Seguranças da Vale agridem agricultores no Pará; 20 pessoas ficaram feridas

Segundo liderança do acampamento, cerca de 70 homens atiraram contra trabalhadores, mulheres e crianças

Trabalhador do acampamento em Nova Carajás exibe marcas das agressões – Arquivo/Fetraf

A noite do último domingo (21) foi de terror para moradores de uma comunidade localizada em Nova Carajás, no município de Parauapebas, no Pará. Isso porque cerca de 70 segurança da Vale atiraram contra trabalhadores, mulheres e crianças por volta das 18h. Com o ato, aproximadamente, 20 pessoas ficaram feridas.

O acampamento onde moram 248 trabalhadores fica em uma área conhecida como Fazenda Lagoa, uma área reivindicada pela mineradora. Viviane Oliveira, liderança da Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar do Estado de Pará (Fetraf) explica que as famílias tentam há anos que o local possa ter direito à energia elétrica, mas todos os pedidos foram adiados pela Vale e as pessoas seguiram sem energia.

‘’Nós passamos o dia na chamada Fazenda Lagoa. É uma área de jurisdição da Vale. Ela diz que ela é proprietária dessa área, diz que há um questionamento. É uma área de perímetro urbano, fica bem próximo da cidade mesmo. Questão de metros de distância. E essas famílias têm mais de quatro anos que moram lá”, explica.

As famílias vivem em chácaras onde produzem alimentos para venda e subsistência. O entrave é que há anos eles tentam conseguir energia elétrica para a área mas, segundo a liderança, as várias promessas feitas pela Vale não foram cumpridas.

Assim, no último domingo (21), os trabalhadores, por conta própria, tentaram puxar a energia de forma independente. Segundo Oliveira, o processo durante o dia foi totalmente pacífico, inclusive, a Polícia Militar (PM) e os seguranças da Vale estiveram no local pela parte da manhã informando os trabalhadores de que a autorização para levar energia até a comunidade seria concedida e na parte da tarde houve mais um diálogo com funcionários da Vale dizendo que a energia seria garantida.

“Nós ficamos totalmente confiantes. Quando foi 18h, 19h fomos fazer a assembleia geral com o povo. Já estava terminando a fase de puxar a energia: os postes todos colocados, fiação. Estávamos agradecendo o povo pela luta, dizendo que aquela era uma conquista do povo pela energia, mesmo sendo um direito de todos às vezes você é obrigado a fazer luta. Daí vieram os tiros. Como à noite não tinha energia, 18h, 19h já é uma escuridão imensa na zona rural. Então, era fogo para tudo quanto que é lado. Tinham muitas crianças, muitos idosos, muitas mulheres, muita gente vulnerável e eles atirando, atirando. Resumindo: eles torturaram todos os trabalhadores que estavam lá. São mais de 20 pessoas feridas”, conta.

As imagens mostram marcas de balas de borracha no corpo e rosto de diversos trabalhadores. Apesar da violência, Oliveira conta que não é a primeira vez que a Vale age com essa truculência contra os trabalhadores.

“Energia é um direito de todos. A Vale ontem colocou mais de 70 homens para atirar nos trabalhadores, para aterrorizar a vida dos trabalhadores e isso é uma injustiça e não é a primeira vez que a Vale faz isso. Ela fez isso outra vez na Fazenda São Luiz com trabalhadores nossos também e até hoje eles pagam um preço muito grande por um processo de saúde, bala dentro do corpo ainda. E quem pagou a culpa? Foram os próprios trabalhadores que até hoje estão pegando cesta básica por um processo criminoso da Vale que passa a mão na cabeça deles”.

A Vale contradiz os trabalhadores. Por meio de nota, a mineradora afirmou que “sua equipe de segurança foi recebida a tiros de arma de fogo por um grupo de aproximadamente 40 pessoas que ocupam irregularmente área de propriedade da empresa denominada Fazenda Lagoa, no município de Parauapebas”.

A mineradora diz que registrou boletim de ocorrência de número 0071/2020.103382-8, registrado na delegacia de Parauapebas em 22 de junho.

“A segurança da empresa foi chamada depois que o grupo invadiu área da empresa e tentou instalar postes para ligação clandestina de energia elétrica no local. Após várias horas de diálogo na tentativa de convencer o grupo a paralisar a ação ilegal, os seguranças iniciaram a operação de desforço imediato utilizando os meios necessários não letais e em legítima defesa”, diz a nota da empresa.

A Vale afirma que a Polícia Militar e os bombeiros foram imediatamente acionados para controlar a situação e prestar o atendimento médico. “A Vale acompanha o caso e aguardará a conclusão das investigações pelas autoridades, a quem compete a apuração dos fatos”, diz a nota.

A mineradora disse ainda que vem mantendo diálogo com a comunidade, que desde 2015 ocupa a Fazenda Lagoa e tem realizado reuniões com um grupo de moradores desde abril. A empresa afirma que a área ocupada é alvo de um processo de reintegração de posse com decisão judicial favorável à Vale.

Por: Catarina Barbosa
Fonte: Brasil de Fato

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