Coronavírus: à espera de um leito; morte de Esther Silva revela colapso no sistema de saúde de Manaus

O Amazonas contabiliza mais de 1,4 mil casos confirmados de Covid-19 e 90 mortes no período de 1 mês. A pandemia foi registrada pela primeira vez no estado, em 13 de março

Enterro de dona Esther Melo da Silva no cemitério Parque Tarumã, em Manaus
( Foto: Amazônia Real)

A dona de casa Esther Melo da Silva, de 67 anos, morreu na quinta-feira (09) vítima de Covid-19, no Serviço de Pronto Atendimento (SPA) e Policlínica Danilo Corrêa, após ficar cinco dias à espera de um leito no Hospital e Pronto Socorro Delphina Rinaldi Abdel Aziz, referência no atendimento de pacientes da pandemia do novo coronavírus, em Manaus. Além do leito na UTI, a família denunciou a falta de medicamentos para o tratamento com antibióticos da paciente no SPA.

“Nós pressionamos de todas as maneiras para que ela fosse transferida para o Delphina Aziz, pois a gente acreditava que lá ela receberia o tratamento mais adequado. Tenho certeza de que foi negligência”, disse o coordenador de projetos Luigi Paolo do Nascimento Fernandes, 41 anos, à Amazônia Real em entrevista na tarde de sexta-feira (10), após o enterro. Ele é um dos genros da dona de casa, que deixou três filhas, sendo duas casadas, e três netos.

Luigi Fernandes contou que a família chegou a receber uma informação de que havia seis leitos disponíveis na UTI do hospital Delphina, mas não houve a remoção da paciente. Ele disse que questionou a direção da unidade: “mas onde estavam esses leitos quando minha sogra mais precisou? Ela é uma das vítimas do colapso do sistema de saúde do Amazonas”, declarou ele.

O atendimento no hospital Delphina Aziz entrou em colapso desde na primeira semana de abril, apesar do governador Wilson Lima (PSC), apoiador do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), negar. Ele demitiu o secretário da Secretaria de Estado da Saúde (Susam), Rodrigo Tobias, após declarações sobre a precariedades nas UTI´s e falta de equipamento, como respiradores, no hospital. O Ministério da Saúde, Luiz Henrique Mandetta criticou a troca no comanda no cargo em plena pandemia.

O Amazonas é um dos quatro estados brasileiros com mais casos de Covid-19 no país: são 1.484 confirmações e 90 mortes, conforme os dados do governo estadual divulgados hoje (14). Sem respeitar as orientações para o isolamento social nas residências e no comércio, a população de Manaus segue nas ruas e a curva epidemiológica da pandemia só cresce.

Segundo o boletim divulgado pelo Ministério da Saúde na segunda-feira (13), o coeficiente de incidência da doença no estado é de 303 casos para cada 1 milhão de habitantes. Em seguida, aparecem na lista Amapá (281), Distrito Federal (209), Ceará (196), São Paulo (192) e Rio de Janeiro (186). A média nacional de casos é de 111 para cada um milhão, portanto a incidência é 50% acima da média nacional.

Especialistas afirmam que o estado precisa orientar a população a fazer o isolamento. Já o Ministério da Saúde descarta a possibilidade de isolamento social obrigatório para a população, isto é o confinamento, chamado lockdown (em inglês).

Faltou medicação no SPA

Hospital Delphina Aziz, em Manaus (Foto: Secom)

A família de Esther Silva sentiu a precariedade do sistema público de saúde no atendimento da dona de casa. Ela era ministra da palavra para enfermos da comunidade católica da Igreja de São Bento, no bairro Cidade Nova, na zona norte, onde morava, e entregava as hóstias para os fiéis acamados justamente nos hospitais.

O genro de dona Esther Silva, Luigi Fernandes disse que, além da família enfrentar a falta de leitos no Delphina Aziz, a medicação passada pelo médico para o tratamento dela, Azitromicina de 500 mg, não tinha no SPA Danilo Corrêa. “Tivemos que comprar por conta própria. Nem remédio tinha lá. A gente se sente lesado. Estamos vivendo em um Estado que não existe, em situação de anarcocaptalismo”.

Ele disse que a família está abalada não só com a morte da matriarca, mas também por terem visto “muitas pessoas morrendo, entrando e saindo sem o devido cuidado do SPA Danilo Corrêa” nos cinco dias em que a sogra ficou internada na unidade.

“Aquele lugar está uma zona, extremamente tenso e fora de controle. Tinham 15 leitos lá, mas só a maca. A pessoa é posta lá só para morrer. Vi que outras três pessoas morreram lá com os mesmos sintomas que a minha sogra. E ainda tinham outras pessoas lá com os mesmos sintomas, mais fortes ou mais leves, mas com tosse, febre e falta de ar. Nem sequer tiveram amostras coletadas para exame”, afirmou Fernandes.

A dona de casa Esther Silva começou a apresentar os sintomas do novo coronavírus: tosse, febre e dor de garganta na terça-feira, dia 31 de março. No sábado (4 de abril), ela sentiu falta de ar e foi levada pelas filhas ao SPA e Policlínica Danilo Corrêa. Fernandes disse que ela precisou de um exame de raio-x, mas o equipamento do hospital estava quebrado. Como os sintomas já estavam intensos, os médicos acharam melhor interná-la em uma área de isolamento, onde já se encontravam duas pessoas, contou o genro.

O exame do tipo PCR, que comprovou a Covid-19, só foi realizado no domingo (5) pelo Laboratório Lacen e resultado saiu dia 8. Fernandes explicou que a situação da sogra se agravou e ela foi levada à emergência, onde foi colocada no único respirador disponível no SPA. Na quinta-feira (9), Esther Silva não resistiu. Ela morreu às 14h10, após três paradas cardiorrespiratória provocada por “Síndrome Respiratória Aguda Grave Covid-19”, conforme consta no atestado de óbito.

