Indígenas Tupinambá do Baixo Tapajós acumulam incertezas na pandemia

Lideranças relatam que atenção médica é insuficiente e faltam remédios para os doentes (Foto: Instagram Cita)

Enquanto lutam por atenção médica e por reconhecimento de seu território, os indígenas Tupinambá que habitam a Reserva Extrativista (Resex) Tapajós-Arapiuns, em Santarém, no oeste do Pará, contam os mortos pela Covid-19. Segundo o Cacique Braz Tupinambá, presidente do Conselho Tupinambá do Baixo Tapajós, oito indígenas da etnia faleceram com sintomas da Covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus, até o momento. O cacique afirma que não foram realizados testes nos indígenas Tupinambá falecidos, apenas em pessoas de suas famílias. “Fizeram nos parentes e em todos deu positivo”, relata Braz à Amazônia Real.

O número difere do apresentado pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Guamá-Tocantins, órgão subordinado a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde.

Segundo o Dsei Guamá-Tocantins, até o momento ocorreram 2 óbitos de indígenas por Covid-19 na região atendida no Polo Santarém. O Dsei não especifica se estes mortos são Tupinambá.

O cacique Braz conta que percorreu as 20 aldeias do território no início de junho, em meio à pandemia, para ver de perto a dimensão da contaminação pelo novo coronavírus entre os indígenas. “Fiz uma viagem de quatro dias no território Tupinambá. Segundo o relato de 19 aldeias, apenas uma não foi infectada. Jacaré não foi infectada. Mas todas as outras aldeias foram”, relata o cacique Braz. “Vi muito desespero da população indígena em nosso território.”

Na estimativa de Braz Tupinambá, feita com base nos relatos das lideranças, quase 80% das pessoas de todas as aldeias apresentaram sintomas semelhantes aos de uma gripe. “Chamam gripão lá dentro.”

Segundo o Cacique Braz, os oito Tupinambá que faleceram, até o momento, com sintomas da Covid-19 são: Amadeu Tupinambá (Aldeia Jaca), Maria Tupinambá (Aldeia Jauarituba), Basílio Tupinambá (Aldeia Paricatuba) Marcelino Tupinambá (Aldeia São Francisco), Lourival Tupinambá (Aldeia São Francisco), Zito Tupinambá (Aldeia São Caetano), Luiza (Aldeia Marabaixo), Raimundo Tupinambá (Aldeia Pajurá).

Desassistência e testes para coronavírus

Moradores da Resex Tapajós-Arapiuns, em Santarém (Foto: CITA)

Na Resex Tapajós-Arapiuns existem vinte aldeias do povo Tupinambá, além de aldeias dos povos Munduruku, Apiaká, Borari, Maytapu, Cara Preta, Kumaruara, Arapium, Jaraqui, Tapajó, Tupaiu e Arara Vermelha e comunidades ribeirinhas tradicionais. A Resex fica na região conhecida como Baixo Tapajós, no ponto de encontro entre os rios Tapajós, Arapiuns e Amazonas. São cerca de 4.581 famílias entre indígenas e não indígenas, segundo dados do ICMBio de 2012. Os Tupinambá demandam que o Estado brasileiro reconheça as aldeias como Terra Indígena, e estão desde 2017 trabalhando na autodemarcação de seu território.

No Brasil, a Sesai atende a uma população de 760.350 indígenas através de 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei). Na Amazônia Legal, são 25 Dsei’s que dão assistência para uma população de 433.363 pessoas.

Embora exista atendimento por parte da Sesai e da Secretaria Municipal de Saúde de Santarém (Semsa), os indígenas Tupinambá relatam falta de testes, dificuldade de comunicação e atendimento médico aquém do necessário. Eles dizem que existem duas equipes de saúde indígena do Dsei Guamá-Tocantins atendendo na região.

“Se não tivéssemos isso, estaríamos pior ainda: desassistidos. E o que nós temos até agora, não é o que é para ser de fato e de direito. Todos os outros Dseis têm posto de saúde, agente de saúde, agentes sanitários. E nós não temos nada disso aqui. Queremos ser assistidos de fato e de direito, como merecemos”, afirma Luana Kumaruara, indígena do Baixo Tapajós e Conselheira Distrital de Saúde Indígena no Distrito Sanitário Especial Indígena Guamá-Tocantins.

