A dor de contar os indígenas mortos pela Covid-19

Coiab cria sistema de contagem de infectados e mortos pelo novo coronavírus, expondo a pouca ação do governo (Foto do ensaio Insulae de Raphael Alves)

Valéria Paye relata que contar as vítimas da Covid-19 tem sido o trabalho mais doloroso da sua vida. Por telefone, ao conversar com a reportagem da Amazônia Real, desabafa: “Só eu sei o que estou passando…” Depois, após oito segundos de silêncio, ela dá um suspiro e responde chorando: “É difícil falar, é dificílimo falar disso”.

Em março, a Coordenação Indígena da Amazônia Brasileira (Coiab), entidade em que Valéria Paye atua como assessora política, decidiu buscar informações sobre a pandemia do novo coronavírus de distintas formas. O informativo “Covid-19 e Povos Indígenas da Amazônia Brasileira”, divulgado semanalmente nas redes sociais da organização, é um contraponto às informações fornecidas pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde. Normalmente, as duas entidades divergem na contagem de infectados e mortos. Mas, mais que números, eles representam vidas perdidas.

“Eu nunca deixo de pensar como essa doença trouxe tanta dor, tantas perdas. Acompanhar a evolução da doença, entre nossas lideranças, professores e pessoas que foram referência para o movimento indígena é muito doloroso”, relata a assessora política. “Eu sofro até hoje, porque não consigo relaxar e não pensar em como essa doença chegou tão agressiva, principalmente na Amazônia brasileira. Se a gente compara com outras regiões do Brasil, nós vemos que não estávamos preparados.”

Diariamente, Valéria entra em contato com lideranças, representantes de organizações da rede da Coiab e servidores da saúde indígenas que informam sobre casos que não entram no boletim atualizado diariamente pelo site da Sesai. É ela quem conversa, investiga e pergunta a indígenas que moram em terras, comunidades e nas cidades para mapear os povos atingidos nos estados.

A assessora da Coiab mora em Brasília e acompanha as decisões políticas de interesse do movimento indígena. Ela lembra que, desde o início da pandemia, a organização indígena vem tentando dialogar, em vão, com o governo. “Há um descuido da política, como um todo, em relação à saúde. Não houve por parte das instituições uma atuação para o esclarecimento da doença [Covid-19]. Eu falo isso porque entrei de cabeça na produção de materiais de informação enviados para as aldeias”, conta.

Valéria Paye (Foto de reprodução)

“Os órgãos estavam parados, tipo ‘estou lavando as mãos’, e isso resultou em grande embate entre nós e a Funai e a Sesai. Antes de a situação chegar ao estágio que está em Mato Grosso, Tocantins, Rondônia e Acre, com muitos casos positivos, quando ainda não tinha nenhum, já falávamos ‘vamos construir, fazer uma parceria, um trabalho preventivo, para quando a doença chegar a gente não ter [um grande] impacto’, mas nada foi feito”, recorda Valéria, que afirma que a Sesai foi negligente. “Ela faz um trabalho muito mais de burocracia, do tipo ‘a gente fez isso, orientou isso, fez o documento tal’. Sim, mas para  efetivação, o que que foi feito?”

A primeira morte entre indígenas do Brasil também foi registrada na Amazônia: um estudante Yanomami, de 15 anos, que morreu em 9 de abril por complicações de uma infecção no pulmão devido à Covid-19. Ele apresentou os primeiros sintomas em 18 de março, passou por diversos atendimentos, e chegou a receber alta médica. Como não melhorava, foi testado para a Covid-19, mas só em 6 de abril. Três dias depois ele morreu no Hospital Geral de Roraima, em Boa Vista.

O jovem Yanomami era da Comunidade Helepe, na Terra Indígena Yanomami, mas estudava o ensino fundamental em uma escola da Comunidade Boqueirão, na Terra Indígena Boqueirão, dos povos Macuxi e Wapichana, no município de Alto Alegre, no norte de Roraima. O local registra grande presença de garimpeiros. 

