Socorrista do Samu diz que pediu à Pazuello hospitais da Marinha no Amazonas

Socorrista do Samu diz que pediu à Pazuello hospitais da Marinha no Amazonas
O pedido foi feito durante uma live que o funcionário invadiu no dia 11 de janeiro, na semana de estourar a crise do oxigênio. Na foto o socorrista Denison Vilar durante protesto e homenagearam os funcionários que morreram na pandemia em frente à Prefeitura Municipal de Manaus (Foto: Juliana Pesqueira/Amazônia Real)

A agência Amazônia Real entrevistou o condutor-socorrista do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) Denison Vilar, de 39 anos, um ex-militar da Marinha que se tornou uma espécie de “porta-voz” da categoria. Ele ficou conhecido no dia 11 de janeiro, quando invadiu a live da cerimônia do Lançamento Plano Estratégico de Enfrentamento à Covid-19 em Manaus, evento coordenado pelo ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, na semana que estourou a crise da falta de oxigênio na capital amazonense. “Invadi e gritei pedindo a valorização profissional de saúde com proventos e não com palmas e parabéns. Palmas e parabéns não pagam nossas contas”, explicou.

O socorrista disse que fez pedidos ao ministro Pazuello. “Pedi ao ministro que trouxesse os navios-hospitais da Marinha para atender a população do interior do Amazonas (…). Também pedi ao ministro que montasse hospitais de campanha das Forças Armadas com o Ministério da Saúde, para que a gente pudesse ter mais aporte do governo federal, porque não adianta só mandar dinheiro para cá, porque os recursos, infelizmente, muitos não chegaram a atender a população a contento”, disse Denison Vilar.

Na pandemia do novo coronavírus, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) está na linha de frente para salvar vidas na maior crise sanitária da história do Amazonas devido à falta de oxigênio nos hospitais. Muitas vezes os socorristas transportam pacientes por horas a fio em busca de um leito em ambulâncias sucateadas e testemunham mortes, muitas mortes. Além do déficit de profissionais, enfrentam condições precárias de trabalho e têm salários defasados. E, para piorar, a maioria dos funcionários não foi vacinada contra a Covid-19. A vacinação foi retomada no dia 23 de janeiro, depois que a prefeitura de Manaus foi intimada a publicar as listas dos vacinados por causa de denúncias de pessoas que furaram a fila de prioridades. 

Nesta segunda-feira (25), os funcionários do Samu fizeram uma manifestação pela “valorização profissional e respeito”, na sede da prefeitura de Manaus, na zona oeste. Com a presença de 57, dos 800 profissionais, a manifestação lembrou a questão da insalubridade, não poupou críticas à empresa da previdência Manausmed e à carga horária diária. Os funcionários queriam ser recebidos pelo prefeito David Almeida (Avante), mas ele ignorou o pedido. Quem os recebeu foi o chefe da Casa Civil, Tadeu de Souza Silva, que prometeu reunir as reivindicações e levá-las para que o prefeito possa estudar as demandas. Eles aproveitaram a mobilização para fazer uma homenagem aos socorristas mortos por Covid-19: Lincoln Sousa, Sabrina Melo, Odilon Jesus, Izabel Cristina e Milton Couto. Confira a entrevista exclusiva abaixo:

Protesto dos funcionários do Samu na Prefeitura de Manaus (Foto: Juliana Pesqueira/Amazônia Real)

Amazônia Real –  Como analisa o resultado da mobilização feita nesta segunda-feira, pelos profissionais do Samu, junto à Prefeitura de Manaus ? 

Denison Vilar –  De antemão foi uma maneira diferente de lidar com os servidores. A prova disso foi a recepção de hoje. Apesar de o prefeito não ter recepcionado a gente, ele mesmo, mas quem estava lá (chefe da Casa Civil, Tadeu de Souza Silva) pelo menos abriu as portas da prefeitura para que a gente pudesse entrar e dialogar, porque o antigo prefeito Arthur (Neto) a gente ficava lá no meio da rua gritando igual doido e ele não estava nem aí. Passou oito anos enganando o profissional de saúde e agora a gente tem um que pelo menos recebe a gente dá um tratamento diferenciado e está com boa vontade de resolver nossas demandas. 

