Dinheiro na cueca de Chico Rodrigues conta a inglória história política de Roraima

Políticos da velha guarda se revezam no Estado a despeito dos escândalos na gestão pública. Economia local tem forte apoio da máquina administrativa o que abre brechas para a corrupção

Fachada da casa do senador Chico Rodrigues em Boa Vista.
Fachada da casa do senador Chico Rodrigues em Boa Vista.VICTOR MORIYAMA

A campainha da casa do senador Chico Rodrigues (DEM-RR) numa das avenidas residenciais de Boa Vista, em Roraima, parece desligada. As janelas do piso superior, visíveis acima dos muros altos e a cerca eletrificada, também estão fechadas. Foi ali que o senador do DEM, hoje afastado do cargo, desceu aos infernos no dia 14 de outubro, quando a Polícia Federal bateu a sua porta às 6 da manhã, em nome da operação Desvid-19, que investiga desvio de recursos que deveriam chegar para reforçar o atendimento à pandemia do coronavírus nos Estados. A covid-19 já matou 691 pessoas, pelo menos oficialmente, no Estado de 631.000 habitantes, e infectou mais de 50.000 pessoas, segundo o último boletim epidemiológico da Secretaria de Saúde.

Rodrigues não é o único político sob investigação por causa de gastos e esquemas suspeitos durante a pandemia. Mas é o primeiro a ter sido pego em flagrante tentando esconder dinheiro, 33.000 reais, dentro da cueca (parte dele entre as nádegas) durante a operação policial em sua casa. “Fui julgado por guardar meu próprio dinheiro, vivo este pesadelo”, disse o senador em um vídeo gravado com uma trilha musical triste, para dar uma justificativa a seus eleitores. Em 2018, teve mais de 111.000 votos, numa disputa em que dois senadores de Roraima seriam eleitos. Ele foi o mais votado, o outro é Mecias de Jesus (Republicanos – RR).

O problema da polícia não era o fato de o senador ter dinheiro em casa, e sim o fato dele não ter sabido explicar aos policiais que entraram na sua casa a origem desse seu “próprio dinheiro”, o tal que tentou ser ocultado naquele lugar. “Outras cédulas foram encontradas [na residência], porém, documentos comprobatórios da origem foram apresentados e assim o valor sequer foi apreendido”, diz o relatório da polícia encaminhado ao ministro do Supremo Tribunal Federal Luis Roberto Barroso, que autorizou as buscas na casa do senador. Ele é apontado como uma das cabeças de um possível esquema viciado de compras superfaturadas de material para a saúde em Roraima.

Chico Rodrigues submergiu desde então e só tem falado ao público através de notas ou vídeos publicados em redes sociais. Até então, enquanto vice líder no Senado do presidente Jair Bolsonaro, postava vídeos de suas reuniões com autoridades como o ministro o Paulo Guedes, ou Onyx Lorenzoni. Foi um dos cicerones também do secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, em sua visita a um abrigo de refugiados venezuelanos em Boa Vista no dia 18 de setembro.

O ato constrangedor de esconder o dinheiro na cueca que, segundo ele disse em vídeo, foi “um ato de impulso”, é interpretado pelas autoridades como uma confirmação das suspeitas que cercam o senador agora afastado. “O encontro de cédulas de dinheiro, em grande quantidade, sem justificativa de sua origem, e de forma oculta, evidenciam a potencial prática do crime de lavagem de ativos”, diz a Polícia, que encontrou evidência de superfaturamento no valor de quase 1 milhão de reais em contratos aos quais o senador pode ter tido acesso.

O EL PAÍS tentou falar com o senador através da sua assessoria sem sucesso. Neste sábado, tentou um novo contato tocando a campainha da sua casa, e depois batendo no portão, mas não teve resposta. Os vizinhos mantêm discrição, mas não escondem o rechaço ao episódio do dinheiro na cueca. “Nenhum político presta, é tudo ladrão”, dizia uma vizinha que preferiu não se identificar. “Ele é a velha política, um vampiro, tem outras histórias suspeitas”, contavam os jovens empresários Andrei e Gabriel que faziam caminhada na avenida e pararam para falar com a reportagem na frente da casa do senador.

