terras indígenas, de que forma vai ser investido na educação na minha comunidade, de que forma a saúde vai chegar? O que é saúde, é formação do agente de saúde ou são os nossos filhos indo estudar em faculdades de medicina para a gente ter médico?

A gente não quer dinheiro para luxar, a gente não quer pensar só para hoje, porque se nós pensássemos para cobrir as necessidades de hoje, todos nós do movimento indígena, a gente estaria gritando que na nossa região todos queremos mineração. Porque eu estou sem dinheiro, minha família não tem nada, eu também quero cinquenta mil reais na minha conta. É assim que a gente vai trabalhar? O movimento indígena não pensa assim, o movimento indígena quer bem estar coletivo, a nossa luta do movimento indígena, nossa fala de mulheres indígenas, a minha visão de mulher indígena. Enquanto estou na frente para defender os direitos da população indígena, principalmente das mulheres, a nossa fala é assim, mãe não se vende, mãe se cuida, a Mãe Natureza está no território.

Rosimere Teles (Foto: Facebook)

Tudo o que tem no território nos pertence, e esse nosso pertencer, a gente cuida. Mas quem ganha com isso? É a sociedade. Pelo fato de nós estar cuidando da floresta, não destruindo tudo, hoje ainda cai chuva para molhar minha plantação, hoje ainda nós bebemos água. Se a gente for tirar todas as nossas riquezas naturais e minerais, quanto tempo nós vamos beber a água, quanto tempo nós vamos respirar? Podemos ficar ricos, mas sem saúde, com coisa que não presta. Essa é nossa bandeira de luta, vai nascer ainda um governo que vai pensar do jeito que eu estou falando, que vai investir na população. Do jeito que hoje estão as coisas, não tem como índio aceitar. O índio que está pegando o microfone, apoiando o projeto do governo hoje, é porque é pior do que o presidente.

A senhora já falou sobre o tema da Marcha das Mulheres Indígenas. O que significa o território para os povos indígenas?

É o que acabei de falar, porque ao longo da nossa existência, para nós não tem limite. No território a gente tem água, matéria prima para nossa vida do dia-a-dia, nossa madeira para construção das casas, tudo depende da existência de um território. São espaços onde cada povo anda, nós como indígenas entendemos até onde vai o limite da minha casa, da minha pescaria, daqui para lá já é de outro povo, a gente respeita. Se a gente vai entrar no território de outro povo, a gente pede o consentimento, é assim que foi e assim que é. Para nós o território é muito importante, faz parte da nossa vida. Por que é o nosso corpo? Por ele fazer parte da nossa vida, sem o território a gente não existe. A gente vê o território como nosso espírito porque nós, povos indígenas, acreditamos que todo ser tem vida, o lago, o rio, as árvores, existem porque têm vida.

Toda a natureza, ela tem vida, a gente acredita na existência dos encantados, que nossos olhos não vê atualmente, mas na história passada, nossos antepassados, eles viam. As árvores, os animais, falavam, tudo isso a gente acredita, plantas medicinais que a natureza nos oferece. Ela é nosso espírito, ela nos ilumina, tudo o que a gente acredita, ela se transforma para nós, aquilo que a gente valoriza e que ela vai dar a força da nossa identidade. Eu, hoje, mulher indígena, não sei quase de nada, mas meu pai sabe, minha mãe sabe, o que eles sabem, eles me repassam. Assim a gente vai aprendendo, vivendo, acreditando, fazendo nossa história e garantindo a nossa identidade. Para nós é importante isso, tem um significado.

Por isso as mulheres, principalmente nesses dias em que teve a retomada de uns territórios indígenas, as crianças chorando, quem está sofrendo, por conta de quem estão sofrendo? Por conta de um pedaço de chão, que os antepassados moravam aí. Quem acaba sofrendo são as crianças, as mulheres, isso é muito triste. Diante de tudo isso que nós abraçamos, o território representa nosso corpo, representa nosso espírito. Sem ele a gente não vive, a gente vai parar de respirar, a gente não quer respirar o ar poluído, a gente quer respirar um ar saudável, quer viver. A gente não quer acabar que nem o peixe dentro d’água envenenada, a gente não quer passar por isso.

Como se vivencia hoje essa dimensão espiritual entre os povos indígenas?

Eu tenho percebido que essa questão, ela está muito forte. Povos indígenas que uns anos atrás estavam um pouco mais afastados dessa parte espiritual, dessas crenças, eles estão retomando, e isso é muito importante para nós. Os jovens hoje, eles estão também estão tendo interesse, dentro das suas comunidades, de sentar e ouvir. A gente está perdendo muitos anciões sem repassar aos mais novos e a geração não dá continuidade por conta disso. Então os jovens estão buscando os anciões, as mulheres estão buscando as parteiras, conhecedoras de plantas medicinais.

