“Lockdown é medida antecedente ao caos”, afirma secretário de Saúde do Maranhão

Estado passou a adotar a política a partir desta terça-feira (4) em quatro cidades responsáveis por 70% dos casos

Após decisão judicial determinando lockdown no Maranhão, governo local decidiu não recorrer – Divulgação / Governo do Maranhão

O governo do Maranhão passou a adotar, a partir desta terça-feira (5), a prática de lockdown de serviços não essenciais na Região Metropolitana da Grande São Luís. Autorizada pela Justiça, a política significa a suspensão de quase todas as atividades comerciais e altera regras para o trânsito de pessoas e veículos, com o objetivo de reduzir as contaminações por coronavírus. Este é o primeiro caso de bloqueio total no país após o início dos casos da doença.

A medida valerá, inicialmente, por 10 dias, mas pode ser estendida, de acordo com a dinâmica da pandemia. As regras valem para a capital, São Luís, e para as cidades de Raposa, Paço do Lumiar e São José de Ribamar.

O lockdown é uma medida mais rígida de contenção da doença e por isso impõe penalidades. No caso do Maranhão, aqueles que eventualmente descumprirem a decisão, podem sofrer advertência ou pagar multa.

Na noite de segunda-feira (4), o estado fechou o último boletim com um total de 4.530 pessoas infectadas pela covid-19 e uma marca de 271 mortos. A capital maranhense, por exemplo, está em 9º lugar no ranking de número de óbitos no país.

A autorização para a prática do lockdown foi solicitada à Justiça pelo Ministério Público do Estado do Maranhão e o governo local resolveu não contestar a liminar, expedida na última quinta-feira (30).

“Boa adesão da população às medidas preventivas adicionais que implantamos hoje na Ilha de São Luís. São 50 pontos de fiscalização e controle. No final do dia teremos uma avaliação mais precisa. Vale a pena o esforço, para que possamos voltar ao normal o quanto antes”, postou na manhã desta terça-feira (5) no Twitter, o governador Flávio Dino (PCdoB).

Dois dias antes da decisão judicial, a capital havia chegado aos 100% de ocupação dos leitos de UTI da rede pública estadual destinados ao tratamento de pacientes com covid-19.

Por conta disso, o secretário de Saúde do estado, Carlos Lula, disse ao Brasil de Fato que a situação do Maranhão é delicada e que o lockdown tende a ajudar a frear o aumento dos casos.

“É uma medida que a gente já vinha trabalhando e discutindo no comitê científico que elabora a política de saúde em que a gente se pauta, e a gente tinha certeza de que é uma medida profilática, uma medida ainda antecedente ao caos. Esses quatro municípios [alvos da medida] são responsáveis por mais de 70% dos casos que a gente tem no estado inteiro”, afirma o gestor, acrescentando que o governo criou mais de 700 leitos exclusivamente destinados aos casos da doença.

“E a gente continua ampliando leitos, mas a nossa capacidade de ampliação é reduzida em relação à capacidade de transmissão da doença, por isso também a gente precisa diminuir a curva [de casos]”, sublinha Carlos Lula.

Pela decisão da Justiça, permanecerão abertos no Maranhão apenas serviços como os de alimentação, saúde, postos de combustíveis, abastecimento de água e luz, coleta de lixo, imprensa, serviços funerários, telecomunicações, segurança, entre outros.

Brasil

A política de lockdown é defendida por diferentes especialistas e entidades da sociedade civil que atuam na área da saúde, como o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes). O analista de Políticas Sociais Rubens Bias, membro da entidade e servidor do Ministério da Saúde, afirma que a organização defende a adoção do bloqueio para todo o país.

“O Brasil atualmente tem se destacado negativamente no mundo em relação à quantidade de infectados, em relação à subnotificação e ao aumento de mortes. Enquanto, em todo o mundo, os números vêm sendo estabilizados ou controlados, aqui eles crescem, e isso vem preocupando todos e colapsando o sistema de saúde. Então, se mostra cada vez mais necessário ter uma medida mais dura pro enfrentamento à doença”, argumenta.

Para Bias, a iniciativa seria importante para tentar reverter a mudança de rota feita pelo país na condução do problema.

“No início da pandemia, o Brasil vinha adotando medidas corretas. A gente teve a sorte de observar outros países e a gente tinha tudo pra seguir tomando as medidas corretas. O problema foi que, com a adoção dessas medidas, a disputa político-partidária foi por um caminho em que a vida e a saúde das pessoas foram colocadas em segundo plano e agora estamos colhendo os resultados disso. Precisamos adotar agora algo mais duro, como o lockdown”, defende o analista.

No Brasil, a prática vem sendo cogitada em outros lugares. É o caso do Ceará, por exemplo, onde o governo pediu autorização à Justiça para estipular um bloqueio total das divisas e aprofundar o isolamento social, mas a solicitação foi negada na última sexta-feira (1), em meio ao intenso lobby de segmentos do empresariado local que pressionam pelo retorno geral das atividades comerciais e industriais.

Nesta quinta-feira (5), no entanto, o governador, Camilo Santana (PT) e o prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, anunciaram que a partir desta sexta (6) a capital irá proibir a circulação de pessoas, mas não usaram o termo “lockdown”.

Outros governos lidam com a possibilidade de adoção da política. No Rio de Janeiro, o governador Wilson Witzel (PSC), estuda uma proposta de implementação da medida em áreas consideradas mais críticas. A ideia partiu do comitê científico que assessora a gestão em meio à pandemia. Em Santa Rita, município da Paraíba, a prefeitura anunciou que pretende implantar o lockdown e busca apoio político para executar da medida.

Proliferação

O infectologista Leandro Lombo Bernardo, da Rede de Médicas e Médicos Populares, afirma que o distanciamento social favorece a contenção da doença porque diminui, por tabela, a liberação do vírus por parte de pessoas infectadas.

“É uma medida um pouco mais energética, radical, mas, do ponto de vista científico, a redução da circulação de pessoas acaba sendo eficaz. Não dá pra negar isso”, sublinha Bernardo.

Ele explica que o vírus causador da covid-19 é transmitido principalmente por gotículas e, às vezes, por geração de aerossóis que contêm partículas do vírus. “Quando ela entra em contato, ou quando a pessoa respira ou quando entra em contato com mucosas, como olho, por exemplo, acaba se dando a transmissão. E, às vezes, pode ser também por via indireta. Essas gotículas de aerossol ficam sobre superfícies e as pessoas têm contato com elas, levando depois a mão às mucosas e se contaminando”, esclarece o médico.

Por: Cristiane Sampaio
Fonte: Brasil de Fato

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