Esses foram os primeiros episódios do que viria a seguir, traduzida em uma disseminação devastadora da doença sobre os povos indígenas da Amazônia. Hoje, de acordo com a Sesai, até esta terça-feira (29), 28.043 indígenas foram infectados pela Covid-19, e 441 pessoas morreram. Segundo a Coiab, até o dia 25 de setembro, foram 24.723 casos e 661 óbitos. Por trás da distinção entre as duas fontes, Sesai e Coiab, reside um problema de outra natureza.

Identidade apagada na hora da morte

Prefeitura leva serviços de saúde e assistência ao Parque das Tribos
(Foto: Alex Pazuello/Semcom)

Durante a pandemia, muitos indígenas que buscaram atendimento em unidades de saúde fora das terras indígenas foram registrados como pardos. “Isso faz parte dessa política genocida e preconceituosa. A negação da identidade indígena é uma parte do racismo, do preconceito estrutural. Os relatos são muitíssimo fortes. Esses parentes tiveram a identidade indígena retirada”, explica Valéria Paye.

O cacique do povo Kokama, Edney da Cunha Samias, é morador do município de Tabatinga e funcionário da secretaria municipal de saúde. Ele perdeu 17 familiares por causa da Covid-19. Samias relatou à reportagem da Amazônia Real que diversos indígenas da etnia sofreram discriminação racial ao buscar atendimento no Hospital de Guarnição de Tabatinga.

“Como os hospitais estavam registrando o nosso povo como pardo, tivemos muitas brigas para fazer ressalvas e nos registrar como indígenas do povo Kokama. Muitos indígenas da área urbana de Tabatinga abriram mão, negaram a identidade, porque o sistema [SUS] não aceita a identificação como indígena, só como pardo”, conta. “No momento de dor, muitas pessoas não queriam ficar brigando para corrigir a identificação. No hospital militar de Tabatinga, os médicos e outros profissionais de saúde tratavam os Kokama como pardos ou brancos, mas não como indígenas”, relata Samias.

Segundo levantamento realizado pela Open Knowledge Brasil, divulgado no último dia 22, 82% dos estados brasileiros são transparentes com relação ao quesito raça e cor, mas para os da região amazônica esse percentual cai para 78%. Nas capitais do Brasil, esse número é 58% e nas amazônicas, de 44%. 

No Amazonas, o Ministério Público Federal recomendou ao Ministério da Saúde adotar medidas para tornar obrigatório o preenchimento por autodeclaração do campo raça e cor. Isso significa implementar, com obrigatoriedade de preenchimento por autodeclaração, o campo etnia nos sistemas e-SUS Notifica (e-SUS-VE) e no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan).

A medida foi tomada como efetiva pela Coiab, que está dialogando com os órgãos ministeriais de outros estados da Amazônia brasileira para adoção da mesma iniciativa. A ideia é que a identificação da raça e da etnia seja incorporado no sistema SUS. No Amazonas, por conta da recomendação do MPF, essa medida está mais próxima de se tornar realidade.

Na falta de remédios

Indígenas em frente ao Hospital Nilton Lins, em Manaus (Foto: Raphael Alves)

Com o atendimento em saúde precarizado em todo o País, muitos indígenas resgataram costumes tradicionais como o uso de plantas medicinais e benzimentos para tratamento da Covid-19. Chá de alho, jambu e defumações foram usados em toda a Amazônia para tentar curar e evitar a doença.

“Em muitos locais, tivemos que retomar a medicina tradicional. É como se tivesse caído a ficha de que estávamos muito dependentes da medicina ocidental, mas quando a doença chegou, e não tínhamos remédio, para onde recorremos? Para os nossos conhecimentos, para a medicina tradicional, os benzimentos, ao fortalecimento da relação espiritual. Isso foi muito forte para a gente”, conta Valéria Paye. “É mais uma lição para que a gente reflita sobre a medicina tradicional. Na falha do sistema, estamos recorrendo aos nossos saberes e isso que está fazendo a diferença.”

A Associação das Mulheres Indígenas do Médio Solimões e Afluentes (Amimsa) relatou à Amazônia Real que o atendimento em saúde e o combate à pandemia na região continua precário, mesmo depois de seis meses do início da pandemia. A situação já tinha sido alvo de denúncia em maio. 

