Helder Barbalho inaugura hospital incompleto e jornalistas são hostilizados

Houve protestos de moradores que questionam a falta de leitos e respiradores na unidade, que passou sete anos para ser construída com um custo de R$ 180 milhões (Foto divulgação)

Protestos, insatisfação da população e truculência com a imprensa marcaram a cerimônia de inauguração do Hospital Regional Público do Tapajós (HRPT) na manhã do dia 9 de julho, no município de Itaituba, no oeste do Pará. Após sete anos de espera, o hospital foi inaugurado com 80% da capacidade: dos 170 leitos prometidos, foram entregues 108 leitos clínicos e 20 UTI´s.

Na coletiva, o governador Helder Barbalho (MDB) disse que o “hospital é o resgate de um sonho da população do Tapajós” e afirmou que a unidade atenderia apenas pacientes de coronavírus, revoltando a população. “Neste primeiro momento, vamos fazer o atendimento para pacientes com a Covid-19. Depois que atravessarmos a pandemia, ele voltará a dar suporte em saúde em outras especialidades nesta região”, declarou.

O HRPT deveria atender 250 mil pessoas por mês e suprir as necessidades de Itaituba e mais cinco municípios: Jacareacanga, Aveiro, Trairão, Rurópolis e Novo Progresso, segundo o governo do Pará. Durante a coletiva de imprensa com Barbalho, que ocorreu no hall do hospital, jornalistas e radialistas foram hostilizados e ameaçados após questionarem a inauguração da obra inacabada.

“O hospital foi inaugurado com menos leitos, não tem respiradores suficientes. Na inauguração. só houve a presença da imprensa e dos assessores. O povo estava lá fora protestando”, disse o jornalista Ramilso Santos, da TV Bandeirante, que foi um dos profissionais hostilizados por seguranças durante a coletiva de imprensa. Um outro repórter, Alex Teka, teve o microfone puxado de suas mãos por funcionário ligado à prefeitura de Itaituba. 

Do lado de fora do Hospital Regional Público do Tapajós (HRPT), manifestantes protestavam contra a inauguração da obra incompleta, já que a população continua buscando atendimento público em outros municípios. É o caso do bebê Ghael Lucas do Santos, 11 meses, que aguarda transferência para o Hospital Regional Público Baixo Amazonas (HRBA), em Santarém. Após ter testado positivo para a Covid-19, o quadro da criança se agravou e complicações no coração e rins foram detectadas. Segundo a família, Ghael segue internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Itaituba. 

Natália Pereira, 26 anos, estudante de engenharia, conta que, por um erro médico que ocorreu em Itaituba, precisou enfrentar uma série de cirurgias de reparação realizadas em Santarém. “Como cidadã, sempre torço para que aqui em Itaituba tenha um hospital de referência e atenda às necessidades de doenças de média e alta complexidade no tratamento. Afinal, não é um pedido, é um direito que temos”, diz.

Helder Barbalho durante a inauguração do hospital do Tapajós (Foto de Jader Paes/Agência Pará/09/07/2020)

O HRPT começou a ser construído em 2013. Em 2019, a Secretaria de Estado de Saúde do Pará (Sespa) anunciou que o investimento na obra era de quase R$ 180 milhões e tinha financiamento da Caixa Econômica Federal. “O hospital foi projetado para ofertar atendimento de alta complexidade, com uma estrutura para 170 leitos, sendo 30 de Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) –10 para a UTI adulto, 10 para a neonatal e 10 para a pediátrica”, anunciou o governo.

No dia 24 de março, o Ministério Público Federal em Itaituba cobrou da Sespa o início do funcionamento do Hospital Regional Público do Tapajós para conter o avanço da pandemia do novo coronavírus. O MPF também solicitou ao governo “especificações sobre quais insumos/equipamentos são necessários para o atendimento, principalmente em relação a possíveis casos de Covid-19”.

Em 18 de maio, Helder Barbalho anunciou mais investimentos para o hospital e diminuiu o número de leitos previstos pela Sespa. “Liberamos hoje R$ 42 milhões para permitir a entrega do Hospital de Itaituba, o Hospital Regional do Tapajós, com 164 leitos; também mais 120 leitos no Hospital Regional de Castanhal e 20 leitos no Hospital de Castelo dos Sonhos. Portanto nós estamos ampliando a nossa estrutura em saúde com estes três importantes compromissos que nos havíamos firmado com a população”, disse.

No dia 24 de junho, em Itaituba, o Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) fez uma live interna para discutir contratações de profissionais no HRPT e instalação de equipamentos. Na ocasião, os promotores disseram que a Sespa havia informado que o hospital seria inaugurado com menos leitos e o atendimento seria exclusivo para pacientes de Covid-19: 54 leitos clínicos, além de 20 leitos com suporte ventilatório. Por causa do número reduzido de leitos anunciados na live do MPPA, a população de Itaituba ficou revoltada.

