Liberação de armas em propriedades rurais vai agravar conflitos no campo, alerta professor

Wagner Romão (Unicamp) também diz que novo procurador geral da República não deverá “incomodar” a família Bolsonaro e crítica benesses concedidas a militares

Em nome do direito de defesa da propriedade, ruralistas querem resolver disputas no tiro

A sanção da lei que amplia a posse de armas em propriedades rurais pelo presidente Jair Bolsonaro nesta terça-feira (17) deve colaborar para o aumento da violência no campo, segundo o professor do Departamento de Ciência Política da Universidade de Campinas (Unicamp) Wagner Romão. Segundo ele, trata-se de uma medida que atende aos interesses da bancada ruralista, no Congresso Nacional, e também ao campo conservador que apoia o governo.

Antes, o indivíduo só podia manter a posse da arma nos limites da sede da fazenda. Com a nova lei, poderá manter o porte em todo o perímetro da propriedade. Bolsonaro defendeu a sanção da proposta em nome do “direito sagrado” da defesa da propriedade privada, e prometeu não impor barreiras para o acesso às armas para o “cidadão de bem”.

Segundo Romão, mais do que as mudanças na lei, esse tipo de medida legitima o discurso, defendido também pelo próprio presidente, de que conflitos no campo devem ser resolvidos “à bala”, sem a intermediação da Justiça ou de outros órgãos de estado. “É mais um indicativo de que a gente está vivendo num momento de alteração das leis, que na verdade reforçam uma situação já existente”, afirmou em entrevista aos jornalistas Marilu Cabañas e Glauco Faria, para o Jornal Brasil Atual, nesta quarta-feira (18).

PGR

Sobre a nomeação de Augusto Aras como o novo procurador-geral da República, o cientista político diz esperar uma atuação “subserviente” ao governo Bolsonaro. Segundo ele, a Lava Jato provavelmente deve continuar, desde que não atinja os “apaniguados” do governo, nem a família do presidente. Ele também aposta que Aras deve fazer “vista grossa” aos abusos cometidos pelos procuradores de Curitiba.

Aras havia dito que pretendia nomear a procuradora Thaméa Danelon para comandar os trabalhos da Lava Jato em Brasília. Ela foi flagrada, em diálogos divulgados pela Vaza Jato, tramando junto com o procurador Deltan Dallagnol e o advogado Modesto Carvalhosa uma ação para pedir o impeachment do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. “Vamos ter saudades da Raquel Dodge”, ironizou Romão, em menção à procuradora-geral que deixou o cargo nesta terça-feira (17).

Militares

Ele também criticou a destinação de R$ 4,7 bilhões do Orçamento para a criação de vantagens para os militares. A medida compensa perdas decorrentes do aumento no tempo de serviço e de contribuição previsto na proposta de reforma das pensões dos militares, em tramitação no Congresso Nacional.

Segundo Romão, a ação demonstra o poder de alguns segmentos em manter os seus benefícios, ao mesmo tempo em que outros setores da sociedade são prejudicados. “Outras categorias têm tido muita dificuldade em manter os seus vencimentos, uma aposentadoria digna, de manter inclusive o seu direito à pesquisa, como no caso dos graduandos que estão afetados pelos cortes de bolsas.”

Fonte: Rede Brasil Atual

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