Quilombos de Pernambuco, Amapá, Pará e Goiás já têm mortes por coronavírus

Otávio Nogueira/Uma Gota no Oceano

Comunidades tradicionais temem que avanço da epidemia no campo siga a tendência dos centros urbanos, com maior mortalidade entre os negros; moradores estão com dificuldade no cadastro para acesso à renda básica

“Cadê o álcool em gel? Cadê as máscaras gratuitas? Se depender do governo, iremos morrer” (Manuel dos Santos, quilombo Mumbaça, em Traipu, Alagoas, em entrevista ao site Alma Preta, no fim de março).

A previsão de Manuel dos Santos se confirmou: as comunidades quilombolas registraram, até a tarde desta quarta-feira (22), seis mortes relacionadas ao novo coronavírus. Os casos foram registrados em Pernambuco, Amapá, Pará e Goiás. Ao todo, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) registrou outros sete casos confirmados de Covid-19 e outros 29 que estão sendo monitorados por suspeita de contaminação.

Todas as mortes registradas são em comunidades diferentes. Uma das vítimas não está sendo identificada a pedido da família. Das outras cinco vítimas, apenas uma tinha mais de 60 anos. A vítima fatal mais jovem entre os quilombolas é Simone Paixão Moraes, de 29 anos, do Quilombo Espírito Santo, em Cacoal, no Pará.

A Conaq alerta para um alto grau de letalidade e subnotificação nas comunidades rurais negras. “Situações de dificuldades no acesso a exames e denegação de exames a pessoas com sintomas têm sido relatadas pelas pessoas das comunidades”, afirma, em nota.

A coordenação demonstra preocupação com a dificuldade de acesso ao sistema de saúde na maioria das comunidades, o que pode elevar a letalidade, e ao acesso à água, o que dificulta os cuidados preventivos para evitar o alastramento da pandemia.

COMUNIDADES NÃO CONSEGUEM ACESSAR RENDA BÁSICA Segundo a Conaq, integrantes de diferentes comunidades relataram a dificuldade de acesso à renda básica emergencial, especialmente no que toca à acessibilidade dos procedimentos de cadastramento via aplicativo e falta de ações dos governos estaduais e municipais no sentido de atender demandas emergenciais dos quilombos.

Dados do próprio Ministério da Saúde, divulgados na segunda semana deste mês, mostram um maior índice de letalidade provocada pelo Covid-19 entre os negros. Os dados, por enquanto, mostram uma situação mais ligada aos centros urbanos, onde a doença se espalha com mais velocidade. Desigualdade social e doenças relacionadas são apontadas como os principais motivos para o maior índice de mortes.

Em entrevista ao De Olho nos Ruralistas, o coordenador nacional da Conaq, Denildo Rodrigues de Moraes, o Biko, teme que as autoridades se preocupem mais com as cidades e deixem as comunidades rurais ainda mais esquecidas. “As comunidades já estão sentindo efeito na questão da comida”, diz. “Muitos territórios que não produziam agora necessitam da ajuda emergencial do alimento e do material de higiene que ainda não chegou a esse território”.

Ele conta que muitas comunidades estão reforçando o isolamento, principalmente as de maior interesse turístico, como em Paraty (RJ), Jalapão (TO), Vale do Ribeira (SP) e no Território Kalunga, que tiveram suas entradas cercadas. Além da pandemia, o temor é de aumento dos conflitos agrários, como tem acontecido com os indígenas. “Os conflitos tendem a aumentar, a exemplo de Alcântara, onde o Estado diz para as pessoas não saírem de casa e ao mesmo tempo pede para as pessoas saírem de suas terras”.

Por: Leonardo Fuhrmann e Bruno Stankevicius Bassi
Fonte: De Olho nos Ruralistas

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