Frente Parlamentar Ambientalista e sociedade civil se posicionam contra MP da Grilagem

Senador Irajá Abreu (PSD-TO) foi o relator da MP 910 na comissão mista. Foto: Jane de Araújo/Agência Senado.

Seis ex-ministros do Meio Ambiente, 3 ex-ministros do Desenvolvimento Agrário, 27 parlamentares estaduais e federais e dezenas de organizações ambientalistas assinaram nota conjunta contra a iminente votação da Medida Provisória 910/2019, conhecida como MP da Grilagem. A carta aberta é encabeçada pela Frente Parlamentar Ambientalista.

Editada no dia 11 de dezembro de 2019, a MP 910 altera dois pontos importantes da legislação anterior sobre o assunto: o marco temporal para que a pessoa que deseja regularizar a terra comprove a ocupação da área, que aumentou em sete anos, e a extensão da aplicação da lei, antes restrita ao território da Amazônia Legal e que agora passará a valer para o país inteiro.

Com a publicação, as normas contidas na MP já estão em vigor, mas precisam ser aprovadas pelo Congresso até o dia 19 de maio, ou caducará.

Os signatários da carta afirmam que a Medida Provisória estimula desmatamentos, já que incentiva novas ocupações de áreas públicas por facilitar regularização e estender benefícios direcionados à reforma agrária para ocupantes de glebas extensas (até 1.500 hectares na MP e até 2.500 hectares nas duas versões divulgadas pelo relator na comissão mista, Irajá Abreu).

Confira a seguir a íntegra do texto

A Frente Parlamentar Ambientalista, as frentes parlamentares, os parlamentares, os ex-ministros e as organizações signatárias abaixo explicitadas manifestam seu posicionamento absolutamente contrário à entrada em pauta e votação da Medida Provisória nº 910, de 2019, durante o período de crise decorrente da pandemia da Covid-19. Com validade até 19/05, não deveria ser objeto de deliberação, pelos motivos apresentados a seguir.

A MP 910/2019 sequer reúne o requisito constitucional de urgência na sua edição. As regras sobre regularização fundiária em vigor foram modificadas em 2017, não tendo havido nem sequer tempo para sua aplicação completa. Intenta-se votar no rito especial das medidas provisórias matéria polêmica e eivada de inconstitucionalidades, que flexibiliza os requisitos para a regularização de extensas áreas e prioriza procedimentos meramente declaratórios, sem controle estatal. O relator designado na comissão mista, nos dois pareceres divulgados até agora, ampliou a fragilidade jurídica do texto e sua injustiça social. Independentemente da proposta do relator, nosso entendimento é de que a MP original já apresentava graves problemas e não pode ser apreciada durante o quadro de crise sanitária, no qual os ritos legislativos foram tornados mais céleres.

A MP 910/2019 facilita a regularização de atividades ilícitas, incentiva novas ocupações de áreas públicas em face da perspectiva de sucessivas facilidades de regularização, estende benefícios direcionados à reforma agrária para ocupantes de glebas extensas (até 1.500ha na MP e até 2.500ha nas duas versões divulgadas pelo relator na comissão mista) e estimula o desmatamento e a degradação ambiental. Sabe-se que a regularização fundiária é política pública de extrema importância no caso brasileiro, mas não será com propostas como essa que os problemas nessa área serão solucionados. Pelo contrário, os conflitos sociais e as infrações ambientais serão amplificados.

Nota técnica conjunta de quatro câmaras técnicas do Ministério Público Federal (Criminal, Meio Ambiente e Patrimônio Cultural, Combate à Corrupção) [1] aponta uma lista extensa de problemas de constitucionalidade na MP 910/2019. Manifestação dos presidentes de nove partidos políticos (Rede, PSB, PV, Psol, PDT, PT, PcdoB e PCB) [2] resume os principais problemas no texto dessa medida provisória e requer que não seja votada. Vários institutos de pesquisa e outras organizações [3] avaliaram as inconsistências técnicas e jurídicas da MP 910/2019, bem como os problemas sociais e ambientais dela derivados.

Em face do acima exposto, requeremos que o Congresso Nacional afaste formalmente qualquer possibilidade de essa medida provisória ser discutida. Esta é a demanda apresentada ao Presidente da Câmara dos Deputados, Deputado Rodrigo Maia, e ao Presidente do Senado Federal, Senador Davi Alcolumbre. Os dirigentes do Poder Legislativo não podem pactuar com proposta que legitima a grilagem e o desmatamento ilegal e beneficia grandes produtores rurais em detrimento de agricultores familiares e populações tradicionais. No curso da crise da Covid-19, esse prêmio à ilicitude, se confirmado mediante a aprovação da MP 910/2019, assumiria natureza ainda mais criminosa.

