Atraso do governo em contratar brigadistas pode piorar cenário de queimadas em 2020

Equipe do PrevFogo em ação preventiva de queima controlada, no Parque Indígena do Xingu, em 2016. Foto: Vinícius Mendonça/Ibama

O trabalho de combater queimadas florestais não consiste apenas em apagar os incêndios. É também prevenir as chamas com ações como a queima prescrita e a criação de aceiros. A realização desse trabalho preventivo exige tempo e normalmente é realizada com alguma antecedência com relação ao período de seca, e é um dos motivos pelos quais o Ibama costuma iniciar a contratação das equipes de brigadistas a partir de abril. Este ano, entretanto, o edital de contratação das brigadas do PrevFogo, do Ibama, só saiu no dia 16 de junho e, no dia seguinte, uma nova portaria anulou o processo, invalidado por um erro no processo. Apenas nesta terça-feira (23), foi publicado – enfim – o edital que contratará 843 profissionais para as equipes do PrevFogo que atenderão as regiões norte, nordeste, centro-oeste e sudeste do país.

A época seca começa em meados de maio, com variações de acordo com a região, e é especialmente perigosa nos biomas Amazônia e Cerrado, onde costumam ser registrados os maiores incêndios, principalmente nos meses de agosto e setembro.

“O que está comprometido é o trabalho preventivo com as queimas prescritas, o combate não, porque o combate mesmo, para valer, vai ser julho, agosto e setembro. Agora o trabalho preventivo fica completamente comprometido, essas brigadas precisam ir para campo o mais rápido possível”, ressalta o ex-chefe de fiscalização do Ibama, Luciano Evaristo. “Sem as brigadas, principalmente a Amazônia e o Cerrado vão entrar em chamas incontroláveis. E o custo do combate é 10 mil vezes o custo da prevenção”, acrescenta o servidor, que se aposentou em fevereiro deste ano do órgão ambiental.

Luciano reforça que o atraso na contratação dos brigadistas pode comprometer todo o trabalho de prevenção, uma vez que as brigadas já deveriam estar em campo fazendo o trabalho de queima prescrita ou Manejo Integrado do Fogo. “Agora é a hora de fazer a queima prescrita e controlada, que é para diminuir o acúmulo de material biológico para evitar grandes incêndios. Essas brigadas têm que estar em campo queimando as áreas de entorno das unidades de conservação, das áreas indígenas, as áreas que estão com muito capim acumulado que pode levar à uma tragédia. Está atrasado demais”, pontua o ex-chefe.

Os aceiros são uma das estratégias de prevenção, em que os brigadistas fazem uma espécie de “faixa de proteção”, onde a vegetação é queimada e o combustível é eliminado, para que o fogo não avance para dentro de áreas mais sensíveis às chamas.

Em 2018, durante o Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação, ((o))eco conversou sobre o assunto com Christian Niel Berlinck, que coordenava a Prevenção e o Combate a Incêndios do Instituto Chico Mendes (ICMBio). Relembre no vídeo abaixo.

O governo federal, através de uma Portaria Interministerial assinada no dia 2 de junho pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e pelo secretário especial de Desburocratização, Gestão e Governo Digital, Paulo Spencer Uebel, autorizou a contratação temporária pelo Ibama de até 1.481 profissionais para “o atendimento de emergências ambientais”. Ainda assim, nos editais publicados nesta terça só estão disponibilizadas 843 vagas, ou seja, apenas 57% do que o órgão poderia contratar.

((o))eco tentou contato, sem sucesso, com a Assessoria de Imprensa do Ibama para esclarecimentos e para entender se essas contratações ainda serão feitas, já que o próprio órgão ambiental anunciou em nota oficial publicada no site do Ibama no dia 5 de junho, que seriam contratados de fato 1.481 brigadistas florestais. Na mesma nota, o texto detalha que “serão 41 brigadas em terras indígenas, 15 em assentamentos e três em comunidades quilombolas, além de 13 especializadas em diferentes biomas e cinco de acionamento imediato, prontas para atuar em qualquer lugar do país em até 24 horas. A efetivação se dará por meio da contratação de brigadistas que atuaram em anos anteriores”. Na nota não há explicações que justifiquem o atraso da contratação dos brigadistas.

“O desmatamento aumentou bastante então é sinal de que vem um fogo aí pesado, em razão da finalização do processo de uso do solo, da consolidação das áreas roubadas pela grilagem. O programa de brigadas federais é o que sustenta o controle das queimadas, não vai ser a Operação Verde Brasil 2 que vai segurar queimada na Amazônia não. O que segura as queimadas na Amazônia é o trabalho de prevenção e combate à incêndios florestais feito pelo PrevFogo, principalmente nas Terras Indígenas”, alerta o ex-chefe do Ibama.

De acordo com Nota Técnica publicada pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), no início de junho, existe uma área desmatada de pelo menos 4.500 quilômetros quadrados na Amazônia já pronta para queimar. E as chamas podem consumir até 9 mil quilômetros quadrados caso o desmatamento avance ainda mais nos próximos meses.

Por: Duda Menegassi
Fonte: O Eco

Deixe um comentário