Nascido no Recife, Francisco de Assis Rodrigues tem uma longa e acidentada trajetória na política de Roraima, onde chegou nos anos 1980, ainda durante o regime militar, quando a região era um território administrado pelo Governo Federal. Em 1988, Roraima foi emancipado para o status de Estado, mesmo ano em que Rodrigues, que é formado em engenharia agrônoma, elegeu-se vereador em Boa Vista, cargo que ocupou por dois anos. Na sequência, lançou-se candidato a deputado, e logrou reeleger-se cinco vezes por distintos partidos.

Nesse período, envolveu-se em diversos escândalos, como o uso de notas frias para justificar a compra excessiva de combustível com verba parlamentar em 2006. Também ficou inelegível depois de o Tribunal Superior Eleitoral identificar gastos irregulares de campanha em 2010 quando se elegeu vice do governador José de Anchieta Junior (PSDB-RR). Chegou a assumir o governo em 2014 por oito meses quando Anchieta Junior foi afastado por problemas com a Justiça eleitoral. Mas seu papel como governador teve um desfecho negativo, ao ter o mandato cassado em dezembro pelos gastos não explicados na campanha da sua chapa. Constam em seu currículo ainda promoções irregulares de dois tenentes-coronéis do Corpo de Bombeiros aos cargos de coronel, e de participação em fraudes que envolvem um irmão seu na prefeitura de São Luiz do Anauá, no Estado.

Eduardo Bolsonaro e Chico Rodrigues posam para foto em 2019.
Eduardo Bolsonaro e Chico Rodrigues posam para foto em 2019.ADRIANO MACHADO / REUTERS

Com um currículo desse, como ele conquistou mais de 111.000 votos em 2018 para um mandato que vai até 2027? Rodrigues venceu numa disputa em que competia com outros nomes da política roraimense, entre eles, Romero Jucá, ex-senador do MDB, que ficou famoso pelos diálogos gravados pela Operação Lava Jato em 2016, em que tramava o impeachment da ex-presidente Dilma e hostilizava os efeitos da operação Lava Jato, no auge da sua fama. “Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria [aberta pelas investigações da Lava Jato”, dizia ele em diálogo com o então empresário Sergio Machado. Na conversa, Machado sugeria fazer um acordo nacional para estancar a tal sangria. Ao que Jucá complementou com a frase que seria eternizada na política brasileira: “Com o Supremo com tudo”.

Boa Vista, má memória

Em 2018, a pacata Boa Vista, onde vivem meio milhão de roraimenses, garantiu a Chico Rodrigues mais de 80.000 dos 111.000 votos conquistados, deixando para trás memórias antigas das suas escorregadas políticas. A capital do Estado, a mais bolsonarista do Brasil, segundo pesquisa Ibope, carece de partidos de base popular e repete as famílias políticas no poder desde sua fundação em 1988, como explica Roberto Ramos, doutor em Ciência Política, do Núcleo de Pesquisas Eleitorais e Políticas da Amazônia (Nupepa) da Universidade Federal de Roraima.

Roraima, que viveu de garimpo ilegal por décadas, se alinha com a postura desenvolvimentista para a Amazônia do presidente Bolsonaro. “Falta emprego aqui, precisa liberar o garimpo”, comentava um motorista de Uber, saudosista de seus tempos em que buscava ouro nas terras roraimenses antes de dirigir por aplicativo. O senador afastado também é defensor da exploração do garimpo em terras indígenas, como Bolsonaro. Há um embate natural com os ambientalistas no Estado que conseguiu blindar 26 áreas indígenas, demarcadas nas últimas décadas. São 11 etnias no total, incluindo grupos de Yanomami, que garantiram suas reservas legais ―a mais famosa, a Raposa Serra do Sol.

O Estado, que responde por algo como 0,2% do PIB brasileiro, tem sede de crescimento e políticos da velha guarda ―a maioria em Roraima― viu nas propostas de avanço da extração de minérios na região uma oportunidade. “Aqui ninguém apoia o crescimento do empreendedorismo”, diz Andrei, sócio de uma casa de hambúrgueres.

Hoje 41.000 famílias do Estado são beneficiárias do Bolsa Família, incluindo as de venezuelanos refugiados que se instalaram principalmente em Pacaraima, na divisa com a Venezuela, e Boa Vista. O fato é que Roraima carece de um plano de desenvolvimento que garanta o crescimento econômico para mudar a matriz econômica. Metade do PIB é composto de dinheiro advindo da máquina pública, a mais alta proporção do país. É nessa seara que se abrem brechas para negócios suspeitos, como o que agora é investigado pela Polícia Federal na operação Desvid-19. “A distribuição de cargos públicos sem concurso, corrupção, compras governamentais e políticas sociais clientelísticas são os principais mecanismos de construção de apoio eleitoral em Roraima”, diz o professor Roberto Ramos, que já tentou se eleger prefeito em Boa Vista pelo Partido dos Trabalhadores, mas ficou em terceiro lugar.