Dep. Rodrigo Agostinho (PSB/SP) – Coordenador da Frente Parlamentar Ambientalista
Dep. Joenia Wapichana (REDE/RR) – Coordenadora da Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas
Dep. Nilto Tatto (PT/SP) – Coordenador da Frente Parlamentar Mista de Apoio aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU – ODS
Deputada Áurea Carolina (PSOL/MG) – Coordenadora da Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos dos Povos e Comunidades Tradicionais
Deputado Marcelo Freixo (PSOL/RJ) – Coordenador da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Democracia e dos Direitos Humanos com Participação Popular
Deputado Alessandro Molon (PSB/RJ) – Líder do PSB
Senadora Eliziane Gama (CIDADANIA/MA) – Líder do Cidadania
Senador Fabiano Contarato (REDE/ES) – Presidente da Comissão de Meio Ambiente do Senado Federal e membro do Conselho de Direitos Humanos
Senador Randolfe Rodrigues (REDE/AP) – Líder da Rede Sustentabilidade
Deputado David Miranda (PSOL/RJ)
Deputado Edmilson Rodrigues (PSOL/PA)
Deputada Fernanda Melchionna (PSOL/RS)
Deputado Glauber Braga (PSOL/RJ)
Deputado Ivan Valente (PSOL/SP)
Deputada Luiza Erundina (PSOL/SP)
Deputada Sâmia Bomfim (PSOL/SP)
Deputada Talíria Petrone (PSOL/RJ)
Deputada Estadual Ana Paula (REDE/MG)
Deputada Estadual Marina Helou (REDE/SP) – Coordenadora da Frente Parlamentar Ambientalista em Defesa das Águas e do Saneamento de São Paulo
Deputado Distrital Leandro Grass (REDE/DF) – Coordenador da Frente Parlamentar Ambientalista e da Frente Parlamentar pelos ODS – Câmara Legislativa do DF
Deputado Estadual Goura Nataraj (PDT/PR) – Coordenador da Frente Parlamentar Ambientalista da Assembleia Legislativa do PR
Deputado Estadual Renato Roseno (PSOL/CE) – Coordenador da Frente Parlamentar Ambientalista da Assembleia Legislativa
Deputada Estadual Estela Bezerra (PSB/PB) – Coordenadora da Frente Parlamentar Ambientalista da Assembleia Legislativa
Deputado Estadual Marcelino Gallo (PT/BA) – Coordenador da Frente Parlamentar Ambientalista da Assembleia Legislativa
Deputado Estadual Davi Maia (DEM/AL) – Coordenador da Frente Parlamentar Ambientalista da Assembleia Legislativa
Deputado Estadual Chió (REDE/PB)
Deputado Estadual Carlos Minc (PSB/RJ) – Ex-Ministro do Meio Ambiente
Sarney Filho – Ex-Ministro do Meio Ambiente
Marina Silva, Ex-Ministra do Meio Ambiente
Rubens Ricupero, Ex-Ministro do Meio Ambiente
José Carlos Carvalho, Ex-Ministro do Meio Ambiente
Edson Duarte – Ex-Ministro do Meio Ambiente
Miguel Rosseto – Ex-Ministro do Desenvolvimento Agrário
Guilherme Cassel – Ex-Ministro do Desenvolvimento Agrário
Pepe Vargas – Ex-Ministro do Desenvolvimento Agrário
Deputada Estadual Paulinha (PDT/SC) – Coordenadora da Frente Parlamentar Ambientalista da Assembleia Legislativa
Deputado Afonso Florense (PT-BA), ex-ministro do Desenvolvimento Agrário e Coordenador da Frente Parlamentar em Defesa das Organizações da Sociedade Civil (FPD-OSC)

Vereador Marcelo Marcondes (PV/SP) – Frente Parlamentar Ambientalista dos vereadores
Vereador Marcos Mendes (PSOL/Salvador/Bahia) – Frente Parlamentar Ambientalista dos Vereadores

Endossam a presente Carta as seguintes instituições da sociedade civil organizada:

