Boas safras dão “autonomia” a produtor de MT

Para um viajante desavisado, rodar de carro pela principal estrada de Mato Grosso, a BR-163, rumo ao norte do Estado, é espantar-se com as imensas plantações de soja, que se estendem até onde a vista alcança, por várias centenas de quilômetros.

Maior produtor de soja do país, Mato Grosso nunca plantou tanto. Na safra que começou a ser colhida nos últimos dias, foram mais de 6,9 milhões de hectares – quase o tamanho da Irlanda -, de acordo com o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).

No momento em que as colheitadeiras começam a ganhar o campo, as expectativas convergem para uma produção igualmente recorde. O uso de grandes volumes de adubo no plantio e o clima favorável durante o desenvolvimento das lavouras sinalizam produtividades acima das médias históricas, embora seja crescente a preocupação com a chuvas recentes (ver abaixo).

Se tudo correr como o esperado nas próximas semanas, o volume de soja deverá ultrapassar a barreira das 22 milhões de toneladas. “Mesmo que a produtividade não seja a esperada, o simples aumento da área plantada deve garantir uma safra recorde”, disse Marcos Rubin, sócio da Agroconsult, durante expedição promovida pela consultoria pelas lavouras do Estado.

A nova safra marca o quinto ano seguido de aumento da produção e consolida o processo de recuperação do agronegócio mato-grossense após a crise da dívida que manteve o setor praticamente paralisado na segunda metade da última década.

Os preços das commodity ainda não retornaram aos patamares pré-crise de 2008, mas encontram-se muito acima das médias históricas e suficientemente altos para garantir lucros polpudos aos agricultores.

Capitalizados após uma sequência de boas safras, eles saldam as dívidas e retomam os investimentos. Só na última safra, a área plantada registrou uma expansão de quase 500 mil hectares – a maior em sete anos. Apesar disso, a área é apenas 11% maior do que aquela observada em 2005.

O último grande ciclo de investimentos em Mato Grosso aconteceu entre o fim dos anos 1990 e o início da última década. Estimulados por novas linhas de financiamento para a compra de máquinas, como o Moderfrota, e pela conjuntura favorável, os produtores mais que dobraram a área cultivada de 1999 a 2005 – de 2,9 milhões para 6,2 milhões de hectares.

O resultado foi uma grave crise de endividamento, inúmeros calotes e sucessivas prorrogações das dívidas de custeio e investimento. Como consequência, a área plantada com soja encolheu em mais de 1 milhão de hectares em 2006 e só voltou a superar a marca de 6 milhões de hectares em 2009.

Rubin afirma que o agronegócio mato-grossense passa por um novo ciclo de expansão, mais “sustentável” que o do início da última década. “O produtor está mais comedido em seus investimentos. E, como está muito capitalizado, é bem menos dependente do crédito quando decide investir”.

O produtor Sérgio Stefanello, da Fazenda Porta do Céu, é um exemplo. Com cerca de 9 mil hectares plantados, adquiriu no último ano cinco novas colheitadeiras, dois pulverizadores, quatro tratores e quatro plantadeiras. Pagou 60% de todo o investimento do próprio bolso, financiando apenas 40%. “Há alguns anos, financiávamos 110% do investimento”, brinca. “Hoje, conseguimos renovar o parque de máquinas sem se endividar muito”.

Ferrarin, produtor em Sorriso, lembra que acesso a financiamento é difícil

Com cerca de 1,6 mil hectares plantados, o produtor Jeferson Milanez Bif, da Fazenda Primavera, mostra o armazém com capacidade para quase 500 mil sacas recém-concluído. A nova estrutura consumiu cerca de R$ 2,5 milhões, tirados integralmente do bolso. “Fui atrás do empréstimo, mas a demora é grande. Quando me ligaram dizendo que o financiamento havia sido liberado, a obra já estava quase pronta”, diz.

Amauri Salviano Jr., gerente-geral da Araguaia Agrícola, concessionária de máquinas agrícolas na região de Sorriso, conta que os recursos próprios custearam cerca de 40% das vendas de tratores e colheitadeiras na região no ano passado. “Há alguns anos, era tudo financiado”. Segundo ele, a tendência é que a participação dos financiamentos cresça, à medida que os juros caiam. “As taxas praticadas hoje nas linhas oficiais, próximas de 6,5%, já são muito atraentes”, afirma.

Darci Ferrarin, proprietário da Fazenda Santa Maria da Amazônia, de Sorriso, diz que muitos produtores da região ainda têm dificuldade em acessar as linhas de financiamento devido a pendências relacionadas à questão fundiária e ao processo de renegociação das dívidas passadas. “As exigências aumentaram muito, e às vezes o produtor não consegue apresentar todos os documentos e certificados necessários”.

Segundo Rubin, a capitalização dos agricultores é resultado não só de uma sequência de boas safras e preços atraentes no mercado internacional. “O aumento das restrições ambientais, que dificulta novos desmatamentos, a forte valorização das terras já agricultáveis e o pagamento de dívidas passadas nos últimos anos colocaram um freio nos investimentos e deixaram o produtor com mais recursos em caixa”, resume.

Além disso, a crise dos anos 2000 concentrou uma fatia maior da produção nas mãos de grandes grupos, mais capitalizados. Segundo a Federação de Agricultura do Mato Grosso (Famato), os 20 maiores grupos produtores, que em 2005 detinham 9% da área plantada no Estado, hoje detêm 19%.

Os produtores também usam mais recursos próprios para financiar o custeio da safra, a conta que inclui a aquisição de fertilizantes, agrotóxicos e sementes. “Quando se tem o dinheiro para comprar à vista, você reduz em 15% a 20% seu custo de produção. Nosso lucro está na compra e não na venda”, diz Ferrarin, que pagou à vista metade dos insumos consumidos no plantio de 14 mil hectares de soja na última safra.

O cenário também deixa os produtores menos dependentes das tradings na hora de se financiar. Segundo a Associação dos Produtores de Soja do Mato Grosso (Aprosoja), a participação dessas empresas no “funding” desta safra foi de apenas 18%, enquanto os recursos próprios dos produtores representaram cerca de 35%.

Por volta de 2005, as tradings respondiam por quase metade dos recursos, e os recursos próprios não superavam 22%. “A estrutura de financiamento da safra vem mudando nos últimos anos, sinalizando maior uso de recursos próprios em detrimento das tradings e do sistema financeiro”, afirma Rubin.

Mesmo assim, o superintendente da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), Seneri Paludo, vê com cautela o novo ciclo de investimentos. “O produtor precisa levar em conta que os níveis de rentabilidade atuais são um ponto fora da curva. A realidade não é essa e pode pegar muita gente de surpresa”, afirma.

Por Gerson Freitas Jr.
Fonte: Valor Econômico 

Deixe um comentário