Indígenas de Roraima não aceitam transferência de doentes para o Amazonas

Nas terras indígenas de Roraima, assistidas pelo Dsei/Leste, lideranças indígenas dizem que não há testes para todos

Dionito José de Souza, 52 anos, ex-coordenador do Conselho Indígena de Roraima (CIR), em pé, durante reunião na TI Raposa Serra do Sol. Crédito da foto: Arquivo Cimi

“Não aceitamos que os indígenas de Roraima sejam mandados para tratamento da covid-19 no Amazonas. Somos totalmente contra”, enfatizou Enoque Raposo, coordenador do Conselho Indígena de Roraima (CIR). A reação aconteceu diante da possibilidade anunciada pelo Governo Estadual de Roraima, no último dia 14, segundo o qual a medida ocorre devido ao colapso na saúde pública do estado. O Hospital Geral de Roraima (HGR) está com a capacidade esgotada e com pacientes à espera de vagas.

“Estamos vivendo um governo desastroso. Não tem capacidade de gestão e de administração”, critica o coordenador do CIR. Ele denuncia ainda a lentidão na inauguração do Hospital de Campanha. “A inauguração não sai por causa dos acertos que tem que ser feitos para as coisas saírem”, diz Enoque.

Segundo ele, a atuação da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) deixa muito a desejar. Ele observa que o órgão foi criado para ser o braço forte dos indígenas nos momentos difíceis: “tanto quanto o Dsei (Distrito Sanitário Especial Indígena) Leste não apresenta um plano emergencial palpável nesse momento de perdas. Não fazem, de fato, as coisas acontecerem respeitando a nossa realidade”, enfatiza Enoque Raposo.

Perdas

Dionito José de Souza, 52 anos, ex-coordenador do Conselho Indígena de Roraima (CIR) entre 2006 e 2011, faleceu no último dia 15 de junho na aldeia São Mateus. Ele era coordenador do CIR em 2009, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou a homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol após julgar ações que questionavam o Decreto de Homologação assinado em 2005 pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Nas últimas semanas, outras lideranças indígenas faleceram em meio à pandemia da covid-19. Nas terras indígenas de Roraima, assistidas pelo Dsei/Leste, lideranças indígenas dizem que não há testes para todos.

Os dados levantados pelo Comitê Nacional pela Vida e Memória Indígena, até o 13 de junho passado indicavam, na região norte, o Estado de Roraima tinha 33 óbitos contra 139 do Amazonas, e 55 do Pará. No total foram 281 mortes confirmadas em todo o território nacional até p final da segunda quinzena de junho.

De acordo com levantamento da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), o número de indígenas infectados em Roraima é de 230. O número de casos e a ocorrência de óbitos entre indígenas vêm aumentando desde a primeira semana de junho.

Mário Nicácio, vice-coordenador da Coiab e ex-coordenador do CIR, suspeita que esse aumento tem como causa a entrada de servidores do Dsei/Leste infectados, tal como aconteceu em outras terras indígenas do Brasil. Das mortes desde o agravamento da pandemia em Roraima, oito eram professores, entre os quais Fausto Mandulão – liderança que teve papel importante na organização dos professores e professoras indígenas da Amazônia.

“Na aldeia Pium, na região da Serra da Lua, nós fizemos barreiras e só deixávamos as pessoas passarem depois da realização de teste”, explica Mário Nicácio, acrescentando que os servidores do Dsei não foram testados e muitos, depois, fizeram os testes e apresentaram confirmação positiva para a covid-19.

Falta integração

Para Mário Nicácio, o fato do Dsei/Leste e dos municípios não atuarem de forma integrada para atender os indígenas nas aldeias é um complicador. “O Distrito tem muita resistência em apoiar, em estar nas aldeias”, diz Mário Nicácio.

De acordo com levantamento feito pelas lideranças indígenas de Roraima, os locais com maior foco de infectados agora são as terras indígenas Raposa Serra do Sol e Serra da Lua. Em alguns lugares, os indígenas tiveram que abandonar as barreiras sanitárias em razão do grande número de pessoas doentes.

Para o enfrentamento da pandemia, lideranças indígenas estão buscando apoio junto a organizações de fora do Brasil para aquisição de equipamentos de proteção individual, como máscaras e luvas, testes, produtos de higiene e alimentos. “Estamos realizando uma campanha em âmbito internacional, com apoio da Coiab e Coica (Coordinadoria de las Organizaciones Indigenas dela Cuenca Amazonica), para adquirir alimentos e equipamento hospitalar”, diz Nicácio.

Uma das iniciativas urgentes, de acordo com Nicácio, por parte dos órgãos governamentais, é a instalação de unidades de atenção primária, para que os indígenas possam fazer os testes sem ter que se deslocar para a cidade de Boa Vista.

Por: J. Rosha
Fonte: Cimi

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