Mulheres do Xingu se unem contra ameaças do governo Bolsonaro

“A gente não pensa em vender madeira e nem vender uma parte da terra para conseguir dinheiro. Temos tanta coisa para conseguir apoio que não precisamos destruir nada.” A declaração é da indígena Anna Terra Yawalapiti durante a fala de abertura do primeiro grande encontro do movimento de mulheres do Território Indígena do Xingu, em Mato Grosso, que reuniu 16 etnias em maio deste ano.

Sentindo-se ameaçadas pela política indigenista do governo Jair Bolsonaro e cansadas de ver seu papel na aldeia restrito a tarefas domésticas, elas decidiram não mais postergar seus direitos de ocuparem espaços de poder junto aos homens. Com o discurso unificado de que desejam andar lado a lado com seus parceiros e parentes, “e não na frente e nem atrás”, o objetivo é de se tornar porta-voz de seus próprios anseios.

“São vários pensamentos diferentes, de cada mulher, de cada liderança”, disse Anna Terra na ocasião. “Tem mulheres que são do movimento e que lutam pela preservação da cultura, tem mulher que luta pelo seu alimento tradicional, tem mulher que luta pela voz, tem mulher que luta pela política fora do nosso território. Nós unimos tudo isso e fizemos uma coisa só. A nossa fala é uma direção só. Não passando por cima deles [os homens], mas eles também nos respeitando.”.

Durante quatro dias, essas mulheres de diferentes etnias, costumes e línguas discutiram sobre as dificuldades de viver em uma sociedade que privilegia o homem nas tomadas de decisões e sobre como derrubar tais barreiras. Não saíram de lá com todas as respostas, mas com a certeza de que é preciso tentar. Não será tarefa fácil, garantiu a maioria, mas o momento imposto pelo desmonte da Funai (Fundação Nacional do Índio), a legalização da mineração e do garimpo em Terras Indígenas, a não demarcação de novas terras e a ocupação da Amazônia propostas pelo atual governo, segundo elas, exige iniciativas urgentes.

O encontro aconteceu na aldeia Ilha Grande, no médio Xingu, e reuniu cerca de 200 mulheres indígenas, todas preocupadas com o desmatamento do entorno e com as alterações climáticas – entre elas o aumento da temperatura, que já afeta o calendário de plantio e o cotidiano nas aldeias. Elas contam que tiveram que reaprender a plantar na hora certa e que já perderam colheitas de subsistência devido às mudanças no regime de chuvas – ora por excesso, ora por escassez.

Watatakalu Yawalapiti, uma das lideranças femininas do movimento de mulheres do Xingu. Foto: Maria Fernanda Ribeiro

Diversidade sob ameaça A experiência vivida por essas mulheres vai ao encontro dos dados do Sirad-X, o sistema de monitoramento de desmatamento da Rede Xingu+, uma articulação de indígenas, ribeirinhos e seus parceiros que vivem ou atuam na bacia do Xingu. As últimas informações apontam que, entre julho e agosto de 2019, 14,7 mil hectares de floresta foram destruídos no Corredor Xingu de Biodiversidade Socioambiental – 172% a mais do que o mesmo período do ano passado.

Esse corredor, situado entre os estados de Pará e Mato Grosso, engloba mais de 26 milhões de hectares de áreas protegidas – um mosaico formado por 21 Terras Indígenas e nove Unidades de Conservação que abriga uma das maiores concentrações de diversidade ambiental e cultural do mundo. No entanto, toda essa riqueza está ameaçada pelo aumento de invasões, grilagem de terras, incêndios descontrolados, garimpo e roubo de madeira, o que também explica a alta taxa de desmatamento.

Segundo Watatakalu Yawalapiti, uma das lideranças femininas do movimento, os vizinhos ruralistas estão desmatando o entorno e acabando com toda a floresta. “Muita gente fala que é muita terra para pouco índio, mas nós falamos que realmente somos muito poucos indígenas para dar conta do tamanho do estrago que vocês [os não-indígenas] fazem no nosso planeta.”

Criado há 58 anos durante o governo Jânio Quadros, o então Parque Indígena do Xingu – hoje Território Indígena do Xingu – foi a primeira grande demarcação de terra realizada pelo governo federal. Há décadas enfrenta uma série de desafios, que vão do desmatamento e da substituição da floresta por grandes monoculturas ao uso de agrotóxicos, fogo descontrolado e grandes obras de infraestrutura – tudo que impacta diretamente na disponibilidade de recursos naturais importantes para os indígenas. Um exemplo é a implementação de lotes ao longo da rodovia federal BR-242 a apenas 12 quilômetros do limite sul do Território Indígena do Xingu, o que pode impactar os principais rios da bacia e eliminar importantes remanescentes florestais da região.