Fundação SOS Mata Atlântica
WWF – Brasil
Instituto Sociedade, População e Natureza – ISPN
Associação Alternativa Terrazul
Greenpeace Brasil
Hivos – Instituto Humanista para Cooperação e Desenvolvimento
Instituto Nossa Ilhéus
Instituto Democracia e Sustentabilidade – IDS
Fórum Alagoano de Comitês de Bacia Hidrográfica
Instituto Socioambiental – ISA
Observatório do Clima
Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental – SPVS Rede Grupo de Trabalho Amazônico – GTA
350.org
Apremavi
Iniciativa Verde
Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável
Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais
Instituto Centro de Vida
Instituto Climainfo
Projeto Saúde e Alegria
The Nature Conservancy – TNC
Grupo Ambientalista da Bahia
Fundación Avina
Engajamundo
SOS Amazônia
Instituto Ecoar
Amigos da Terra Amazônia Brasileira
ASCEMA
Nacional Idesam
Instituto Pro Terra
Frente de Ações pela Libertação Animal – FALA
Instituto Akatu
Gama Verde
International Rivers – Brasil
Instituto Terramar
Ceará no Clima
Instituto Verdeluz
Instituto de Estudos Socioeconômicos – INESC
Fundação Grupo Esquel Brasil
Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais pelo Meio Ambiente – FBOMS
MST – Movimento dos Trabalhadores Sem Terra
Movimento pela Soberania Popular na Mineração – MAM
Movimento Tapajós Vivo – MTV
Kanindé – Associação de Defesa Etnoambiental
FONSANPOTMA
Coletivo Memórias do Mar
Instituto Búzios
Movimento Sem Teto da Bahia – MSTB
Movimento em Defesa da Vida do Grande ABC – MDV
Centro Internacional de Água e Transdisciplinaridade – CIRAT
Imaflora
Instituto de Energia e Meio Ambiente – IEMA
ICLEI – Governos Locais pela Sustentabilidade
Toxisphera Associação de Saúde Ambiental
Instituto SOS Pantanal
Instituto MIRA-SERRA
Projeto Hospitais Saudáveis
Instituto de Pesquisa e Educação Ambiental – Instituto Gaia
Instituto de Pesquisas Ecológicas – IPÊ
Unia~o Protetora do Ambiente Natural – UPAN
Associação Amigos do Meio Ambiente – AMA Guaíba
ONG Nosso Vale Nossa Vida – NVNV Médio Paraíba do Sul
Observatório de Conservação Costeira do Paraná
Grupo Ecológico Sentinela dos Pampas – Passo Fundo/RS
Associação Brasileira de Reforma Agrária – ABRA
Associação para a Gestão Socioambiental do Triaângulo Mineiro – ANGÁ
Instituto Caracol – Icaracol
Rede Mato-grossense de Educação Ambiental – Remtea
Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento – Formad
Coletivo Taquara – @ColetivoTaquara
Campanha Emergencial – @CampanhaEmergencial
Anistia Internacional Brasil
Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares – CONTAG
Instituto Linha D’Água
Instituto Floresta Viva
Observatório de Justiça e Conservação
Associação Ambientalista Copaíba
Swiss Indigenous Network – SIN (Rede Suíça de apoio aos povos indígenas)
GT Infraestrutura
Uma Gota no Oceano
Conselho Nacional de Igrejas Cristãs – CONIC
Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – IEAB
Associação Anglicana de Ação Social do Cerrado – Asas do Cerrado
Projeto Manuelzão – Faculdade de Medicina UFMG
Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia
Associação Mineira de Defesa do Ambiente – Amda (MG)
Núcleo de Apoio a População Ribeirinha da Amazônia – NAPRA
Terra de Direitos
Coletivo GRITO (Genebra, Suíça)
Conselho Nacional do Laicato do Brasil – CNLB
Sociedade de Arqueologia Brasileira – SAB
Fórum Indígena de Lisboa
Observatório da Governança das Águas – OGA Brasil
Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração
Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica – CNBRMA
5 Elementos – Instituto de Educação para a Sustentabilidade
SACI – Sustentabilidade Ambiental, Cultural e Institucional
Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional – FASE
Comitê de Energia Renovável do Semiárido – CERSA
Movimento Roessler para Defesa Ambiental
Centro de Estudos Ambientais – CEA
Associação Ijuiense de Proteção ao Ambiente Natural – AIPAN
Rede de ONGs da Mata Atlântica – RMA
UGT Brasil – União Geral dos Trabalhadores
Espaço de Formação Assessoria e Documentação
Abraço Guarapiranga SP
Sarau das Águas
Movimento Garça Vermelha – MOGA
Associação Potiguar Amigos da Natureza – ASPOAN
Rede Ambientalista Potiguar – RAP
Movimento Mais Floresta São Paulo – SP
Grupo Carta de Belém
Associação Brasileira de ONGs – ABONG
Fórum Direito à Cidade – UFRN
Instituto Aldeias
Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida – OLMA
Comitê de defesa dos direitos dos povos quilombolas de Santa Rita e Itapecuru Mirim – MA
RUA_juventude anticapitalista
Observatório do Código Florestal
Associação Viração Educomunicação
Climate Save Portugal
Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária- NERA/UNESP
REDE DATALUTA BRASIL
Associação dos Geógrafos Brasileiros – AGB
CORENOVA. Cooperativa de Reciclagem Nova Esperança de Socorro
Rotaract Club de Socorro, Distrito 4590
AMA Praia do Meio (Natal-RN)
Instituto SOS Rio das Contas
Grupo Ecológico Humanista PAPAMEL
Movimento Mangue Vivo – Natal
Movimento agora Instituto Igarapé
SBPC – Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência
Grupo Ecológico Humanista PAPEMEL
Movimento Mangue Vivo Natal
Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos – BPBES.

Por: Daniele Bragança
Fonte: O Eco

Deixe um comentário