Interior do Amazonas registra mortes por falta de oxigênio

A crise atinge os municípios de Iranduba, Manacapuru e Itacoatiara, região metropolitana de Manaus, onde foram confirmadas 16 mortes por asfixia. Governo de São Paulo enviará 50 mil doses da vacina do Butantan ao Amazonas.

Caos na Pandemia: Interior do Amazonas registra mortes por falta de oxigênio
Na imagem acima, o oxigênio chegando em Parintins (Foto: Liam Cavalcante/Amazônia Real)

Na noite de sexta-feira (15), Iranduba chegou a ficar algumas horas sem oxigênio. “Perdemos quatro vidas”, afirma à Amazônia Real uma profissional de saúde do hospital Hilda Freire, que pediu para ter o nome em sigilo por temer represálias. Na semana passada, o município já tinha registrado mortes por asfixia dentro do hospital, assim como em Itacoatiara e Manacapuru, totalizando mais 14 mortes por causa da crise de oxigênio no estado. Os municípios fazem parte da Região Metropolitana de Manaus.

Em Tabatinga, cidade amazonense que fica na fronteira com a Colômbia (a mais de 900 quilômetros de Manaus), três pacientes graves precisaram ser transferidos para o estado do Acre, porque não havia vagas e muito menos oxigênio em Manaus. As cenas chocantes do colapso do sistema hospitalar da capital do Amazonas se espalharam para o interior do estado. 

Até a manhã de sábado (16), havia 20 pacientes de Covid-19 internados em Iranduba. À noite, o número era de 30, sendo 10 intubados na Unidade de Cuidados Intensivos (UCI). De acordo com a prefeitura municipal, seriam necessárias ao menos três unidades de UTI´s dentro do hospital para atender à população

“Eu sei que Manaus precisa, só que nos municípios do interior as coisas estão ficando desesperadoras. Muitas informações divulgadas nas redes sociais sobre chegada de oxigênio são fake. Muitos estão desesperados por não possuírem dinheiro para comprar oxigênio. Quem tem dinheiro compra, quem não tem, morre”, afirmou um professor de um parente internado no Hilda Freire, em Iranduba, que também pediu para não ser identificado. 

No sábado (16), depois de enfrentar fila em Manaus, ele conseguiu um cilindro que “dá para uma noite ou menos”. “Aqui falta tudo. Funcionários estão pedindo ajuda nas redes para comprar sabão, desinfetante, tudo. Os pacientes estão pedindo socorro a todo momento, está tudo lotado, chega gente a toda hora”. Ainda de acordo com esse professor, os que não têm condições estão usando uma espécie de “oxigênio artesanal, uma adaptação de garrafas de plástico com soro, ligado à central”.

Na noite de sábado (16), a Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu ao Superior Tribunal de Justiça a abertura de um inquérito para investigar uma eventual omissão do governo do Amazonas e da prefeitura de Manaus no colapso do sistema de saúde da rede pública durante a segunda onda de Covid-19. Pouco antes, o Ministério Público do Amazonas informou a abertura de procedimento para investigar os casos de mortes por falta de oxigênio no Amazonas, no âmbito do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).  

O Amazonas tem 62 municípios, mas só Manaus possui leitos de UTI (Unidade de Tratamento Intensivo). A falta de oxigênio já afeta hospitais também dos municípios de Parintins e Autazes. O Ministério Público Estadual (MPE) entrou com ação civil pública para que o governo estadual garanta o fornecimento no interior. 

A pandemia do novo coronavírus atingiu em cheio Manaus, mas ao longo de 2020 espraiou-se pelo resto do Amazonas. Atualmente, os municípios do interior representam 57,48% dos 229.367 casos de Covid-19: são 132.251 casos confirmados e 2.119, conforme boletim divulgado hoje (17) pela Fundação de Vigilância em Saúde (FVS). O estado chegou a marca total de 6.191 mortos pela Covid-19, sendo 4.072 na capital.   

Desde o dia 9 de janeiro, o município de Iranduba vive o toque de recolher das 14 às 6 horas. O decreto do município é válido até o próximo dia 23. No entanto, falta fiscalização. Na noite de sábado, o comércio não essencial estava funcionando normalmente após o toque de recolher, conforme constatação da reportagem da Amazônia Real.

O secretário de Saúde de Iranduba, Daniel Barroso, afirmou em uma rede social que oito pacientes em estado grave aguardavam transferência para Manaus, mas não tinha resposta até o momento. Um caminhão frigorífico foi estacionado do lado de fora do hospital desde sexta-feira (15). A cidade está a apenas a 19 quilômetros da capital do Amazonas, um trajeto que pode ser percorrido em até 40 minutos por via terrestre. Na sexta-feira, o oxigênio ainda não havia chegado, mesmo com uma liminar obtida pela Procuradoria municipal contra a empresa White Martins.