Enquanto as equipes de saúde tardam a ir ao território, os indígenas precisam recorrer ao que têm nas mãos. “As pessoas estão sobrevivendo do remédio da terra, da floresta, remédio caseiro: muito cumaru, andiroba, leite de sucuúba, copaíba. Isso que está curando eles lá”, conta Cacique Braz.

O reforço na alimentação é visto com bons olhos por médicos e especialistas, principalmente como forma de fortalecer o organismo para enfrentar a Covid-19. Mas ainda não há indícios científicos de que os remédios da floresta citados pelo cacique Braz possam, de fato, curar as pessoas acometidas pela doença.

Raquel Tupinambá, jovem cineasta e liderança indígena, afirma que até mesmo encontrar informações confiáveis é uma luta diária. “A internet não está em todas as comunidades. Apenas em alguns pontos. E agora na época de chuva é ainda mais difícil”, diz a jovem, acrescentando que só nos poucos locais com telefone rural é que se descobre o que de fato está acontecendo.

Ela narra a morte de Luiza Tupinambá, pajé da Aldeia Marabaixo, que está entre as citadas pelo Cacique Braz. “Ela veio a óbito na aldeia. Quando voltou daqui [da cidade] ela adoeceu e voltou com todos os sintomas. Falaram que o barco que faz linha para lá, o dono do barco deu positivo para Covid-19, e ela teve contato com ele”, afirma Raquel.

Tia de Raquel, Albânia Maria Farias Tupinambá é diabética. Com sintomas de Covid-19 e elevado nível de glicose no sangue, ela foi transferida junto com o marido, que também apresentava sintomas da doença, pela Sesai para Santarém, no dia 13 de maio.

Com sintomas leves, Albânia foi levada para casa de parentes em Santarém. Já seu marido passou três dias na Unidade de Pronto Atendimento (UPA), além de mais quatro dias no hospital de campanha de Santarém, antes de ser liberado para terminar o tratamento em casa. Ambos estão recuperados.

“Várias pessoas [no território Tupinambá] morreram com os sintomas de cansaço, tosse, febre, enjoo, perda do paladar. E como não tem ninguém que possa fazer teste rápido, o centro de saúde atende”, diz Albânia, relatando o que viu no território antes de ser trazida para a cidade de Santarém. Albânia e seu marido foram testados na sede do município de Santarém, mas os dois se viram às voltas com diferentes resultados, causando confusão no atendimento. “O primeiro teste deu positivo, e o segundo deu negativo, mas depois foi confirmado”, diz ela.

A indígena relata que não havia material de saúde suficiente nas aldeias, deixando os Tupinambá sem remédios: “então foram tomando remédio caseiro, e ficando lá mesmo na comunidade. E várias pessoas faleceram, mais ou menos seis ou sete pessoas, com esses sintomas, sem ser repassada para a secretaria de saúde a informação, porque não tinha como fazer o teste.” Albânia se refere aos mesmos mortos citados pelo Cacique Braz no início desta reportagem.

Pressão para salvar vidas

Covid-19 na Resex Tapajós Arapiuns (Foto_Tapajoara)2
Crianças da Resex Tapajós-Arapiuns (Foto: Tapajoara)

Luana Kumaruara, indígena que ocupa o cargo de Conselheira Distrital do Pólo Santarém junto ao Dsei Guamá-Tocantins, é nascida na Aldeia Solimões, do povo Kumaruara, às margens do rio Tapajós, na Resex Tapajós-Arapiuns.

Para Luana, “a equipe [de saúde] só entrou em área depois que teve muita morte e a pressão aumentou”, diz a liderança indígena, referindo-se às mortes confirmadas que aconteceram entre os Tupinambá.

Ela traça um histórico da implantação do atendimento à Saúde Indígena na região: “a nossa demanda, de vinte anos do movimento indígena, sempre foi por instaurar um Dsei aqui [no Baixo Tapajós], devido ao tamanho da população indígena aqui. Foi criado o Dsei Tapajós só para o Médio e Alto Tapajós”.