Após a morte da sogra, o coordenador de projetos diz que a família não foi procurada pela FVS para realização de exames ou qualquer tipo de acompanhamento. “Hoje (10 de abril), o marido de uma das minhas cunhadas recebeu uma ligação da FVS perguntando como estava a minha sogra. Para você ver como é o descaso do Estado, ninguém nem informou o caso dela ao sistema de saúde, nem notificaram o sistema”, disse Fernandes.

De acordo o genro de Esther, ela não tinha nenhuma comorbidade (doença coexistente): “Minha sogra era ativa, cuidava da saúde e tinha feito um check-up recentemente. Ela não tinha nenhum problema de saúde como diabetes, hipertensão. Nada! Estamos muito revoltados e vamos buscar justiça, pois vimos da televisão o governador falando que tinham leitos. Vi na imprensa que tinham seis leitos disponíveis. Mas diziam para gente que era preciso esperar ter disponibilidade para ela ser transferida. Convivi com a minha sogra por mais de 20 anos, ela não merecia morrer dessa maneira”, afirmou Luigi Fernandes.

O que diz a Susam?

Pessoas aguardando ônibus em Manaus (Foto: Bruno Kelly/AmazôniaReal)

À reportagem da Amazônia Real a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (Susam) disse, por meio de nota enviada por e-mail, que a direção do SPA Danilo Corrêa informou que “a paciente deu entrada na unidade no dia 4 de abril, sendo realizada a coleta para confirmação de Covid-19 no dia 5 de abril, saindo o resultado após 24h, portanto, dentro do tempo estimado pela Fundação de Vigilância em Saúde (FVS). A paciente recebeu o suporte necessário na unidade, enquanto aguardava a remoção para o Hospital Delphina Aziz. Em relação ao medicamento, a Azitromicina, a unidade solicitou da CEMA [Central de Medicamentos do Amazonas], e foi atendida”.

A Susam não explicou o porquê Esther Silva não foi transferida para o Hospital Delphina Aziz e não justificou a falta de equipamento de raio-x no SPA Danilo Corrêa.

O primeiro caso de Covid-19 no Amazonas foi registrado no dia 13 de março. No dia 20 de março, o governo anunciou que no hospital Delphina Aziz tinha 69 leitos da UTI, mas 50 estavam ocupados, isto é, há já havia uma superlotação de pessoas doentes. Também planeja montar 350 leitos.

Já no dia 10 de abril, o governo informou que o Delphina tinha 57 leitos ocupados, sendo 42 com casos confirmados de Covid-19 e 15 por pacientes com suspeita da doença. A Susam explicou que além da limitação de infraestrutura, não tinha mão de obra qualificada com médicos, enfermeiros e técnicos para operacionalizar os leitos e cuidar dos pacientes. A secretaria também explicou que ocupação destes leitos é dinâmica e está sujeita à melhora de pacientes internados e ao aumento do número de pacientes em estado grave.

O governador do Amazonas, Wilson Lima assinou em 16 de março o decreto de situação de emergência na saúde pública do estado, com vigência de 120 dias. Nesta segunda-feira, quase um mês depois, o governo informou o aumento no número de leitos de UTI no Delphina Aziz de 69 para 75. A meta agora é chegar a 100 de UTI´s e 250 leitos clínicos, chegando à capacidade máxima de 350 leitos na unidade de referência para Covid-19.

Higienização na Praça da Matriz em Manaus (Foto: Diego Cajá/Seminf)

Pandemia se concentra em Manaus

Do total de 1.484 casos confirmados de Covid-19 no estado, 1.295 são na capital e 189 em 18 municípios. A situação mais crítica é em Manacapuru, na região Metropolitana de Manaus, que tem 189 casos confirmados e três mortes, segundo dados divulgados nesta terça-feira (14) pela FVS.

Das 90 pessoas mortas por Covid-19 no estado, 62 foram em Manaus, onde a contaminação do novo coronavírus é comunitária, isto é, o vírus circula nas ruas. Há vitimas da pandemia em Parintins (3), Iranduba (1), Manicoré (1) e Novo Airão (1). Outros 13 óbitos estão em investigação pela Fundação de Vigilância em Saúde.

Força do SUS em Manaus

Hospital de Campanha da Prefeitura de Manaus (Foto: Alex Pazuello/Semcom)

Com a crise no sistema de saúde no Amazonas, em coletiva realizada ontem (13), em Brasília (DF), o secretário executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo, disse que o estado receberá profissionais da Força Nacional do SUS com dez enfermeiros e sete médicos. Ele garantiu a liberação de recursos para a ampliação de leitos no hospital Delphina Aziz, mas não informou o valor. De acordo com o secretário, os três andares vagos do prédio da unidade deverão receber em breve 350 leitos e também 20 respiradores e, no futuro, outros 20. Ele também disse que Manaus receberá médicos intensivistas experientes de outros estados, como o Rio Grande do Sul, onde a situação está menos crítica.

A Prefeitura de Manaus inaugurou ontem (13) um hospital de campanha para reforçar o atendimento aos doentes da pandemia do novo coronavírus no Centro Integrado Municipal de Educação (Cime), na zona norte da cidade. O lugar tem dois prédios com 24 salas em uma área de, aproximadamente, 6 mil metros quadrados: serão 144 leitos. O prefeito Arthur Virgílio Neto (PSDB) anunciou que irão trabalhar no hospital 15 médicos, 72 técnicos de enfermagem e 72 enfermeiros, por plantão.

Por: Izabel Santos
Fonte: Amazônia Real

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