Em nota divulgada neste domingo (17), o governador Wilson Lima (PSC) disse que triplicou o número de leitos na rede hospitalar; agora são 700, devido a alta dos casos do novo coronavírus. Sobre o problema do abastecimento de oxigênio, o governo destacou que há um esforço junto ao governo federal, à iniciativa privada e apoio humanitário, para estabilizar a demanda. Ele anunciou que uma cargas de 107 mil metros cúbicos (m3) de oxigênio chegará até terça-feira (18) como doação do Governo do Distrito de Bolívar, na Venezuela. A atual demanda de Manaus é de 70 mil m3/dia. “É uma doação que está sendo feita (…). Isso vai contribuir significativamente para que haja uma estabilidade na nossa rede hospitalar, tanto na capital quanto no o interior”, afirmou Lima, sem citar que foi o presidente venezuelano Nicolás Maduro que anunciou a doação de “oxigênio necessário para atender a contingência sanitária em Manaus”, no dia 14.

Itacoatiara abre vala comum para enterros

Caixões em fila no cemitério de Itacoatiara (Foto: Divulgação)

Em Itacoatiara, a falta de oxigênio levou o MPE a entrar com ação civil pública, cuja liminar foi deferida pela Justiça no sábado (16). Na Ação Civil Pública, o MPF relata que o apelo da prefeitura do município recebeu uma resposta que causou perplexidade.

”O secretário do Interior, órgão pertencente à estrutura da Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas, por ocasião do desabastecimento no estado do Amazonas, chegou a oferecer câmaras frigoríficas ao prefeito municipal de Itacoatiara, Mário Jorge Abrahim, orientando-o a abrir valas no cemitério local, uma vez que não havia previsão para o fornecimento de oxigênio”, diz texto da ação civil pública do MPE.

Em uma transmissão em uma rede social, o prefeito Abrahim afirmou que houve 31 casos e 5 óbitos em 24 horas em Itacoatiara. “Já tivemos mais de 15 falecimentos somente nos primeiros 15 dias deste ano. Hoje, não temos mais oxigênio líquido, que era o abastecimento no tanque, mas buscamos alternativas para suprir através de cilindros”, disse, garantindo que o município tem estoques para os próximos dias.

Pacientes internados e familiares do interior imploram pela transferência para Manaus, mesmo que a estadia em um leito na rede pública garanta ar suficiente para sobrevivência. Até o momento, as doações recebidas pelo governo do Estado contabilizam 11,8% da demanda diária, de 76 mil metros cúbicos. Em uma operação a conta-gotas, o fornecimento de outros Estados, via aviões da FAB, somam 20 mil metros cúbicos diários. Além disso, a principal fornecedora do Estado, a White Martins, tem enviado cargas até Belém, de onde é feito o transporte até Manaus por meio de balsas, cujo trajeto é de 4 a 5 dias.

O nível de emergência é tamanho que, para agilizar a distribuição dos insumos, parte do carregamento desembarca e já percorre toda a rede de saúde da capital para abastecimento. Outra parte é levada à sede da empresa em Manaus, onde é feito o processo de engarrafamento e, posteriormente, distribuído para o interior do Amazonas.

Na tarde de sábado, três cilindros de 50 litros cada foram embarcados, de helicóptero, para Itacoatiara, em cumprimento à liminar. No caso de descumprimento, a multa diária é de R$ 10 mil. Ao menos 77 pacientes hospitalizados esperam pelos cilindros. No entanto, a curva ascendente de internação é de 20 pacientes por dia.

Manacapuru corre contra o tempo

Situação dos hospitais de Manacapuru (Foto: Divulgação)

Em Manacapuru, distante a 70 quilômetros de Manaus, via AM-070, sete pessoas morreram por falta de oxigênio. De acordo com o MPE, 52 pessoas estão internadas acometidas pela Covid-19, sendo que 14 estão hospitalizadas nas UCIs do Hospital de Campanha da Prefeitura. A cidade é a primeira no interior do Amazonas em mortes pelo novo coronavírus: 204 até sábado, segundo dados da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM). O número de pessoas contaminadas nas últimas 24 horas foi de 200 pessoas, somando 5.260 casos.

A necessidade do município, de acordo com levantamento do MPE, é de 2 mil metros cúbicos de oxigênio por dia, o equivalente a 200 cilindros de 10 metros cúbicos. No entanto, havia apenas 32 cilindros disponíveis até sábado, o que obriga a equipe médica a dividir um cilindro para 3 pacientes. O restante está sendo suprido através de manobras de reanimação cardiorrespiratória.