Segundo Luana, a precariedade do atendimento pela Sesai é decorrente da maneira como a região do Baixo Tapajós foi inserida em um Distrito Sanitário já existente, o Dsei Guamá-Tocantins.

“Se você olhar no mapa como está distribuído o Dsei Guamá-Tocantins, é uma loucura: são muitas representações, difícil de demandar, e uma realidade totalmente diferente das outras regiões que estavam lá. E foi quase o dobro [de gente]. O Dsei Guamá-Tocantins já atendia de 7 a 8 mil indígenas. E, agora, incorporar a gente, que somos também 7 mil… É a maior justificativa que tem. Nós temos números suficientes para ter um próprio Dsei. Temos até indígenas mesmo para administrar o Dsei”, explica Luana.

Luana Kumaruara se refere à vasta área de atendimento do Dsei Guamá-Tocantins, que, segundo dados do próprio órgão, atende indígenas de 16 municípios do Pará (Santa Luzia, Tomé Açu, Aurora do Pará, Paragominas, Baião, Mojú, Tucuruí, Goianésia do Pará, Itupiranga, Jacundá, Bom Jesus do Tocantins, São Geraldo do Araguaia, Parauapebas, Canaã dos Carajás, Oriximiná e Óbidos) e um no estado do Maranhão (Centro Novo do Maranhão).

Em 2015, no momento em que o Baixo Tapajós foi incorporado à área de atuação do Dsei Guamá-Tocantins, este atendia a uma população indígena de 8.844 pessoas, distribuídas em 09 Pólos Bases, 94 aldeias, e composta por 29 etnias (Atikun, Assurini, Anambé, Amanayé, Gavião, Guajajara, Guarani, Hixkariana, Katuena, Kaapor, Karajá, Kaingang, Kaxuyana, Kayapó, Munduruku, Parakanã, Suruí, Tembé, Timbira, Tiryó, Tunayana, Wai Wai, Wapixana, Waiapi, Wayana, Xerente, Xeréw, Xikrin e Zoé).

Os cerca de 7 mil indígenas do Baixo Tapajós que demandavam atendimento especial à saúde indígena e que passaram a ser atendidos pelo Dsei Guamá-Tocantins são 2.500 famílias indígenas, de 13 povos distintos. São eles: os Tupinambá, os Tupaiú, os Arapium, os Tapajó, os Maró, os Kumaruara, os Borari, os Munduruku, os Munduruku da Cara Preta e os Maitapu, os Arara Vermelha, os Jaraqui e os Apiacá. Estes povos estão distribuídos entre a Resex-Tapajós Arapiuns (margem esquerda do Tapajós), no Planalto Santareno (margem direita do Tapajós) e na cidade de Santarém.

Os povos indígenas do Baixo Tapajós vivem em 70 aldeias entrecortadas por rios e igarapés, em áreas de difícil acesso para quem vem da cidade de Santarém, podendo levar uma noite inteira de viagem em barcos abarrotados de pessoas, mercadorias e animais. O atendimento médico nas aldeias é precário. Apenas na cidade existem hospitais dotados de UTIs e respiradores para o tratamento dos casos mais graves de Covid-19.

Em 2015, a Justiça Federal decidiu, em caráter de urgência, acatar a ação civil pública do Ministério Público Federal garantindo aos indígenas acesso a atendimento diferenciado pela Sesai.

De acordo com o relatório da Sesai ao qual à Amazônia Real teve acesso, sobre a incorporação dos indígenas do Baixo Tapajós ao Dsei Guamá-Tocantins, lê-se, sobre a necessidade de ampliação de recursos e equipes para para atender este novo contingente de indígenas à uma estrutura já existente. No relatório, está prevista a “contratação de 06 equipes multidisciplinar (6 enfermeiros, 12 técnicos de enfermagem, 03 odontólogos, 02 assistentes sociais, 02 nutricionistas, 01 psicólogo, 01 farmacêutico)”.

O próprio relatório da Sesai alerta que “para que o atendimento ocorra o Dsei Guamá Tocantins necessita atualização orçamentária e financeiras, alem (sic) de ampliação de contratos, a fim da estruturação do Polo Base Santarém, para realizar o atendimento a Saúde deste (sic) Povos com qualidade e garantia de direitos pautados nos princípio do SUS, caso contrários tal situação geraria desassistências as (sic) Povos sob jurisdição deste Dsei”.