Tudo isso é muito para nós que estamos à frente do movimento indígena, porque isso nos motiva mais para a gente continuar nessa caminhada. Eu como mulher indígena, eu deixo tudo, meus afazeres, eu sou artesã, eu trabalho na roça. Hoje eu moro em Manaus, mas isso eu faço, para poder ter dinheiro no final do mês, eu faço minha farinha e vendo, eu faço meu artesanato e vendo, no dia que eu não fizer, eu não vou ter nada. Quando eu vejo que os jovens estão animados, as meninas, as crianças estão participando, isso me motiva, mesmo eu não tendo remuneração.

Rosimere Teles (Foto: Facebook)

Isso me motiva a continuar, eu tenho família lá no interior, lá nas comunidades indígenas, meus irmãos, meus sobrinhos, meus pais, que estão lá e precisam dessa luta, eles estão bem hoje porque alguém que eles nem conhecem, quem está na COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira), quem está na APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), quem está na FOIRN (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), quem está em outras organizações, sejam organizações de mulheres, sejam organizações gerais, lutando junto com seus parceiros, junto com seus aliados. Isso é que motiva, eu estar trabalhando no movimento indígena até hoje. Isso é importante, a valorização dos povos indígenas, dos jovens, das mulheres, a questão da espiritualidade, isso é muito importante. Os jovens estão aprendendo a ouvir mais os anciões, a respeitar mais os anciões, a gente está trabalhando essa parte, a importância de retomar a liderança dentro de suas comunidades.

Eles não sabem muito com as questões indígenas que a gente discute fora das aldeias, mas dentro das aldeias, eles dominam essa parte da espiritualidade, do conhecimento tradicional, de organização interna da sua aldeia, da sua comunidade, e isso é uma troca muito grande, isso é muito importante para nós.

Alguém que está se preocupando com os povos indígenas é o Papa Francisco, que tem convocado o Sínodo para a Amazônia, insistindo em prestar em especial atenção aos povos indígenas. Para vocês como indígenas, o que significa a figura do Papa Francisco?

Aos nove anos eu tive essa experiência de estudar em colégio interno, das freiras. A minha vida de infância e adolescência eu passei no internato. Eu aprendi muita coisa boa, além de aprender as coisas da Igreja, eu tive a educação formal, que na época estava na responsabilidade dos salesianos, lá na minha região. Então, eu sou católica, e posso dizer que o Sínodo, que é puxado através da Igreja e suas parcerias, eu tive essa oportunidade de participar aqui em Manaus. Eu sinto que a Igreja, ela precisa falar não só da parte da espiritualidade referente à Igreja. Dentro da Bíblia, tem uma passagem que diz assim, nem todo aquele que diz, Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, as pessoas tem que praticar as ações boas.

A Igreja tem perguntado, além das questões da Igreja, o que ela precisa fazer mais, aí eu respondi, a Igreja precisa também colocar nas suas discussões a importância da floresta, do meio ambiente, das mudanças climáticas. Isso é importante, porque o que nos afeta diretamente no nosso dia é essa falta de informação que a sociedade não tem. O público alvo está nas Igrejas, para ouvir, porque tudo o que alguém diz dentro da Igreja, a maioria está atento para ouvir. É uma aula, é importante trabalhar isso nas igrejas, porque quem sofre com isso somos todos nós, aí não tem igreja. Todo mundo vai morrer, e o que nos leva para a morte precoce? Água, o ar que a gente respira, alimentação, tudo envenenado. Tudo isso faz parte da educação, que não é dada nas escolas, a Igreja precisa pautar essas temáticas para seu público.

A Igreja não está errada quando ela vem nos consultar para ver o que nós podemos fazer para poder melhorar, para a sociedade viver melhor. Eu acho que cada um, contribuindo um pouquinho de cada coisa, a gente vai fazer com que as coisas melhorem. A gente não pensa só na questão financeira, não pensa só na questão da Igreja, a gente precisa de nos assumir essa responsabilidade para o bem comum, pois o grande bem comum que Deus nos deixou é a vida, e a vida depende do que a gente cuida. Se a gente cuidar da nossa floresta, a gente vai viver bem, vamos tomar uma água boa, nós vamos ter cabeceiras de rios limpos, a gente vai ter chuva para molhar nossas plantas e depois ter frutos, vamos ter peixes saudáveis dentro d’água, nós vamos ter matéria prima, uma economia mais sustentável.

Por: Luis Miguel Modino.
Fonte:
IHU On-Line

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