População de Itaituba protesta pedindo a inauguração do HRPT (Foto divulgação)

Em Belém, em uma live no dia 2 de julho transmitida em suas redes sociais, o governador voltou a prometer a inauguração completa da unidade. “O hospital do regional Tapajós será inaugurado finalmente, dia 8 de julho, com 164 leitos sendo UTI e leitos clínicos, que vai permitir com que a oferta de saúde possa ganhar um reforço extraordinário”, afirmou Barbalho, garantindo que a unidade beneficiaria uma população de 250 mil pessoas do oeste do Pará.

Após a inauguração, que aconteceu no dia 9, a assessoria de imprensa de Helder Barbalho divulgou no site da Agência Pará, que o hospital foi projetado para ofertar serviços de alta complexidade. “A unidade também está atendendo pacientes diagnosticados ou com suspeita de Covid-19, juntamente com as demais especialidades. Construído em uma área de 16.290 metros quadrados, o HRPT conta com 164 leitos, que reforçam a rede de saúde pública no sudoeste do Pará”. A nota não informou o número de respiradores para tratamento de Covid-19, assim como não cita o investimento total realizado na obra do hospital.

Na noite desta terça-feira (14), entre 21h e 22h (horário de Brasília), a assessoria de imprensa divulgou uma nova nota na Agência Pará informando que, “depois que a pandemia de Covid-19 passar”, isto é no futuro, “o HRPT contará com 164 leitos e oferecerá serviços de urgência e emergência de natureza clínica e cirúrgica nas áreas clínicas médica, cirúrgica, pediátrica e obstétrica”.

O governo voltou a prometer que “a instituição também vai dispor de ambulatório com nove consultórios para consultas em clínica geral, traumatologia, ortopedia, cardiologia, infectologia e urologia. O ambulatório terá, ainda, serviços de enfermagem, coleta de exames, farmácia, eletrocardiograma, psicologia, terapia ocupacional e serviço social”.

Truculência com a imprensa 

Durante a inauguração, o radialista Antônio Santana questionou o governador Helder Barbalho sobre a inauguração da obra incompleta, mas foi contido por seguranças. “É o clamor da cidade, por favor é o clamor da cidade, nós queremos o hospital funcionando. Por favor, tem gente morrendo em Novo Progresso, Trairão, Rurópolis, nós estamos no ar, ao vivo”, foram essas as últimas palavras proferidas pelo radialista, antes de ser expulso por seguranças do governo durante a coletiva de imprensa em Itaituba.

“Nós iniciamos as perguntas a primeira vez e fomos interrompidos. A segunda vez também, na terceira vez que ele [governador] não me deu ouvidos e eu perguntei mais alto por que o hospital não seria inaugurado em sua capacidade máxima. Na hora que eu falei na live o segurança dele me puxou e disse que a coletiva já estava encerrada, que não haveria mais perguntas. Eu insisti e o segurança me deu uma gravata. Os ouvintes acompanharam no áudio, foi somente essa pergunta, nada demais”, explica o radialista e diretor da Rádio Comunitária Alternativa FM. 

A Associação dos Profissionais de Imprensa de Itaituba publicou uma nota de repúdio às agressões e ao tratamento hostil destinado aos jornalistas e radialistas na inauguração do Hospital Público Regional de Itaituba. “Uma vez que se fala em liberdade de expressão, direito à livre manifestação do pensamento por qualquer meio, merecemos uma atenção especial por parte das autoridades responsáveis pela segurança da integridade de toda a classe, repudiamos tal ato ocorrido, nos solidarizando com os colegas de profissão”, afirma a nota.

O Sindicato dos Jornalistas do Estado do Pará (Sinjor) afirmou que iria se posicionar sobre o caso, mas não divulgou nota.

O que diz o governo

A assessoria de imprensa do governador Helder Barbalho não respondeu as perguntas enviadas por e-mail pela Amazônia Real sobre as ameaças dos seguranças aos jornalistas e radialistas na coletiva de imprensa. 

A Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) divulgou uma nota à imprensa no dia 9 de julho confirmando que a obra está incompleta. “O hospital [foi] inaugurou com 80% da capacidade, contando com 108 leitos clínicos e 20 leitos de UTI”, disse a secretaria, que prometeu: “a previsão é que até 1º de agosto o hospital esteja funcionando com 100% da capacidade”.

Em nota divulgada na noite desta terça-feira (14), a assessoria de imprensa publicou no site da Agência Pará que “o Hospital Regional Público do Tapajós (HRPT) já está atendendo casos de média e alta complexidade, além de ser referência para pacientes confirmados ou com suspeita do novo coronavírus”.

Sobre os leitos abertos, a nota afirma que o HRPT “conta com 64 leitos exclusivos para Covid-19 – dez de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) – e 64 para outras patologias, dos quais dez também de UTI. Os atendimentos são feitos via regulação estadual, ou seja, o paciente precisa ser encaminhado por outras unidades de saúde”. Neste caso, ainda faltam 36 leitos na unidade dos 164 prometidos à população do sudoeste do Pará.

Segundo o Ministério da Saúde, o estado Pará registrou até o momento mais de 128 mil casos confirmados de coronavírus e mais de 5 mil mortes.

Unidades de Terapia Intensiva do Hospital do Tapajós (Foto de Jader Paes/Agência Pará)

Por: Roberta Brandão
Fonte: Amazônia Real

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