Uma estrela Baniwa a brilhar no céu

Aldevan Baniwa, escritor e agente da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM), faleceu de Covid-19; ele havia denunciado a falta de testes para profissionais que estão na linha de frente

Em 2019, junto com pesquisadores do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas), Aldevan Baniwa, de 45 anos, natural de Tapuruquara, em Santa Isabel do Rio Negro, lançou o livro “Brilhos na Floresta”. Na história ilustrada como uma novela gráfica científica, Aldevan guia os pesquisadores brasileiros e japoneses pela floresta amazônica para mostrar como se encontra cogumelos e fungos luminosos (bioluminescentes) na escuridão da mata.

Aldevan Baniwa assina o livro “Brilhos na Floresta” no INPA. Ele incentivava os indígenas a escrever suas histórias|Arquivo pessoal

Hoje, que se celebra o dia do índio, 19 de abril, esse guerreiro Baniwa que estava na linha de frente da batalha contra o novo coronavírus em Manaus, brilha no céu. Infelizmente, após denunciar publicamente em sua página no Facebook as más condições de trabalho dos profissionais de saúde no Amazonas, Aldevan faleceu na UTI do Hospital Tropical. Sua morte ocorreu ontem às 15h, após ser removido do Pronto Socorro João Lúcio, local que há dois dias foi noticiado na mídia por deixar corpos de vítimas de Covid-19 ao lado de pacientes na enfermaria.

André Brazão, irmão mais velho de Aldevan, contou ao Instituto Socioambiental (ISA) que somente neste sábado (18/04) morreram quatro agentes de endemias em Manaus. André também trabalha na FVS, na mesma função exercida pelo irmão. “Ele estava há duas semanas se sentindo mal, gripado. Tomou um remédio, ficou melhor e voltou ao trabalho. Sábado passado piorou de novo, buscou atendimento em uma UBS, onde não fizeram teste de Covid-19 nele. Voltou para casa achando ser uma gripe forte”.

Segundo ele, Aldevan voltou logo depois à UBS, se sentindo muito cansado e com dificuldade de respirar. Ele foi encaminhado para o Hospital João Lúcio. Lá, fez chapa de raio-X e “viram muitas manchas no pulmão dele”, disse André. “Ele passou a sexta em observação no João Lúcio e neste sábado foi removido para a UTI do Hospital Tropical, onde veio a falecer”.

Denúncia e descaso Post feito por Aldevan em sua página no Facebook no último dia 14 de abril, ele denunciava a falta de testes de Covid-19 para os profissionais de saúde da linha de frente. O agente de endemias transcreveu as palavras de uma médica que fez um vídeo alertando para a dificuldade de se conseguir equipamentos de proteção.

Da esquerda para a direita, Aldevan, Kaina (filha), Sr. Aluísio, Noemia, Ana Carla, Rosalee, Wina (filha) Dona Joana (Mãe)|Arquivo pessoal

“Preciso passar o que está acontecendo e como estão tratando os profissionais da linha de frente e os tais kit’s que foram mandados pelo ministério para testar os profissionais de saúde. Esses kits não estão sendo usados para diagnosticar os profissionais (mesmo os mais expostos como nós), eles estão sendo usados para fazerem favores políticos. A questão que quero colocar pra vocês aqui é a seguinte, existem famílias e empresas milionárias por aqui, usar os testes que o ministério mandou para os profissionais de saúde, testar, proteger esses profissionais e seus pacientes, não gera lucro POLÍTICO! Atender aos conhecidos que financiarão campanhas eleitorais gera benefícios”, denunciou em sua página.

O médico Mário Vianna, presidente do Sindicato dos Médicos do Amazonas, também publicou um vídeo nas redes sociais ontem, em frente ao hospital 28 de agosto, um dos principais da capital, no qual pediu a intervenção federal no estado. “A situação é totalmente calamitosa no Amazonas. Há mais de um ano a gente denuncia a situação caótica da Saúde no estado. As pessoas estão morrendo na rua, na porta de hospital sem assistência. O estado não tem um comando e não tem coordenação de emergência. O sistema de contingenciamento não funciona e os profissionais da Saúde estão desesperados porque não sabem mais o que fazer. O Governo do Estado do Amazonas está agindo de forma criminosa”, denunciou Vianna.

