18 etnias indígenas, em 7 estados, registram casos de coronavírus em aldeias e áreas urbanas, com 11 vítimas fatais

A primeira morte por COVID-19 entre indígenas no Brasil foi identificada em 19 de março, na Vila Alter do Chão, no Pará: Lusia Lobato dos Santos, 87 anos, do povo Borari, que não está nos registros da Sesai – Secretaria de Saúde Indígena, órgão vinculado ao Ministério da Saúde, identificou o site De Olho nos Ruralistas.

A questão é que o órgão do governo não considera as mortes de indígenas que vivem nas cidades, apenas dos que vivem nas aldeias. O que é um absurdo já que, só em Manaus, por exemplo, vivem entre 30 mil e 40 mil indígenas. Mas também deixa a desejar em relação aos dados sobre os povos atingidos e os municípios onde vivem, dificultando o monitoramento e qualquer tipo de ajuda.

O fato é que, em menos de um mês após a confirmação do primeiro caso no Amazonas – a agente de saúde Suzane da Silva Pereira da etnia Kokama, 20 anos (foto abaixo), que mora em Santo Antônio do Içá, sudoeste do estado -, hoje, dezoito etnias enfrentam a pandemia. Tanto em suas terras, como nas cidades.

A região mais afetada é a amazônica, mas a doença já se espalhou por etnias que vivem em outras regiões, onde indígenas foram testados positivo: Pernambuco e Ceará (nordeste) e Espírito Santo e São Paulo (sudeste).

Na semana passada, em 22/4, foi confirmado o primeiro caso entre os Guarani Mbya, na Terra Indígena Jaraguá, na zona norte da capital paulista. O líder da comunidade, Thiago Henrique Karai Jekupe, relatou que o indígena contaminado, não apresenta sintomas graves da doença e “está bem”.

Foto: Alex Pazuello/Prefeitura de Manaus

De acordo com a Agência Pública, até 13 de abril, o vírus havia feito três vítimas fatais entre os povos indígenas: o adolescente Yanomami, Alvaney Xirixana,de 15 anos, em Roraima, a idosa Borari, que comentei acima, e um homem da etnia Mura, de 55 anos, em Manaus. Havia nove pessoas contaminadas no total. De acordo com o Ministério da Saúde (sob gestão de Luiz Henrique Mandetta), 23 pessoas estavam sendo tratadas como casos suspeitos e 31 já haviam sido descartados.

A Sesai, até 22 de abril, havia registrado apenas 4 mortes: um indígena Kokama, um Sateré-Mawé, o garoto Yanomami e um Tikuna. A idosa Borari náo aparecia nos registros, nem o indígena Mura. Tambem não figuram nessa lista os dois irmãos Apurinã (Adilson Menandes dos Santos, 77, que morreu em 20/4, e Clevelande, em, 21/4).

Os povos Kokama e Apurinã são os que mais registraram óbitos: dois, cada um.

E há mais um caso que não está nas estatísticas do órgão: um enfermeiro indígena de 28 anos da etnia Galiby Kalinã, no Amapá, que atua na Casa de Apoio à Saúde Indígena (Casai), no município de Oiapoque. Seu teste para COVID-19 foi confirmado, em meados deste mês, e não foi registrado. O motivo: ele reside em área urbana, não em aldeia.

COVID-19 já atinge etnias em sete estados Juntando os dados da Sesai e do De Olho nos Ruralistas, existem 18 etnias atingidas pelo vírus em sete estados. São doze óbitos, sendo que um ainda é suspeito, ou seja, falta confirmação com o resultado do teste.

Agora, as 12 etnias onde há casos confirmados; em algumas, com vítimas fatais:

– Atikum: em Pernambuco, Carnaubeira da Penha
– Baré: no Amazonas, Manaus
– Guarani: 1, em São Paulo, capital (TI Jaraguá)
– Hixkariana: no Amazonas, Parintins
– Galiby Kalinã: (AP/Oiapoque)
– Kokama: no Amazonas, Santo Antonio do Iça (além dos dois que morreram, abaixo indicados)
– Munduruku: no Amazonas, Manaus
– Pankararu: em Pernambuco, Arcoverde
– Sateré Mawé: no Amazonas, Maués (além do que morreu, abaixo)
– Tupinambá: no Ceará, Cratéus
– Tupiniquim: no Espírito Santo, Aracruz
– Warao: no Pará, em Belém (indígenas venezuelanos, além do que morreu, abaixo).

Agora, as mortes de indígenas:

– Apurinã: 2, no Amazonas, Manaus
– Baniwa: 1, no Amazonas, Manaus*
– Borari: 1, no Amazonas, Santarém, Alter do Chão
– Kokama: 2, no Amazonas, Santo Antonio do Iça
– Mura: 1, no Amazonas, Manaus
– Pitaguary: 1 morte suspeita (ainda não confirmada), no Ceará, Pitaguary
– Sateré Mawé: 1, no Amazonas, Maués
– Tikuna: 1, no Amazonas, Manaus
– Yanomami: 1, no Amazonas, Boa Vista
– Warao: 1, no Pará, Belém (indígena venezuelano).

*Em 18/4, véspera do Dia do Índio, o povo Baniwa perdeu para a COVID-19 o escritor e agente da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM), Aldevan. Ele havia denunciado a falta de testes para profissionais que estão na linha de frente combatendo a pandemia.

Os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) trabalham com dados da Sesai. O Dsei do Alto Solimões diz ter doze casos confirmados e atende a uma população de 70 mil indígenas de 237 comunidades. No Médio Purus, a DSEI local confirma três casos de COVID-19: o órgão fica em Lábrea, no sul do Amazonas, e atende uma área de 187,1 mil metros quadrados, com cerca de 10 mil indígenas, de 17 etnias, em 116 aldeias.

Segundo o De Olho nos Ruralistas Sesai e Coiab – Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira não respondem ou dizem que não têm mais informações.

“A Sesai está sendo omissa”, diz coordenador da Apib

O Censo Demográfico de 2010, o último realizado no país, aponta que havia 896 mil pessoas que se declaravam ou se consideravam indígenas no país, das quais 572 mil (63,8%) residiam em áreas rurais. Do total, 517 mil (57,7%) residiam em terras indígenas oficialmente reconhecidas ou demarcadas. Esse censo contabiliza todas essas pessoas, que são de aproximadamente 300 etnias e falam 270 línguas diferentes. Este é um dos maiores níveis de sociodiversidade do mundo. E esses brasileiros têm sofrido muito com este governo.

“É latente o racismo institucional do órgão que deveria acompanhar o caso de qualquer indígena, vivendo ou não nas cidade”, afirma Dinaman Tuxá, coordenador da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). “Os dados apresentados pela Sesai não são reais e isso é assustador porque a negação dos dados se dá também para o movimento indígena e isso prejudica a nossa busca por apoio porque, para todos os efeitos, esses são os dados oficiais, os que o mundo acompanha”.

Ele lembra que foi a Apib que identificou a etnia da indígena de 29 anos que testou positivo no Ceará, e está se recuperando: é Tupinambá. “Precisamos identificar onde está cada caso específico de contaminação e se não é um prejuízo, inclusive, de ajuda humanitária. A Sesai está sendo omissa e não sabemos qual o intuito disso, mas deve ser para blindar o governo porque não há política de contingenciamento para combater o coronavírus para não chegar aos territórios indígenas”.

Por: Mônica Nunes
Fonte: Conexão Planeta

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