Segundo Luana Kumaruara, que acompanhou de perto todo esse processo, apenas neste ano é que duas equipes foram deslocadas para região do Baixo Tapajós, número inferior às seis equipes recomendadas pelo relatório. “A equipe teve posse em fevereiro deste ano. E em março começa a pandemia. Era uma equipe que desconhecia a nossa realidade. A sorte é que tem parentes indígenas compondo essa equipe. Essas equipes começaram a entrar em área para fazer esse monitoramento: diarreia, desnutrição, vacina. Essas coisas de atendimento básico”, relata Luana.

Por esse pouco tempo de atuação das equipes de saúde do Dsei, Luana relata que as equipes ainda estavam sem estrutura quando começou a pandemia. Luana afirma que começaram “a fazer videoconferências com o MPF [Ministério Público Federal]. A equipe [do Dsei] trazia demanda para mim, enquanto conselheira distrital. Diziam para mim, que não tinham estrutura. Reclamavam: ‘até os EPIs que estão dando para gente, é de muita má qualidade’. E que podia colocar a vida deles em risco”

Luana avalia que “além da equipe ser reduzida, a equipe foi contaminada. Gente entrando em área que teve que se afastar. Ou seja, tem uma equipe reduzida, e agora enxuta”. A indígena fala ainda da falta de testes: “eles entravam com onze testes, para fazer um teste em cada aldeia. Mas era isso, o DSEI não tinha teste”.

Luana Kumaruara também faz parte do Conselho Indígena dos Povos dos rios Tapajós e Arapiuns (Cita). Ela relata que após a pressão do Conselho “conseguiram , 8 mil teses para todo o Dsei Guamá-Tocantins, e 2 mil testes foram direcionados para cá. Essa semana chegaram os testes, os barcos, e está previsto para chegar mais duas equipes em Belém”.

Sobrevivendo com cestas básicas

organização da resex tapajos arapiuns (facebook)2
A ação humanitária na Resex Tapajós-Arapiuns (Foto: reprodução)

Com os territórios degradados pela ação de madeireiras ilegais, pelo avanço da monocultura de soja sobre a floresta amazônica e o garimpo ilegal, os indígenas do Baixo Tapajós hoje têm dificuldade em se alimentar exclusivamente com o que provém de seus próprios territórios. Por isso, a importância da doação de cestas básicas, para impedir que venham à cidade em busca de alimentos.

Auricélia Fonseca, indígena do povo Arapium e uma das coordenadoras do Conselho Indígena dos Rios Tapajós e Arapiuns (Cita), relata um quadro complexo, e de apoio governamental falho: “O governo do [estado do] Pará doou 500 cestas. Do governo do Estado chegou todas. [Mas] isso é insuficiente, somos 2.500 famílias indígenas. Por isso continuamos a fazer vaquinha, arrecadação de dinheiro e até recebemos de pessoas que compram cesta direto do supermercado”, relata Auricélia.

Auricélia explica que o Cita tem se organizado para arrecadar dinheiro e alimentos: “Temos dado apoio com as cestas básicas, materiais de higiene. Temos ido aos territórios. Pois através de nós, temos conseguido fazer campanhas de arrecadação. Nós temos feito o que o governo não faz. Não é nosso ofício fazer isso, mas a gente está fazendo”.

Outro questionamento levantado por Auricélia diz respeito à ausência de testes na população indígena. “A Sesai não tem como fazer teste. Pois só faz testes nos mais graves. Mas o que são os mais graves?”, pergunta ela.

É por isso que o conselho indígena tem se organizado para monitorar ativamente a situação, e montar a suas próprias estatísticas, em contato direto com as 70 aldeias.

“Os parentes têm feito relatos muito impressionantes, parentes morrendo nos postos de saúde, morrendo nos barcos e contaminado muito mais gente. Todo dia temos relatos de mortes. Nossos mais velhos estão morrendo, nossa sabedoria ancestral está indo embora”, lamenta Auricélia Fonseca

Ela avalia que um vetor da disseminação do vírus nas aldeias é a saída e o retorno constante dos indígenas para os bancos na cidade de Santarém. “O auxílio emergencial (de 600 reais) é bom, mas ele não foi pensado pra gente. As pessoas se submetem a vir para cidade comprar mantimentos, passar noites na fila da Caixa [Econômica Federal], se expondo ao vírus e a outras violências urbanas.”

