Os Kuikuro contra o vírus no Alto Xingu: “não teve mortes graças à nossa organização”

Etnia que improvisou hospital é exceção na região; no Brasil, covid-19 está em 156 povos e 779 indígenas já morreram

Hospital improvisado na sede da Associação Indígena Kuikuro do Alto Xingu – Foto: Arquivo Pessoal

Na Aldeia da etnia Kuikuro, no Alto Xingu, pelo menos a metade dos 400 indígenas que vivem no local foram infectados pelo coronavírus, segundo a Associação Indígena Kuikuro do Alto Xingu. Jovens, adultos, o cacique Afukaká Kuikuro e até uma anciã de 90 anos. Mas todos sobreviveram.

“Não teve mortalidade no povo Kuikuro, graças a nossa organização, porque já tínhamos feito conversa em cada aldeia do povo. Agora nas outras aldeias, nos outro povos, teve muita mortalidade, por exemplo, os Kamaiurá, os Yawalapiti”, afirma Yanama Kuikuro Presidente da Associação Indígena Kuikuro do Alto Xingu.

Segundo o último Boletim Epidemiológico divulgado pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), foram 12 mortes e 295 casos confirmados no Distrito Sanitário do Xingu, um dos 34 Distritos (DSEI) delimitados pelo Subsistema de Atenção à Saúde Indígena da Sesai no país.

Ainda em março, quando não haviam casos da doença no Xingu, os Kuikuro conseguiram arrecadar fundos e improvisaram um hospital dentro da aldeia. A associação também contratou uma equipe médica para atuar junto aos agentes de saúde indígenas – que são 120 em toda a região. O suporte da Sesai para o trabalhos dos profissionais foi com insumos, Equipamentos de Proteção Individual (EPI´s), armários novos e medicamentos.

“Existe hoje lá uma unidade improvisada, que foi feito pelo povo Kuikuro, com cilindros de oxigênio. Anciãs de quase 100 anos adoeceram gravemente, precisaram de oxigênio, mas foram tratadas lá, a gente não precisou remover ninguém. O indígena tem a ligação com a terra que é muito forte, muito importante e muito intensa”, conta Giulia Parise Balbão médica da saúde da família que pediu demissão do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, para ser contratada pelos Kuikuro.

A articulação dos Kuikuro para combater o vírus é uma exceção e não se repete em outras aldeias isoladas da região do Alto Xingu, que tem uma população aproximada de 7000 indígenas, segundo a Associação.

“O DSEI Xingu está trabalhando, mas são poucas equipes para atender à população xinguana”, conta Yanama que explica que a iniciativa foi tomada para evitar demoras que pudessem ocasionar óbitos.

A liderança da Associação Kuikuro, que presta apoio a comunidades do Alto Xingu com pacientes em casos mais graves, alerta que o aumento das queimadas é outro fator que vem agravando a capacidade de enfrentamento ao vírus nas aldeias.

“Os matos estão queimando, muita fumaça. O tanto de fumaça piorou a situação dos pacientes, porquê o vírus deixa as pessoas sem ar. Quando chegou o vento, a fumaça, piorou”, revela.

Espaço de acolhimento para tratamento da covid-19 improvisado pelos Kuikuro / Arquivo pessoal

Desde o início da pandemia, a Articulação Nacional dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) vem denunciando a falta de um plano emergencial de combate à covid-19 nas terras indígenas. Medidas de contenção ao avanço da doença nas aldeias só começaram a serem implementadas pelo Governo Federal no início de julho, e por ordem do Supremo Tribunal Federal. 

Dinamã Tuxá, coordenador executivo da Apib , acredita que a negação da doença por parte do governo levou ao enfraquecimento da política de saúde indígena no país. 

“Com a chegada do coronavírus nós percebemos que o Estado estava desestruturado no que tange a política indigenista, principalmente na questão da saúde indígena. E aí o reflexo disso nós percebemos que foi a alta taxa de contaminação em territórios que teoricamente estariam isolados, que seria difícil a chegada do coronavírus. Nós achávamos que ia demorar mais, como é a questão do Alto Xingu”, afirma Tuxá. 

Os últimos dados divulgados pela Apib indicam que existem 29609 casos do novo coronavírus em indígenas no país e 779 já morreram devido à covid-19, em 156 povos.  A Sesai aponta 392 mortes. 

“Por que as equipes de resposta rápida não chegaram com atenção primária à saúde forte nas aldeias desde o início? Essa é uma pergunta para a gente levantar. Por quê que a gente sempre teve historicamente no Brasil uma cultura de promoção de remédio nas aldeias e não de promoção da saúde. isso vai desde a década de 80.” destaca a médica Giulia, vinculada à Sociedade Brasileira de Medicina da Família na área de Saúde Indígena.

O que diz a Sesai

Em nota enviada à reportagem, a Sesai afirma que a sede do Distrito Sanitário do Xingu possui uma Equipe de Resposta Rápida de prontidão, com 120 profissionais de saúde, para atender “eventuais situações de surtos da COVID-19 nas aldeias” e para prestar “atendimentos básicos de saúde aos indígenas da região do Xingu”.

Por: Pedro Stropasolas
Fonte: Brasil de Fato

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