Pela radiofonia, indígenas do Alto Rio Negro recebem informações de prevenção contra o coronavírus

Na imagem, estão indígenas Tukano da comunidade São Domingos, no rio Tiquié, em São Gabriel da Cachoeira (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Uma pequena sala na sede da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) tem guardado – e compartilhado – um poderoso recurso contra a pandemia do novo coronavírus, a Covid-19: a informação. Nesse espaço funciona a radiofonia, sistema que leva informação sobre a doença a pelo menos 200 comunidades do Alto Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira, no noroeste do Amazonas.

Na região do Alto Rio Negro não há registros de casos do novo coronavírus. Presidente da Foirn, Marivelton Baré explica como a organização está fazendo a prevenção pela radiofonia. Ele disse que há radiofonia em 210 comunidades e cada uma delas acaba atendendo a várias outras. “A radiofonia tem sido um modelo de comunicação eficaz no Rio Negro. Pela grande mobilidade que tem entre as comunidades, nas calhas, isso permite também elas irem repassando as informações”, diz.

Ao todo, são cerca de 750 comunidades de 23 etnias atendidas pela federação, numa área de 108 mil quilômetros quadrados. Marivelton explica que a crise da Covid-19 ressaltou a necessidade de reforço do sistema de comunicação. “Estamos priorizando as comunidades mais longínquas, como as comunidades Hupda, que têm mais dificuldade de acesso à comunicação”, explica.

Na sala de radiofonia, Edneia Teles, da etnia Arapaso e que faz parte do Departamento de Comunicação da Foirn, passa cerca de duas horas diárias no ar. O sistema usado para todo tipo de comunicação tem enfatizado os esclarecimentos sobre o coronavírus.

Do outro lado do rádio, surgem perguntas como “o que é o Corona?”, “a gripe comum pode ser Covid-19?”, “quando é permitido ir à cidade?”, “quando voltam as aulas?”, “há casos de coronavírus em São Gabriel?”, “há mortes causadas pelo vírus em Manaus?” e “quando os benefícios voltarão a ser pagos?”. Essas foram algumas dúvidas dos indígenas ouvidas pela Amazônia Real. Pelo rádio, os indígenas também fazem reivindicações; querem saber se a prefeitura vai mandar cestas básicas e sabão.

Munida com os últimos decretos da prefeitura de São Gabriel da Cachoeira, que estabeleceu estado de emergência em saúde, Edneia Teles responde às perguntas dos indígenas. Pelo rádio, ela manda a mensagem: “A dúvida que vocês tiverem, podem mandar. As coisas não estão muito fáceis. É pela nossa saúde mesmo. Nossa saúde em primeiro lugar, dos nossos pais e nossas crianças”.

Membro do Comitê de Enfrentamento e Combate a Covid-19 em São Gabriel da Cachoeira (Foto: Foirn/2020)

A Foirn tem levado nas transmissões profissionais da saúde, como biólogo, enfermeira e médico. Outro cuidado é o de levar pessoas que falam outros idiomas indígenas, como Baniwa, Tukano e Nheengatu. Também com essa preocupação, o Instituto Socioambiental (ISA) elaborou cartilhas informativas sobre o coronavírus, nas línguas Baniwa, Dãw, Nheengatu e Tukano, além do português, a serem levadas para as terras indígenas pelos profissionais de saúde do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Alto Rio Negro.

Tanto a Foirn quanto a prefeitura orientam para que os indígenas fiquem em suas aldeias, evitando ao máximo seguirem para a cidade. O pagamento de benefícios, como Bolsa Família, foi adiado.

Em São Gabriel da Cachoeira, em 18 de março, o prefeito Clóvis Moreira Saldanha decretou emergência em saúde. A maior parte do comércio está fechada, com exceção de supermercados, padarias e drogarias. Os serviços de portos foram suspensos, sendo liberado apenas o movimento de embarcações de carga. No aeroporto, os voos estão reduzidos. Eventos públicos e privados com aglomerações foram adiados. Não está havendo aulas nas escolas. A praia à margem do rio Negro, sempre cheia nos fins de tarde, agora está vazia. Não há casos confirmados de Covid-19 no município.