Mapulu Kamayurá, pajé e uma das pioneiras do movimento de mulheres xinguanas, diz que já não encontra mais na mata as plantas que encontrava antes, utilizadas para os tratamentos medicinais, o que traz grande preocupação. Por isso, defende a união entre homens e mulheres para que juntos possam se fortalecer e proteger o que ainda resta de floresta.

“A gente não pode ficar para trás. Primeiro o homem fazia reunião e não tinha espaço para a mulher. Hoje já tem espaço para nós, agora estamos juntos com eles. A gente tem agora que lutar contra o governo. A floresta está acabando e nós temos que segurar, lutar pela nossa floresta”, afirmou Mapulu.

Para Elizângela Baré, representante de um das etnias do do alto Rio Negro, no estado do Amazonas, e que esteve presente no encontro do Xingu, não é possível falar da defesa do território, dos direitos indígenas, da sustentabilidade e de política sem a presença das mulheres. No entanto, segundo ela, “não são todos os povos que aceitam que as mulheres possam sair da sua casa, do seu território para participar de grandes eventos e falar do que a gente pensa como mulher indígena. A gente está quebrando devagar essa tradição”.

Mulher xinguana assiste a sessão do encontro realizado na aldeia Ilha Grande. Foto de Maria Fernanda Ribeiro.

Homens na cozinha Para que o encontro do movimento de mulheres fosse possível, foi preciso rever o modus operandi da tradição indígena, mesmo que pontualmente. Mulheres deixaram suas casas por dias e alguns dos parceiros se responsabilizaram pelo lar e pelo cuidado dos filhos. De acordo com Watatakalu Yawalapiti, muitos dos maridos disseram que apoiavam que suas esposas participassem do encontro. No entanto, a situação para algumas delas apresentou um revés quando retornaram para casa. E a resistência maior, segundo ela, veio das jovens lideranças e não dos velhos caciques.

“Teve marido que achou que o movimento das mulheres estava transformando a esposa e isso foi muito difícil para elas, que começaram a ser atacadas por algumas pessoas”, diz Watakalu. “Mas agora a gente está caminhando para uma conversa, não só com os caciques, mas também com jovens lideranças homens para quebrar um pouco isso.”

Em muitos lugares do Xingu, porém, a colaboração entre homens e mulheres já deu sinais de avanço. Na aldeia Ilha Grande, onde aconteceu a reunião, os homens ficaram responsáveis por todas as tarefas consideradas “femininas” para que elas pudessem dialogar durante os quatro dias. Eles foram para a roça, pescaram, cozinharam, se revezaram entre o fogão a lenha e o a gás e alternaram de humor conforme a temperatura da cozinha se elevava devido ao calor e ao fogo. As mulheres se divertiram ao ver que eles agora sentiam o que elas passavam sempre.

“Como o encontro é das mulheres, os homens fizeram esse trabalho que elas sempre fazem. Por isso eles estão cozinhando, pescando e fazendo tudo no lugar delas”, disse, durante o encontro, o cacique da aldeia Ilha Grande, Sinharo Kaiabi.

Em agosto, as xinguanas também participaram em massa da Primeira Marcha das Mulheres Indígenas do Brasil, realizada em Brasília, que reuniu cerca de 2 mil mulheres de cem diferentes etnias vindas da Amazônia, do Cerrado, da Mata Atlântica, do Pantanal, da Caatinga e do Litoral. Com o tema “Território, nosso corpo, nosso espírito”, o objetivo foi sair da invisibilidade para ecoar suas vozes em prol da defesa de suas terras e ocuparem espaços além de suas comunidades.

As mulheres do Xingu foram protagonistas de uma das cenas mais marcantes do evento, na qual formaram uma espécie de cordão humano frente à fila de seguranças que protegiam a sede da Sesai (Secretaria Especial da Saúde Indígena), órgão ligado ao Ministério da Saúde. Watatakalu, munida do seu maracá – um chocalho indígena utilizado em rituais – se posicionou entre as duas fileiras e caminhou nesse “corredor” encarando os seguranças um a um e dizendo que não tinha medo deles. Os homens se retiraram e elas comemoraram.

“Depois de tudo o que aconteceu, vários homens viram o movimento das mulheres como se estivesse tirando o lugar deles”, diz Watakalu. “A gente teve muita paciência de também ouvir o que eles pensam, porque não é fácil de uma hora para a outra jogarem esse pensamento fora. Mas acho que eles também entenderam que o movimento indígena das mulheres ajuda e isso foi muito importante porque a gente sempre disse que a gente queria fazer parte disso não sozinha, mas do lado deles.”

O resultado disso tudo é que o encontro das mulheres do ano que vem deve ser ainda maior, com a presença de mais indígenas de outras regiões do Brasil e com debates mais avançados e intensificados. Os preparativos já começaram e elas garantem que isso é só o começo.

Assista ao documentário Mulheres do Xingu, realizado durante o encontro:

Por: Maria Fernanda Ribeiro e Nádia Pontes
Fonte:
Mongabay

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