Homenagem Aldevan tinha 45 anos, duas filhas jovens e esposa. Nasceu na localidade de Ilha da Oscarina, no interior profundo de Tapuruquara, no Médio Rio Negro, em Santa Isabel do Rio Negro. Seu pai é Baniwa e sua mãe Tukano, ambos do Alto Rio Negro, São Gabriel da Cachoeira.

Em novembro passado Aldevan estava muito feliz, conta a pesquisadora Noêmia Kazue Ishikawa, por ter feito o lançamento do livro “Brilhos na Floresta” na terra de origem de sua família. “Ele estava alegre porque com esse primeiro livro ele se tornou escritor. Ficou feliz de assinar os livros para as pessoas. Ele incentivava os indígenas a escrever suas histórias porque dizia que a gente eternizava nossas histórias ao fazê-las entrar nos livros”, disse Noêmia, lembrando de tantas tardes de sábado, no INPA, trabalhando com Aldevan e os pesquisadores Takehide Ikeda e Ana Carla Bruno nesta publicação.

Aldevan em desenho de Hadna Abreu na novela gráfica “Brilhos na Floresta” (editora INPA e Editora Valer)|Arquivo pessoal

“2019 é o Ano Internacional das Línguas Indígenas. Dedicamos este livro aos Povos Indígenas da Amazônia. 2019 kua acaiu internacional maku tá nheenga. Ia dedicari kua ita ressé Amazônia sui”, consta na abertura do livro, que foi feito em Português, Nheengatu e também Inglês e Japonês.

Ávido por conhecimento e falante de Nheengatu, Português e Inglês, Noêmia diz que esse seria apenas o primeiro livro feito em colaboração com Aldevan. Muito estudioso e interessado nos temas amazônicos e dos povos indígenas, “Brilhos na Floresta” foi a primeira publicação de um projeto mais amplo de colaboração entre os pesquisadores do INPA com o agente de endemias que os guiava pelas noites escuras na floresta.

Para se enxergar as luzes das folhas com os fungos bioluminescentes na floresta é preciso apagar as lanternas. “Vocês cientistas! Deveriam saber que nem tudo o que se procura, se encontra iluminando!”, disse Aldevan em trecho do livro. “Que ironia! Nunca tinha pensado nisso. Então se as florestas acabarem e só existirem cidades iluminadas, nem perceberemos que existem paisagens incríveis como esta, não é mesmo?”, disse o pesquisador Ikeda.

“Hoje é um dia marcado pra eternidade pra minha familia, Deus levou meu irmão Aldevan Baniwa, justamente seu enterro é no dia do índio talvez seja uma grande homenagem dos espíritos da floresta, quem o conheceu sabe que ele foi um grande defensor das causas indígenas e da sociedade menos favorecida. Sempre esteve no movimento dos ACE (agentes comunitários de endemias), buscando coisas boas para nossa categoria, quero lembrar dele como uma pessoa muito alegre e feliz! Obrigado todos os amigos do Brasil e do exterior que se sensibilizaram junto com a nossa família!”, escreveu André Brazão em sua página no Facebook. O enterro ocorre hoje a tarde no cemitério Parque Tarumã, sem a presença de familiares devido aos protocolos de segurança.

A liderança indígena Baniwa, André Fernando, ressaltou: “Aldevan Baniwa para mim e para meu povo Baniwa representou a luta pela vida de muitas pessoas atacadas pelo covid-19 no Estado do Amazonas, ele será lembrado assim, defensor da vida contra o coronavírus, e da vida de modo geral, já que era funcionário público do Estado Amazonas”.

Por: Juliana Radler
Fonte: ISA

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