“Tais medidas são paliativas e, se mantidas, resultarão em mais mortes nas próximas horas”, afirma a promotora de Justiça Lilian Nara Pinheiro de Almeida, titular da 2ª Promotoria de Manacapuru, na ação que pede o fornecimento de 100 metros cúbicos de oxigênio medicinal no prazo de 24 horas. O volume corresponde à metade da necessidade diária, e outros 1,5 mil metros cúbicos em 72 horas. 

A promotora solicita que, em cinco dias, seja normalizado o fornecimento do oxigênio no município. Na noite de sábado, a Prefeitura de Manacapuru anunciou a chegada de 19 concentradores de oxigênio, que serão utilizados no Hospital de Campanha do município. Essas máquinas são capazes de fornecer até cinco litros de oxigênio por minuto e é possível poupar os cilindros para atender os pacientes mais graves.

Durante a sexta-feira (15), o secretário de saúde de Manacapuru, Adanor Pereira Porto Filho, percorreu Manaus em busca de oxigênio. “Estamos atrás de fornecedor, não tem nada, não tem nada. A capacidade estrangulou”, disse. Questionado se foram tomadas medidas para o racionamento do gás vital, ele respondeu: “Ninguém pode racionar algo que é essencial à vida ou a gente consegue ou podem morrer. Todos estão precisando. O caos está instalado.”

Pela manhã do mesmo dia, o prefeito Beto D’Ângelo declarou em sua rede social: “Estamos há cinco dias de colapso de oxigênio. Estamos em Manaus, com várias equipes, em vários carros, com cilindro de oxigênio nas carrocerias, batendo na porta das fábricas, buscando onde tenha um boato que seja, que tenha um cilindro, a gente está atrás. Estamos lutando para não deixar faltar para quem esta lá”, afirmou, chorando.

Desde o dia 12 foi emitido um novo decreto municipal, que suspende os serviços não essenciais em Manacapuru por 15 dias. A medida é válida até 27 de janeiro.  

Usina não garante autonomia em Parintins

Chegada da usina em Parintins (Foto: Liam Cavalcante/Amazônia Real)

No município de Parintins (a 368 quilômetros de Manaus), a falta de oxigênio nos hospitais levou a prefeitura a adquirir com urgência uma usina de produção. “A usina que adquirimos em setembro, somada à usina que chegou agora dá autonomia de 90% da demanda, com nossos 135 leitos de Covid-19 ocupados”, afirmou o secretário de saúde de Parintins, Clerton Florêncio. “Não vamos sair da crise, mas é um número expressivo.”

No final da tarde de sábado (16), a usina de produção de oxigênio comprada pela prefeitura de Parintins para o Hospital Jofre Cohen chegou em uma aeronave C-130 Hércules, da FAB. A usina funciona à base de energia elétrica concentrando o ar ambiente até a obtenção de oxigênio medicinal.

O equipamento tem capacidade para produzir 32 metros cúbicos de gás por hora. A expectativa é de que esteja em operação dentro de um dia e meio. De acordo com o secretário, o município irá fornecer oxigênio também para os 15 pacientes internados no hospital Padre Colombo, pertencente à Arquidiocese local.

Na quinta-feira (14), a corrida por oxigênio desesperou profissionais que atuam no hospital Jofre Cohen em Parintins. Com 80 pacientes internados, na ocasião, todos dependiam do gás nobre. No começo da pandemia a unidade de saúde possuía 60 leitos que foram aplicados para 97 e, neste mês, para 120.

Na manhã de sexta-feira, 45 cilindros chegaram à cidade em um voo fretado pela Prefeitura. Com os carregamentos que chegam de Santarém e Terra Santa (ambos no Pará), 40 e 16 cilindros respectivamente, é suficiente para aguentar mais seis dias, segundo o secretário Clerton Florêncio.

“Chegou um dado momento que tínhamos somente 10 horas de oxigênio possível. O sufoco foi em decorrência do ‘sequestro’ de um caminhão tanque que estava vindo e foi ‘sequestrado’ em Manaus. Nos deixou em uma situação bem difícil”, disse o secretário. A prefeitura montou uma logística local, com mobilização do Dsei Parintins, fretamento de voos vindos de Brasília, helicóptero, para que o oxigênio chegasse.

Nas drogarias de Parintins, a população se revolta pela falta de medicamentos que teve de emitir um comunicado nas redes sociais explicando “não ser falta de planejamento”. O desabastecimento inclui remédios sem comprovação científica contra Covid-19 como ivermectina, azitromicina e até dexametasona.  