Nas investigações da Desvid-19, a PF jogou luz nas relações do senador com a empresa Quantum, cujo sócio, Roger Pimentel, é casado com Sandrea de Araújo, irmã de Samara de Araújo Saud, assistente no gabinete do senador. Samara é casada com Jean Frank Padilha Lobato, que seria operador de Rodrigues. Além disso, o senador tinha estreita ligação com um funcionário da Secretaria, como mostram conversas captadas pela polícia. Na prática, a investigação aponta que o senador teria um papel de gestor paralelo da Secretária da Saúde para influir em contratos de compra.

Vice-líder de Bolsonaro

O senador Chico Rodrigues construiu relações com o presidente Jair Bolsonaro, de quem é colega de longa data. Empregava em seu gabinete em Brasília o sobrinho do presidente, Leo Índio, com salário de mais de 20.000 reais. Conseguiu liberar milhões em emendas parlamentares. Parte desses recursos estão hoje sob investigação. Quando foi eleito, Rodrigues prometeu que trabalharia pelo desenvolvimento sustentável do seu Estado. Um de seus sonhos era a construção de uma estrada Boa Vista – Georgetown, na Guiana Francesa. Destacou-se nestes dois anos pela quantidade de viagens internacionais que fez em missões do Governo, e pela defesa acirrada da pauta bolsonarista.

O ato por impulso de esconder dinheiro na cueca, que o deixou nacionalmente famoso, porém, tirou a bênção pública do presidente, e ele perdeu o posto de vice-líder. Restou ao parlamentar manter discrição, defender-se por vídeo e pedir o afastamento do cargo por 121 dias ―o que na prática é quase dizer que não voltará mais e deixar o seu posto para o suplente, no caso, seu filho, Pedro Arthur Rodrigues.

Se seu filho assumir o cargo, seguirá a tradicional dança das cadeiras familiares no Estado. A ex-governadora Suely Campos (PP-DEM), que governou Roraima entre 2014 e 2018, por exemplo, é casada com Neudo Campos, que governou Roraima entre 1994 e 2002. A deputada Sheridan Oliveira (PSDB-RR), atual candidata a prefeita, foi casada com José de Anchieta Filho, ex-governador entre 2007 e 2014 (ele faleceu há dois anos). Boa Vista é governada por Teresa Surita há dois mandatos, que foi casada com Romero Jucá. Surita, porém, fez seu nome independentemente do ex, e hoje soma mais de 80% de aprovação, o que ajudará a eleger seu sucessor nesta eleição municipal, seu atual vice Arthur Henrique.

A grande maioria dos políticos de Roraima enfrenta ou enfrentou questionamentos na Justiça, como compra de votos, nepotismo ou inclusão de funcionários fantasmas na sua folha de pagamento. Neudo teve de cumprir prisão domiciliar por liderar o chamado Escândalo dos Gafanhotos, que contou com a contratação de milhares de funcionários fantasmas para desviar recursos do Estado, num total de 70 milhões, segundo o G1. Mecias de Jesus, o outro senador roraimense eleito com Chico Rodrigues, também virou réu nesse processo. Sueli Campos, que se elegeu quando o marido foi impedido de seguir sua campanha por ter se tornado Ficha Suja, gerou polêmica ao contratar 19 parentes em seu Governo, incluindo uma filha e uma irmã.

Se há uma certa tolerância, falta de alternativa ou memória fraca da população sobre os desvios de conduta de seus governantes, não se sabe. Mas Rodrigues caiu na desgraça de achar que passaria incólume por tentar driblar a polícia numa operação em flagrante. Alvo de toda sorte de chacota e trocadilhos em função do dinheiro da cueca, dificilmente vai se recuperar aos olhos da população depois de trair a confiança de seus eleitores e de se ver sem palavras para responder sobre um dinheiro que não foi declarado. Virou folclore depois de eleger o pior esconderijo para vultosa quantia.

Por: Carla Jimenéz
Fonte: El País

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