Uma fonte que prefere não se identificar afirma que oficialmente já não aparecem mais novos casos de coronavírus. Pela contabilidade da Sesai, no Dsei Médio Solimões e Afluentes, foram confirmados 411 casos da doença e nove óbitos. “Tem casos em indígenas, sim, tem comunidades onde praticamente todo mundo ESTÁ contaminado e o silêncio é geral.” Quando entidades como a Amimsa tenta denunciar a situação, elas acabam sofrendo “ataques e perseguições”, garante esta fonte.

O que dizem as autoridades

A reportagem da Amazônia Real procurou a Sesai por telefone e por e-mail dirigido à Assessoria de Imprensa da secretaria, ao secretário Robson Silva e ao Ministério da Saúde, mas até o momento nenhum dos órgãos públicos se manifestou sobre o assunto.

Diante das imagens de colapso que varreram o mundo, Manaus recebeu quase R$ 3 milhões para a adoção de programas de atenção à saúde indígena de contexto urbano da Embaixada da França. O governo francês destinou R$ 18 milhões para ajudar o Brasil em ações de combate à Covid-19 e apoio a populações vulneráveis no Amapá e no Amazonas. 

Segundo a Prefeitura de Manaus, metade dos recursos foi para a construção de um serviço de radiologia junto à unidade de saúde de base móvel da capital e para a compra de 11.300 testes para detecção de Covid-19. A outra parte foi para o Fundo Manaus Solidária, que comprou 15.585 cestas básicas e destinará a mais de 78 mil pessoas. A Prefeitura não explicou por que a UBS saiu do Parque das Tribos e afirmou que “a programação segue um calendário previamente elaborado” para se locomover para locais onde há vazio assistencial de saúde.

Em resposta à Amazônia Real, a Embaixada da França confirmou, por meio de nota, que durante a pandemia destinou cerca de R$ 18 milhões para ajudar às populações “por intermédio de diversos parceiros, entre institutos, associações e o poder público local” dos estados do Amazonas e Amapá.

Sobre a aplicação dos recursos enviados à Prefeitura de Manaus, a Embaixada informou que acompanha as ações por meio de relatórios semanais. “A prefeitura de Manaus faz uma prestação de contas à embaixada, comunicando os avanços do projeto a cada semana, e se comprometeu a entregar relatórios técnicos e financeiros intermediários e finais. Nenhum dos dois projetos foi concluído”, diz outra parte da nota da representação do país francês.

“Os prazos seguem até novembro, para o projeto executado pelo Fundo Manaus Solidária, e até dezembro para o projeto com o Fundo Municipal de Saúde. Até momento, mais de seis mil cestas básicas foram entregues e cerca de 10.400 testes rápidos foram realizados até o dia 18 de setembro”, finaliza a nota da Embaixada da França.

De olho no pós-pandemia

Velório do Cacique Messias no Parque das Tribos (Foto: Raphael Alves)

O vice-coordenador da Coiab, Mário Nicácio, faz um apelo para que a sociedade se una na luta por assistência em saúde permanente para os indígenas. “Tem muita gente boa no País e essas pessoas precisam unir forças com a gente, porque o povo é maior que o governo. O governo não é dono do nosso País. A sensibilização que fazemos todos os dias com a sociedade é para o bem viver dessa geração, dos filhos e netos das pessoas”, diz Nicácio.

A região amazônica vive um momento de declínio nas taxas de contágio e mortes do novo coronavírus, mas a ameaça deixada pela pandemia persistirá por muito tempo. E a ela se somam outros riscos enfrentados pelas comunidades indígenas. “Enquanto tentamos salvar as comunidades da Covid-19 já estamos perdendo outras vidas também pela violência, pelas queimadas. Tem vários parentes perdendo suas casas, seus bens na Amazônia”, afirma Nicácio.

À Amazônia Real, Nicácio afirma que é cedo para medir o impacto da pandemia entre os povos indígenas. “Ainda vai demorar um pouco para a gente pensar, porque temos outras lideranças tradicionais que resistiram como Euclides, Raoni, Davi, Clóvis, Nara. Mas por conta do nosso luto é difícil prever o que vamos passar amanhã”.

Por: Izabel Santos
Fonte: Amazônia Real

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