Amazônia Real – Quando o Samu comunicou o governo oficialmente sobre a falta de oxigênio?

Denison Vilar – O Samu é administrado pelo município e o atual prefeito (David Almeida) atuou a tempo de não deixar faltar oxigênio nas unidades de saúde do município. Nas UBS (Unidades Básicas de Saúde), nas maternidades e no Samu não faltou. O que tínhamos eram várias ambulâncias paradas (por problemas mecânicos). O prefeito mandou remanejar o oxigênio das unidades paradas para as que estavam funcionando.

Amazônia Real  – Com hospitais lotados, há relatos de que os profissionais do Samu ficam rodando horas com os pacientes dentro dos carros até achar um hospital que possa recebê-los. Quantas pessoas já morreram nesta espera? 

Denison – Nós estamos tendo uma grande dificuldade de deixar os pacientes nos hospitais.  Os hospitais estão superlotados e a gente tem que passar por duas, três unidades de saúde sem conseguir deixar o paciente, por não ter vaga. Muitas das vezes os cilindros de oxigênio acabam e nós precisamos trocar os cilindros de oxigênio das ambulâncias e nas unidades hospitalares, muitas vezes, fica retido maca, fica retido oxigênio, fica retido o material de trabalho da gente, impossibilitando que a gente possa atender outros pacientes.

Amazônia Real – E quantos já morreram antes da crise do oxigênio? 

Denison – A gente não tem como contabilizar. Tem pessoas que resolvem colocar o seu familiar de volta no seu carro e levar para casa. Já aconteceu de morrer (paciente) na ambulância, de morrer na porta do hospital, tem várias situações. Temos dez bases do Samu em Manaus, descentralizadas em várias regiões da cidade, e tem mais uma base fluvial, que não deve está fácil para os colegas.  Então, não tem como contabilizar quantas pessoas morreram. Eu mesmo vi duas pessoas morrerem, mas a gente sabe que tem muito mais, principalmente ali no (hospital) 28 de Agosto. Eu presenciei duas mortes, mas os meus colegas todos têm relatos de mortes. Agora com todas essas dificuldades que estamos tendo para atender a população, não tem como contabilizar diretamente.

Amazônia Real  – Quando foi que vocês começaram a perceber o aumento dos casos de Covid? Quando foi que vocês perceberam que havia uma segunda onda? 

Denison – As equipes começaram a observar nos seus plantões dois, três casos de Covid. Antes havia um ou outro caso. Então começou a ter dois, três casos, nos plantões, e de repente começou a subir de maneira absurda. Foi quando entendemos que a segunda onda havia começado com força. Pegou todo mundo de surpresa, porque ninguém esperava tantos casos ao mesmo tempo.

Amazônia Real – Neste período do início da segunda onda, qual foi a situação mais grave que você presenciou?

Denison  – Foi de chegar às casas para fazer o atendimento e já encontrar as pessoas mortas. Chegar na casa de um familiar e as pessoas informarem que já haviam perdido um ente querido naquele dia, e já estávamos encaminhando um outro ente com quadro clínico agravado por Covid. E aí em frente à casa em que fazíamos o atendimento, havia um mercadinho cheio de pessoas sem máscara. O dono do estabelecimento sem cobrar que os seus clientes colocassem a máscara. Enfim, nós estamos cansados de ouvir sobre prevenção. Outra situação complicada que presenciei foi uma família perder um ente querido pela manhã e, pela tarde, já ter outro parente em estado grave em casa, e todo mundo misturado na casa, como se tivesse tudo bem. Então, a falta de informação e atitude das pessoas para evitar a proliferação do vírus é bem preocupante para todos nós. A gente se sente impotente. Não temos mais condições de atender tanta gente e as pessoas continuam agindo da mesma maneira.

Amazônia Real – Como está a situação do Samu do ponto de vista estrutural e de recursos humanos? 

