Indígenas do Rio Negro lançam a marca coletiva Wariró

Dona Maria de Lima (Baniwa) da comunidade São Joaquim confecciona uma peça de cerâmica|Natalia Pimenta-ISA

Encontro Arte Wariró, realizado em São Gabriel da Cachoeira (AM), valoriza a cadeia produtiva do artesanato, fruto da cultura dos 23 povos indígenas do Rio Negro

Entre os dias 2 e 5 de outubro, artesãos e artesãs indígenas de comunidades da bacia do Rio Negro participaram do I Encontro Arte Wariró, em São Gabriel da Cachoeira (AM).

Ao final das discussões, foram realizadas a pactuação e assinatura do Termo de Acordo de Cogestão da Casa Wariró. O espaço, em São Gabriel da Cachoeira (AM), além de continuar funcionando como uma loja do artesanato indígena, passa a ser uma casa de referência do artesão indígena e centro de difusão de conhecimento e tradição.

Para impulsionar a iniciativa foi lançada a marca coletiva Wariró, com nova identidade visual que busca fortalecer a cadeia produtiva do artesanato. A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e do Instituto Socioambiental (ISA), através do projeto Territórios da Diversidade Socioambiental, com apoio da União Europeia, coordenaram o encontro.

Foram quatro dias de trabalho para definir parâmetros de qualidade e precificação. O desafio foi grande, já que a região tem uma rica diversidade de artesanato, produzido por 23 etnias indígenas.

As reuniões aconteceram na Casa do Saber da FOIRN, onde ficaram expostas verdadeiras obras de arte, como a cerâmica negra dos Tukano, cerâmica branca dos Baniwa, colares, bolsas, brincos, braceletes, cestarias, entre outros. Entre as etnias presentes estavam Tukano, Yanomami, Baré, Baniwa, Dãw, Hupda, Koripaco, Dessano, Tariano, Wanano, Arapasso, Kubeu, Piratapuya, Tuyuka, Kotiria.

O presidente da FOIRN, Marivelton Baré, afirmou que a reunião de artesãos de diversas regionais, organizados em associações ou mesmo com participação individual, permitiu diálogo para a formatação do plano de gestão de negócios, com discussões sobre produção, escoamento e precificação dos produtos.

“A retomada da casa de produtores indígenas Wariró, principal entreposto comercial desses produtos, se dá em momento estratégico para a gente. Com valor agregado, esses produtos dão à Wariró uma condição autônoma de gerir e desenvolver seus negócios, fortalecendo a sustentabilidade e economia indígena na região do Rio Negro”, disse.

Para Aloisio Cabalzar, coordenador adjunto do Programa Rio Negro do ISA, o Encontro Arte Wariró põe foco no artesanato do Rio Negro, principalmente as cerâmicas, cestaria, biojoias e madeira, identificados como os que têm maior aceitação no mercado.

“Esse encontro retoma alguns pontos que precisam ser bem costurados para que a produção do artesanato gere renda e seja alternativa a atividades predatórias, menos sustentáveis social e ambientalmente”, comentou.

O Encontro Arte Wariró de 2019 marca a retomada da reunião de artesãos que não ocorria há cinco anos. Em sua abertura, uma performance foi realizada pelas indígenas Rose (Piratapuya), Auxiliadora (Dãw) e Adelina (Dessana). Em meio ao fogo, símbolo de proteção, Rose declarou sua poesia em homenagem ao cacique Raoni. Também participou da apresentação o filho pequeno de Adelina. As mulheres presentes entoaram um canto Yanomami que representa a movimentação pelo grande encontro que estava começando.

Desafios A representante da Casa Wariró, Ilma Fernandes, da etnia Piratapuya, apontou que, entre as principais dificuldades enfrentadas estão os custos logísticos, já que há longas distâncias a serem percorridas para que os produtos cheguem aos consumidores, assim como a inexperiência das comunidades com questões demandadas pelo mundo dos negócios, o que dificulta a definição de preços.

Grupo de artesãs apresenta resultado de trabalhos sobre qualidade de precificação de cestarias|Natalia Pimenta-ISA

A analista do ISA, Natalia Pimenta, ressalta a importância do encontro de artesãos para essa construção. “Este encontro é uma oportunidade para que os artesãos e artesãs avaliem o resultado de cerca de dois anos de trabalho para a construção da marca coletiva Wariró e construam conjuntamente os termos para o acordo de cogestão da Casa de referência dos produtores indígenas do Rio Negro. Se esta é a casa deles, cabe a eles indicarem suas regras de funcionamento”, afirma.

O objetivo é que os produtores se estruturem melhor e tenham parâmetros de preço e qualidade para ganhar mercado e negociar seus produtos. Durante as reuniões foram repassadas aos artesãos informações sobre a gestão da Casa Wariró, como custos para manter a loja – com gastos com energia, água, computador, internet, salário, entre outros -, necessidade de capital de giro e até o processo de retirada de nota fiscal. Com isso, os artesãos e artesãs começam a ter contato com os processos do comércio.