“As políticas não são pensadas para nós. As poucas políticas de combate à Covid-19 são pensadas para população urbana. As populações indígenas, quilombolas e os povos tradicionais são os que mais estão sofrendo”, afirma Auricélia.

Com os territórios degradados pela ação de madeireiras ilegais, pelo avanço da monocultura de soja sobre a floresta amazônica e o garimpo ilegal, os indígenas do Baixo Tapajós hoje têm dificuldade em se alimentar exclusivamente com o que provém de seus próprios territórios. Por isso, a importância da doação de cestas básicas, para impedir que venham à cidade em busca de alimentos.

Auricélia Fonseca, indígena do povo Arapium e uma das coordenadoras do Conselho Indígena dos Rios Tapajós e Arapiuns (Cita), relata um quadro complexo, e de apoio governamental falho: “O governo do [estado do] Pará doou 500 cestas. Do governo do Estado chegou todas. [Mas] isso é insuficiente, somos 2.500 famílias indígenas. Por isso continuamos a fazer vaquinha, arrecadação de dinheiro e até recebemos de pessoas que compram cesta direto do supermercado”, relata Auricélia.

Auricélia explica que o Cita tem se organizado para arrecadar dinheiro e alimentos: “Temos dado apoio com as cestas básicas, materiais de higiene. Temos ido aos territórios. Pois através de nós, temos conseguido fazer campanhas de arrecadação. Nós temos feito o que o governo não faz. Não é nosso ofício fazer isso, mas a gente está fazendo”.

Outro questionamento levantado por Auricélia diz respeito à ausência de testes na população indígena. “A Sesai não tem como fazer teste. Pois só faz testes nos mais graves. Mas o que são os mais graves?”, pergunta ela.

É por isso que o conselho indígena tem se organizado para monitorar ativamente a situação, e montar a suas próprias estatísticas, em contato direto com as 70 aldeias.

“Os parentes têm feito relatos muito impressionantes, parentes morrendo nos postos de saúde, morrendo nos barcos e contaminado muito mais gente. Todo dia temos relatos de mortes. Nossos mais velhos estão morrendo, nossa sabedoria ancestral está indo embora”, lamenta Auricélia Fonseca

Ela avalia que um vetor da disseminação do vírus nas aldeias é a saída e o retorno constante dos indígenas para os bancos na cidade de Santarém. “O auxílio emergencial (de 600 reais) é bom, mas ele não foi pensado pra gente. As pessoas se submetem a vir para cidade comprar mantimentos, passar noites na fila da Caixa [Econômica Federal], se expondo ao vírus e a outras violências urbanas.”

“As políticas não são pensadas para nós. As poucas políticas de combate à Covid-19 são pensadas para população urbana. As populações indígenas, quilombolas e os povos tradicionais são os que mais estão sofrendo”, afirma Auricélia.

O que dizem as autoridades?

Em tempos de pandemia a ação de solidariedade na Resex Tapajós-Arapiuns (Foto: CITA)

Procurado pela reportagem, o coordenador do Dsei Guamá-Tocantins, Stanney Everton Nunes, disse, em nota, que “para o enfrentamento da Covid-19, além de adotar todas as medidas de prevenção e controle orientadas pela Sesai/MS e intensificar as ações nas aldeias de orientação nas aldeias, uma das estratégias utilizadas pelo Dsei Guamá Tocantins para a assistência dos casos suspeitos/confirmados de Covid-19 é a atuação de equipes de Resposta Rápida em locais estratégicos”.

Stanney Everton Nunes afirmou que “outra estratégia de enfrentamento adotada pelo Dsei Guamá-Tocantins foi a implementação de Unidades de Atenção Primária à Saúde Indígena – UAPI em aldeias com indígenas testados positivos para Covid-19”.

