Com envolvimento da comunidade, casos de malária caem quase 20 vezes no norte do Amazonas

  • Estudo conjunto de pesquisadores espanhóis e brasileiros acompanhou por 15 anos comunidades do Baixo Rio Negro em seu esforço de combate à malária. A participação dos moradores foi crucial para reduzir em 94% o número de casos.
  • Treinados para diagnosticar precocemente a malária com o uso de microscópios, os moradores conseguiram diminuir a taxa de tempo entre os primeiros sintomas e o início do tratamento de 68,9% em 2005 para 14,3%.
  • Nos estados da Região Norte, a malária ainda é um problema de saúde alarmante. Segundo a OMS, em 2019, foram confirmados cerca de 156 mil casos no Brasil, sendo 99% deles na região amazônica.

Depois de 15 anos acompanhando os casos de malária no Baixo Rio Negro, um estudo conduzido por instituições espanholas em parceria com a OMS (Organização Mundial da Saúde) e com órgãos de saúde brasileiros comprovou a eficácia da ação comunitária no combate à doença transmitida pelo mosquito Anopheles. A partir do envolvimento de moradores na área do Parque Nacional do Jaú, nos municípios de Barcelos e Novo Airão (AM), e de melhorias nas estruturas dos centros de saúde, os casos de infecção caíram de 354 para 20 entre 2005 e 2015. É uma redução de 94% em dez anos.

Nos estados da Região Norte, a malária ainda é um problema de saúde alarmante. Segundo a OMS, em 2019, foram confirmados cerca de 156 mil casos no Brasil, sendo 99% deles na região amazônica. As infecções costumam se centrar em áreas de mineração, extrativismo madeireiro e assentamentos agrícolas — locais onde as alterações ambientais favorecem a transmissão da doença. No estado do Amazonas, a prestação de serviço de saúde é um desafio, pois muitos povoados se encontram em áreas remotas, como no caso das 14 comunidades monitoradas neste estudo.

Entrada do Parque Nacional do Jaú. Foto: Tim Ellis/CC BY-NC 2.0.

A pesquisa e a ação participativa foram implementadas em duas etapas, sendo a primeira voltada para a saúde geral e a segunda para o manejo dos casos de malária. Em 2001, um grupo in loco entrevistou moradores dentro dos limites do Parque Nacional do Jaú e identificou as doenças mais recorrentes, prevalecendo a malária, seguida de infecções respiratórias, diarreia e disenteria. O grupo foi criado por oito organizações, entre elas as secretarias de saúde de Novo Airão e Barcelos, uma equipe do hospital Alfredo da Matta, representando o sistema de saúde do estado, o Departamento de Controle de Doenças Negligenciadas da OMS e instituições espanholas como o Instituto Catalán de la Salud, na Espanha.

Entre 2003 e 2004, os resultados foram apresentados à população e materiais educativos foram criados em conjunto com as comunidades. Em 2005, o grupo se reuniu novamente para criar uma série de atividades especificamente adaptadas ao contexto sociocultural e ambiental da região. Assim, o segundo ciclo se iniciou focando nos casos de malária.

O grupo de estudo foi ampliado, as unidades hospitalares foram visitadas e avaliadas e dez moradores das comunidades foram escolhidos para serem treinados para ler lâminas de rotina e diagnosticar a doença precocemente. No curso, eles aprenderam a identificar a doença, a utilizar o microscópio, a organizar o centro de saúde e a adotar padrões de segurança pessoal no laboratório.

Em 2009, as estruturas dos centros de saúde das comunidades foram melhoradas — como parte do convênio entre a rede municipal de saúde e o Programa de Controle de Malária do estado do Amazonas — e os locais foram abastecidos com microscópios e equipamentos de qualidade, além de energia solar e baterias para garantir também que as atividades fossem feitas de forma sustentável.

O resultado dessa investida coletiva se mostrou em números: a capacidade de leitura de lâminas de rotina para diagnosticar a malária dobrou em três anos, passando de 923 em 2006 para 1.900 em 2009. Além da diminuição em 94% das infecções na região, a taxa de tempo entre os primeiros sintomas e o início do tratamento também diminuiu de 68,9% em 2005 para 14,3% em 2010.

Mapa do Parque Nacional do Jaú com as comunidades que participaram do estudo. Marcadas com a cruz azul, as comunidades dotadas de trabalhadores da saúde; com os números grandes, aquelas com microscopistas; a área amarela mostra quais foram as comunidades atendidas pelas duas voadeiras disponibilizadas pelo estudo (as áreas em vermelho não receberam lanchas). Imagem: PRAT, Jordi Gómez i et al.

Segundo Levi da Silva, morador do Rio Unini, que na época atuava como vice-presidente de uma associação local, o projeto foi muito positivo para a região, que chegou a ficar seis meses sem assistência médica. Por estar em uma localidade afastada dos municípios de Barcelos e Novo Airão, houve casos de crianças que não resistiram à doença, por ficarem sem o diagnóstico e remédios. “Já que a gente tinha necessidade de melhorar essa parte da saúde, a população participou com entusiasmo. Os casos chegaram a zerar. Agora, de 2017 pra cá, começaram a aparecer novos casos, mas até agora tudo controlado”, reforça.

Sem um planejamento prévio, as atividades educacionais — como a cocriação dos manuais — e o engajamento comunitário, o projeto não teria obtido resultados tão positivos. Jordi Gómez i Prat, principal autor do estudo, afirma que a chave para melhorar as condições de saúde em áreas remotas, como o interior da Amazônia, é ter a participação efetiva da comunidade. Apesar dos desafios de logística, financeiro e humano, o pesquisador explica que reproduzir o modelo integral em outras localidades também é possível. “Como princípio básico, o sistema de saúde deve chegar perto das pessoas, e não as pessoas que devem sair em busca da ‘saúde’”, afirma.

O estudo foi divulgado pela Agência Bori e publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical e contou com a participação das secretarias de saúde municipais de Barcelos e Novo Airão, microscopistas do Programa de Controle da Malária do estado do Amazonas, uma equipe de pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), e do Ministério da Saúde, do Departamento de Controle de Doenças Tropicais Negligenciadas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e as instituições espanholas Fundación Probitas, Universidat de Barcelona e Instituto Catalán de la Salud.

Por: Juliana Aguilera
Fonte: Mongabay

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