Mão na massa

No encontro foi dado o primeiro passo prático nesse sentido. Os artesãos foram divididos em grupos, por tipo de artesanato: tucum, cestaria, cerâmica, biojoias e madeira/banco Tukano. A partir daí foram definidos custos da produção de algumas peças, levando-se em conta tamanho, matéria-prima, entre outras variáveis.

Durante toda a tarde, eles usaram réguas, fitas métricas e relataram seus modos de produção e dificuldades para se obter a matéria-prima. Algumas vezes, os artesãos precisam enfrentar longas caminhadas na floresta para obter materiais como argila, cipó e folhas de palmeira.

Vice-presidente da Organização Indígena da Bacia do Içana (OIBI), André Baniwa foi o facilitador do I Encontro Arte Wariró e trouxe para a reunião sua experiência de gestão. O projeto da Pimenta Baniwa é um dos exemplos de sucesso de como valorizar os produtos da floresta. A pimenta, disponível em diversos pontos de vendas no Brasil, vem sendo exportada também para os Estados Unidos e valorizada como um produto com alto valor agregado, utilizada por importantes chefs de cozinha, como Bela Gil e Alex Atala.

Segundo ele, o objetivo do encontro é buscar articulação dos povos indígenas para que o artesanato produzido por eles ganhe projeção. Ele explica que, a partir da organização pode-se atingir maior produção, levando a parcerias comerciais e geração de renda.

André Baniwa ressalta também que é necessário melhorar o entendimento dos indígenas sobre o funcionamento do mercado. E reforça com os artesãos e artesãs o valor que a história que toda peça indígena carrega.

“O encontro serviu também para eles refletirem sobre a importância do produto, que muitas vezes foi esquecida. Com a retomada das histórias, buscamos a conscientização e educação dos artistas”, diz. André Baniwa informa que, atualmente, o artesanato já é uma das mais importantes fontes de renda dos povos indígenas da região, junto do comércio da farinha de mandioca.

Outro ganho importante do fortalecimento da cadeia do artesanato é gerar renda para mulheres, pois a atividade tradicional é exercida principalmente por elas. “A geração de renda pelo artesanato dá autonomia à mulher. Muitas vezes o marido diz que ele caça, pesca e a mulher depende dele. Com o artesanato, a mulher ganha a sua independência. Buscamos concretizar a autonomia e o bem viver das mulheres indígenas”, diz a coordenadora do Departamento de Mulheres da FOIRN, Elisângela da Silva Costa da etnia Baré.

Identidade visual A marca coletiva Wariró ganhou uma nova identidade visual, desenvolvida pelo designer gráfico Orlando Cappi e pela jornalista Elisabete Santana. A imagem estará nas etiquetas e embalagens de todos os produtos negociados pela Casa. Antes de desenvolver o trabalho, os dois consultores passaram 15 dias conhecendo comunidades da região, garantindo que a história e tradição dos povos estivessem representadas. Houve a possibilidade de trocar o nome do centro de comercialização, mas definiu-se o nome Wariró, já bastante conhecido e que faz referência ao cartão postal da cidade, a Serra da Bela Adormecida.

Nova logomarca da Wariró, lançada durante o encontro

“A Wariró atua com o cenário ideal desejado por qualquer grande marca do mercado. Os indígenas trabalham com produtos naturais, orgânicos, vindos de uma das regiões mais preservadas da Terra. Os produtos são feitos pelos povos originários, com técnicas milenares”, ressalta. “É tudo o que a sociedade não indígena busca”, diz Cappi.

Segundo ele, grandes marcas trabalham para agregar a seus produtos valores de saúde e respeito ao ambiente, características naturalmente presentes nos produtos Wariró, o que dá credibilidade à marca, facilitando a inserção no mercado.

Iniciativas de sucesso Durante o encontro foram apresentadas experiências de gestão de negócios de produtos da floresta, com exposição de Arthur Coimbra, do chocolate Na’kau; Sérgio Marques, do ISA/Mercado de Pinheiros – Box Amazônia e Mata Altântica; e Amanda Latosinski, ISA – Associação Yanomami Hutukara.

Atualmente, o comércio das peças produzidas pelos artesãos e artesãs do Rio Negro se dá principalmente por meio da FOIRN e OIBI, em parceria com o ISA, que vem facilitando algumas etapas do transporte dos produtos até pontos de revenda em mercados de alto valor agregado. Na capital paulista, por exemplo, os produtos do Rio Negro podem ser encontrados no Mercado de Pinheiros – Box da Amazônia. Em Manaus, parte desta variedade de produtos é encontrada na GaleriAmazônica.

Participantes do I Encontro Arte Wariró|Ray Baniwa-FOIRN

“O artesanato indígena existe desde sempre. A venda das peças também é antiga. O que buscamos agora é uma forma mais justa de inserção do mundo indígena ao mundo não indígena dos negócios “, explica Amanda Latosinski, que compartilhou sua experiência com os Yanomami.

Fonte: ISA

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