Acerca dos testes e casos informados pelos Tupibambás, a nota do Dsei utiliza números diferentes dos relatos do Cacique Braz. Consta na nota: “Hoje no Polo Base de Santarém temos 14 indígenas notificados com testagem positiva para Covid-19, onde destes 08 já se encontram recuperados em cura clínica. No Polo Base [de Santarém, que atende aos Tupinambá e aos outros povos do Baixo Tapajós] ocorrem 02 óbitos confirmados por Covid-19”. A dissonância entre os números do DSEI e o relato de Cacique Braz podem indicar subnotificação, fenômeno que ocorre amplamente no Brasil.

O Ministério Público Federal do Pará declarou, por meio de nota da assessoria de imprensa, que: “ao passo que o MPF reconhece o esforço que vem sendo empreendido pelo Dsei Guamá-Tocantins, com muita dedicação de seus integrantes, também não se pode se pode desconsiderar que os efeitos avassaladores que sofrem os indígenas diante dessa pandemia justificam a sua expectativa para que seja feito ainda mais. O Estado brasileiro tem o déficit enorme para com os direitos dos povos indígenas do Brasil, o que fica muito claro no atual momento”.

Na nota, o MPF afirma que “exigiu testagem dos indígenas, bem como disponibilização de equipe e equipamento de proteção individual adequados. Entendemos que, apesar dos esforços do DSEI, o quadro atual ainda não é satisfatório e continuaremos exigindo melhorias.”

Já a secretária municipal de saúde de Santarém, Dayane da Silva Lima, declarou à agência Amazônia Real que “a primeira atitude que a Secretaria de Saúde fez foi criar um plano estratégico para o enfrentamento a Covid-19 nas regiões do Tapajós e Arapiuns. São unidades de saúde pólo para atender os pacientes com suspeita de Covid-19”. Segundo a secretária, as unidades básicas de saúde que foram tornadas pontos de referência para atendimento à Covid-19 são: Parauá, Anumã e Boim (cobrindo baixo, médio e alto Rio Tapajós) e São Pedro, Prainha do Maró, São Miguel e Cachoeira do Aruã (cobrindo baixo, médio e alto Rio Arapiuns).

A secretária afirmou que o órgão elaborou um protocolo para, a partir do momento que a pessoa apresentar os sintomas, o enfermeiro já tem a orientação do que fazer com o paciente.

“Se o paciente chega com 92% abaixo, a enfermeira já indica a remoção dele para a cidade para já realiza a tomografia”. A reportagem da Amazônia Real questionou a secretária, dizendo que este procedimento poderia aumentar o índice de contaminação nos barcos. Dayane da Silva Lima respondeu então “temos a remoção de pacientes graves com saturação menor do que 90%, chama-se as ambulanchas e helicóptero”.

Até nesta segunda-feira (15), a Secretaria de Saúde do Estado do Pará (Sespa) registrou 1.561 casos confirmados de Covid-19 e 144 mortes.

Primeiro caso foi indígena Borari

Lusia dos Santos Lobato (Foto: Associação Indígena Borari de Alter do Chão)

Em Santarém, foi registrada a primeira morte por coronavírus no Pará, em 19 de março. Lusia ?dos? ?Santos? ?Lobato, uma liderança indígena do povo Borari, morava no distrito de Alter do Chão, um dos destinos turísticos mais visitados da Amazônia. Diversas cidades do interior do Pará tornaram-se locais de alta incidência de contaminação pelo novo coronavírus.

No início de maio, o médico João Assy relatava uma dinâmica conhecida na região: pequenos comerciantes de comunidades distantes que viajam à cidade para comprar mantimentos. Assy receava que com o porto fluvial mantido em funcionamento podia estar havendo uma dispersão do vírus para o interior. “O porto continua como se não tivesse nada”, afirma Assy.

A previsão de Assy parecia estar correta e, um mês depois, foi possível observar as consequências daquele vai-e-vem. A dispersão do novo coronavírus para regiões de mais difícil acesso no oeste do Pará já é realidade. Hoje, Assy confirma que “tem recebido muita gente dos interiores”, em meio ao aumento da pressão sobre o sistema de saúde, médicos e enfermeiros.

Rio Arapiuns, em Santarém, no Pará (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Por: Fábio Zuker
Fonte: Amazônia Real

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