Operações policiais estão sendo realizadas para evitar o descumprimento da norma e abordagem daqueles que insistem em se agrupar.

No Amazonas, segundo a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) do Ministério da Saúde, de 13 de março até esta quinta-feira (23 de abril) foram confirmados 38 casos de Covid-19 entre indígenas atendidos pelos Distritos Sanitário Especiais (Dseis): Manaus (19 casos), Alto Solimões (12), Parintins (4) e Médio Purus (3). Três indígenas morreram vítimas do corovírus no Amazonas. Eles são das etnias Kokama, Tikuna e Sateré-Mawé. A população indígena que mora nas áreas urbanas não são atendidas pelos distritos, por isso os dados de suas mortes não estão na estatística da Sesai. Leia aqui.

O risco da pandemia de gripe

Ruas comerciais de Gabriel da Cachoeira estão vazias por causa do coronavírus (Foto: João Claudio Moreira/Amazônia Real)

O médico do Dsei Guilherme Monção foi um dos últimos convidados da Foirn. Ele também é o profissional do Dsei referência no Comitê de Enfrentamento e Combate à Covid-19, criado pela prefeitura de São Gabriel. “O nosso medo é informação errada. Será que as informações que são repassadas estão corretas? A questão de fake news chega muito fácil para lá também”, esclarece.

No programa, Monção respondeu a várias dúvidas. Entre elas, qual a situação em Manaus e nas cidades da região do Alto Rio Negro, que abrange além de São Gabriel da Cachoeira, Barcelos e Santa Isabel do Rio Negro. Ele também conversou sobre a importância da prevenção, de lavar as mãos. Informou sobre os sintomas da doença, orientou profissionais da saúde, esclareceu sobre o isolamento social e reforçou a necessidade de não se cruzar a fronteira com Colômbia e Venezuela.

Guilherme Monção chegou recentemente a São Gabriel da Cachoeira, após ter ficado 40 dias no Alto Uaupés. Ele visitou cerca de 20 comunidades, algumas de difícil acesso e comunicação. E informa que, mesmo em localidades muito isoladas, há informação sobre a Covid-19 e que a “doença do branco” está chegando.

Indígena Tukano no rio Tiquié, no Alto Rio Negro (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

O médico explica que os indígenas têm a memória de outras doenças enfrentadas pelos pais ou avós, como o sarampo. “A gente sabe que qualquer infecção respiratória tem um impacto muito grande na comunidade indígena. Essa questão de imunidade, também da gripe, ela é passada até de uma geração para outra. Eles não estão preparados para essa enfermidade agora. Qualquer síndrome gripal pode levar a uma pneumonia. E a Covid, que é mais grave, a gente não sabe como vai ser. A gente está lutando para que não chegue”, disse Guilherme Monção.

O ideal, segundo o médico, seria o de se fazer o teste da Covid-19 em pelo menos em três situações: naquelas em que o paciente tem sintomas gripais e viajaram para algum lugar, nos últimos 14 dias, que tenha coronavírus; nos casos de sintomas gripais e contato com caso suspeito; nos pacientes com sintoma gripal que teve contato com caso confirmado.

Na análise dele, as comunidades indígenas devem receber maior atenção das autoridades e que é um risco se adotar testes apenas nos casos graves, como foi feito em Manaus e o sistema de saúde colapsou. “Nós não vamos conseguir controlar as comunidades. Porque a gente quer saber quais delas têm o coronavírus, quais não têm, quais a gente trabalha com isolamento de comunidade ou isolamento de paciente. A nossa realidade é diferente, é de comunidade indígena. É de difícil acesso, requer toda uma logística. A gente não pode ter essa dúvida”, diz o médico.

Por: Ana Amélia Hamdan
Fonte: Amazônia Real

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