Denison – Hoje, estamos com um déficit de 100% de pessoal no Samu. Estamos hoje com aproximadamente 140 profissionais condutores-socorristas, sendo que pelo menos 40 devem estar afastados por idade, fazer parte do grupo de risco ou questões de saúde comum. Pelos menos uns 100 estão na linha de frente para atuar 24 horas por dia, em aproximadamente 20 ambulâncias. Temos 52, mas estamos atuando com 20 ambulâncias. O atual prefeito está com suas equipes na rua tentando colocar as outras unidades para funcionar. Mas mesmo com as outras unidades funcionando, temos uma certa dificuldade para prestar o serviço, porque não tem gente suficiente. Não foi feito concurso nos últimos oito anos de mandato do prefeito Arthur Neto. Há também déficit de material. Não foram realizadas nas ambulâncias uma manutenção adequada, no decorrer desses últimos anos. A cidade de Manaus com mais de 2 milhões e 200 mil habitantes e 100 profissionais condutores-socorristas não é o suficiente. Estamos com déficit de técnicos de enfermagem também. Eu cito principalmente os condutores-socorristas, porque você pode ter mil técnicos, mil enfermeiros, mil médicos que não vai resolver porque a ambulância só vai sair se tiver um condutor-socorrista.

Amazônia Real  – E como estão as condições de trabalho?

Denison – Temos que trabalhar sábado, domingo e feriado, dia santo, sem ganhar 1 real a mais. O final de semana é como se fosse um dia normal. Todos os cidadãos recebem valores diferenciados por trabalhar sábado, domingo e feriado. Nós, do Samu, não recebemos. Estamos na expectativa de que o atual prefeito reveja o plano de carreira dos profissionais e que a gente possa receber pelos plantões como qualquer outro trabalhador. 

Amazônia Real  – Quais são as principais reivindicações?

Denison – Queremos adicional de insalubridade de 40%. Os profissionais recebem 7% de insalubridade. Nosso adicional noturno também está defasado. O pagamento de horas extras nos finais de semana. Pagamento do auxílio-alimentação de R$ 242, que deveria ser no mínimo R$ 600, como é pago na PM e no Corpo de Bombeiros. A data-base (reajuste) de 2020 que não foi concedida.  O déficit do salário do profissional do Samu está em mais de 40%.

Amazônia Real – No dia 11 de janeiro, você invadiu a cerimônia do Lançamento Plano Estratégico de Enfrentamento à Covid-19 em Manaus, evento coordenado pelo ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. Qual era a sua ideia com este ato e o que disse para o ministro? 

Denison – Invadi a live do ministro Eduardo Pazuello e do governador Wilson Lima e gritei pedindo a valorização profissional de saúde com proventos e não com palmas e parabéns. Palmas e parabéns não pagam nossas contas. Quis falar direto com o ministro e com o governador, com o prefeito sobre a situação dos profissionais de saúde. Pedi ao ministro que trouxesse os navios-hospitais da Marinha para atender a população do interior do Amazonas, que com certeza está passando por muita dificuldade. Também pedi ao ministro que montasse hospitais de campanha das Forças Armadas com o Ministério da Saúde, para que a gente pudesse ter mais aporte do governo federal, porque não adianta só mandar dinheiro para cá, porque os recursos, infelizmente, muitos não chegaram a atender a população a contento. Ninguém sabe para onde foi o dinheiro que veio do Ministério da Saúde para o Estado do Amazonas.

Amazônia Real – O que representa para você trabalhar no Samu?

Denison Vilar – Fui militar por dez anos e pedi para sair por não poder me expressar no serviço militar, por ser perseguido, por expor as dificuldades quando militar. Eu saí, larguei, eu era um profissional de carreira. Há oito anos estou no Samu Manaus. Sou apaixonado pelo que faço, tenho orgulho do meu trabalho, mas, infelizmente, estamos passando um momento muito difícil, onde não temos muito o que fazer pelas pessoas em virtude do grande número de casos e a estrutura nada adequada que temos.

No vídeo acima, José Mauro, socorrista do Samu explica o motivo da mobilização para visibilizar os profissionais do serviço de atendimento de urgência.

Por: Leanderson Lima
Fonte: Amazônia Real