Incêndios na Amazônia podem derreter geleiras nos Andes

A Geleira Zongo, analisada no estudo, fica no topo da montanha Huanya Potosí, na Bolívia. Foto de Domínio Público.

Incêndios na Amazônia podem estar contribuindo para o aumento do derretimento das geleiras das montanhas andinas, de acordo com um estudo publicado na revista Scientific Reports.

Colunas de fumaça se desprendem dos incêndios na floresta e viajam com o vento, carregando aerossóis como o carbono negro, que se depositam na superfície das geleiras nas montanhas, escurecendo a neve. Como resultado, o albedo da neve – a quantidade de luz e radiação refletida pela superfície – é reduzido. Com menos luz do sol refletida, o equilíbrio de energia das geleiras é afetado e elas derretem mais rápido.

“O que descobrimos em nosso estudo foi que, nas geleiras dos Andes Tropicais, a principal fonte de carbono negro é a queima de biomassa na Amazônia. E o conteúdo de carbono negro na neve devido aos incêndios na Amazônia é suficiente para causar derretimento”, diz o principal autor do estudo, Newton de Magalhães Neto, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

O fenômeno pode ser relativamente novo, já que a Floresta Amazônica sempre foi úmida demais para queimar de forma significativa; as mudanças climáticas, aliadas ao desmatamento, fizeram com que ela ficasse

A equipe de pesquisa usou dados de incêndios, precipitação, derretimento das geleiras e o movimento das colunas de fumaça do sudoeste da Amazônia para elaborar um modelo matemático dos efeitos sobre as geleiras, especificamente da Geleira Zongo, na Bolívia. A pesquisa se concentrou no depósito de carbono negro em 2007 e 2010, anos em que os incêndios foram maiores do que os níveis devastadores de 2019.

De acordo com o modelo, tanto o carbono negro quanto a poeira em baixas concentrações (10 partes por milhão) sobre a superfície da neve podem aumentar o derretimento anual na geleira em 3% a 4% separadamente ou em 6% a 8% quando combinados. Níveis mais altos de poeira (100 partes por milhão) podem aumentar o derretimento anual das geleiras em 12% a 14% quando associados ao carbono negro.

“Para nós, não foi uma grande surpresa. Já sabíamos que na Groenlândia o derretimento superficial ocorre não só devido ao aquecimento provocado pelos gases de efeito estufa mas também ao depósito de carbono negro na superfície. A Groenlândia recebe grandes quantidades de carbono negro originário de combustíveis fósseis por conta da industrialização da América do Norte e da Europa, da queima da Floresta Boreal do Canada e do uso de carvão na Rússia; e o carbono negro tem um papel fundamental no processo de derretimento da superfície das geleiras.”

Para estabelecer a mesma ligação nos Trópicos, contudo, os pesquisadores tiveram de provar que a fumaça do sudoeste da Amazônia podia atingir a altitude das geleiras tropicais andinas. A equipe fez isso usando o Calipso (um satélite que usa a tecnologia Lidar, infravermelho e análises de imagem das nuvens), para verificar se a coluna de fumaça continha a mesma composição de aerossol tanto acima da Bacia Amazônica quanto das montanhas andinas.

O satélite Calipso, cuja sigla em inglês significa Cloud-Aerosol Lidar and Infrared Pathfinder Satellite Observation, combina um instrumento Lidar ativo com o infravermelho passivo e imagens visíveis para analisar a estrutura vertical e as propriedades de nuvens rarefeitas e aerossóis. Vídeo: Centro de Pesquisa Langley da NASA.

O desmatamento está aumentando, o que alerta para mais incêndios no futuro. No entanto, as emissões causadas pelo fogo não são a única coisa que contribui para os níveis de carbono negro nas montanhas. A facilidade com a qual o carbono negro pode viajar da Amazônia para os Andes, de acordo com Magalhães Neto, também é algo a ser considerado. Mudanças na atmosfera podem significar um transporte mais eficiente de poeira e carbono para a superfície das geleiras.

“É difícil prever o que os incêndios deste ano [2019] significaram para o derretimento sem aplicar os modelos e medir o carbono negro nas geleiras. O mais importante é ter em mente que esse impacto existe.”

Um estudo de outras geleiras andinas tropicais descobriu que quase metade da área glacial desapareceu desde 1975, sendo que mais de 80% das áreas extintas estavam abaixo dos 5 mil metros. Os modelos atuais que preveem a resposta das geleiras andinas às mudanças climáticas não incluem as contribuições do carbono negro e da poeira para o derretimento.

“Sabemos que a causa mais importante para o derretimento das geleiras dos Andes são as mudanças climáticas (principalmente o aquecimento da atmosfera devido aos gases de efeito estufa). Os incêndios na Amazônia agem como uma força extra que agrava a situação”, diz Magalhães Neto. “Uma política que reduza as emissões de gases de efeito estufa e impeça o desmatamento e os incêndios seria a forma mais eficaz de mitigar o derretimento das geleiras.”

Comunidades e ecossistemas abaixo das geleiras dependem do derretimento das mesmas como uma fonte de água doce, especialmente durante as estações secas e períodos de estiagem. O aumento do derretimento das geleiras pode romper o equilíbrio hidrológico e ter implicações desastrosas para os recursos de água doce em regiões já afetadas pela insegurança hídrica.

“Primeiro, espera-se um aumento inicial da água proveniente das geleiras como resultado do maior derretimento, no entanto, esse derretimento atingirá um ponto em que o volume de água começará a diminuir”, diz Magalhães Neto. “[Isso] resultará num deficit hídrico para o ecossistema, o que pode levar a uma redução futura na agricultura, na água potável e na geração de energia para as pessoas que vivem nas regiões áridas do oeste andino e resultar numa crise hídrica.”

Por: Lis Kimbrough
Fonte: Mongabay

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