Tabatinga transfere pacientes para o Acre

Três pacientes do município de Tabatinga são transferidos para hospitais do Acre (Foto: SES-AM)

Três pacientes de Tabatinga, município localizado a 1.106 quilômetros de Manaus, na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, foram transferidos do hospital de guarnição do Exército para hospitais de Rio Branco e Cruzeiro do Sul, no Acre, na semana passada.

Um dos pacientes, de 35 anos, foi hospitalizado em Rio Branco, capital do Acre. Os outros dois, um com 63 anos e outro com 65 anos, foram transferidos para um hospital de Cruzeiro do Sul. Em nota oficial, o governo do Amazonas informou que decidiu pela remoção de pacientes, na capital e no interior, após dificuldade de abastecimento de oxigênio apresentado pela empresa White Martins.

De acordo com informações do Comando da 12ª Região Militar, o hospital foi ampliado para o atendimento de pacientes militares e civis. No entanto, o Hospital de Guarnição de Tabatinga possui leitos de tratamento semi-intensivo, não adequado a casos mais graves. A unidade conta com 21 leitos de enfermaria e 8 de tratamento semi-intensivo e está com taxa de 50% de ocupação. As duas novas usinas de oxigênio, instaladas durante a ampliação, atendem o número de leitos da unidade, segundo o Comando Militar.

A partir desta segunda-feira (18), entra em vigor em Tabatinga um decreto municipal proibindo tráfego de veículos em vias públicas entre as 18  e 5 horas. Somente serviços delivery, veículos particulares que transportam doentes para atendimento médico, bem como veículos que transportam trabalhadores com declaração emitida pela empresa a serviço, estão autorizados. Serviços e comércio de produtos não essenciais estão proibidos por mais 15 dias. Os demais podem funcionar em horário comercial. 

Foi também por meio de liminar que o município de Autazes, a 112,5 quilômetros de Manaus, teve de garantir o direito ao recebimento de oxigênio. No despacho, a juíza Danielle Augusto, titular da Comarca de Autazes, ordena que o governo estadual forneça, em 24 horas, cinco garrafas de oxigênio medicinal; em 72 horas, mais cinco e em cinco dias, 40 garrafas de oxigênio, totalizando 50 cilindros, ao fim do prazo. Até a publicação desta reportagem, a prefeitura de Autazes não confirmou o recebimento dos cilindros. O município tem 45 óbitos e 1,8 mil casos confirmados.

Na manhã de sábado (16), 22 cilindros de oxigênio, que foram abastecidos em Porto Velho-RO, chegaram ao município. “Mais uma hora sem oxigênio começaríamos a perder os pacientes. Por isso, fizemos esta operação”, disse o prefeito Andreson Cavalcante na rede social da prefeitura.

Vacinas do Butantan

Enfermeira indígena Vanuzia Costa Santos vacinada contra o Covid-19
(Foto: Governo do Estado de São Paulo.)

Em meio a tragédia, o governador de São Paulo, João Dória (PSDB), anunciou uma boa notícia neste domingo (17) para os amazonenses. Um total de 50 mil doses da vacina do Instituto Butantan, a CoronaVac, que foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), será enviado para os profissionais de saúde do Amazonas amanhã (18), informou o site do governo de São Paulo.

Na capital paulista, mais de 100 pessoas foram vacinadas com a primeira dose da CoronaVac, entre elas, a enfermeira Mônica Calazans, de 54 anos, a primeira pessoa do país a ser vacinada, e Vanuzia Costa Santos, de 50 anos, indígena, da etnia Kaimbé. “Sou defensora da vida, de outras vacinas, da prevenção e da saúde. Devemos valorizar a educação, a ciência, e isso pode ser conciliado mantendo uma crença, com as rezas e a medicina tradicional do meu povo”, afirmou Vanuzia.

Em Manaus, o governador Wilson Lima (PSC) não fez declarações sobre as doses da vacina de São Paulo, mas comunicou que embarcou neste domingo para São Paulo para receber pessoalmente os lotes da CoronaVac. Segundo sua assessoria, ele receberá também vacinas do Ministério da Saúde, iniciando a imunização em Manaus na quarta-feira (20)

“A vacina do Butantan contra o coronavírus obteve 50,38% de eficácia global no estudo clínico desenvolvido no Brasil, além de proteção de 78% em casos leves e 100% contra casos moderados e graves da Covid-19. Todos os índices são superiores ao patamar de 50% exigido pela OMS (Organização Mundial de Saúde)”, informou o governo do São Paulo.

Pandemia da covid -19 em Tabatinga, AM (Foto: Antônio Caldas/Amazônia Real)

Por: Steffanie Schmidt
Fonte: Amazônia Real